segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

SOLSTÍCIO XII

Já publicado:
Solstício I
Solstício II
Solstício III
Solstício IV
Solstício V
Solstício VI
Solstício VII
Solstício VIII
Solstício IX
Solstício X
Solstício XI




Hildegaard acordou nos braços do seu primo e levantou a cabeça, sobressaltada. Ainda era noite lá fora, apenas uma lamparina ardia no quarto. Mais tranquila, voltou a pousar a cabeça na almofada. Não queria faltar ao ritual da madrugada, nem tinha sido sua intenção adormecer, mas o sono vencera-a, e o conforto naqueles braços... Baixinho, a voz no seu íntimo perguntava também: porque não?
Suavemente, Hildegaard esgueirou-se para fora da cama e o frio no quarto arrepiou-lhe a pele nua. Depressa, vestiu-se. Era hora de acordar Eric também, mas ele dormia tão profundamente, tão serenamente...
O silêncio era completo. Nem os ramos das árvores se ouviam, naquela noite sem vento. Hildegaard aproximou-se da janela e contemplou a escuridão. Nada se via lá fora, até a lua já se tinha escondido. Era deveras a hora das trevas, a hora mais escura da noite mais longa. A hora de se recolher dentro de si própria, e ouvir.
Há mais de um ano que Eric insistia. Por duas vezes a tinha pedido em casamento, por duas vezes tinha dito não. Mas nessa noite, naquele quarto, Eric tinha-a olhado nos olhos, e já não era tão insistente a pergunta: Porque não?
– A minha liberdade. Não quero perder a minha liberdade. – Hildegaard tinha respondido, e já não era tão convicta a resposta.
Mas algo tinha acontecido, dessa vez, nos olhos profundos do seu primo. Uma aceitação, um resignar, um desistir... Eric tinha compreendido, e com um beijo nada mais disse. Não voltaria a perguntar.
Hildegaard surpreendeu uma lágrima que lhe escapou pelo rosto abaixo. E agora ele partiria, e agora diriam adeus, e aquele amor transformar-se-ia em memória... Eric teria uma vida, lá longe, no reino, mas já não havia vida nas Terras Verdes. Hildegaard sabia, como todos sabiam, que já não era vida o que os animava. Era repetição, era vazio, eram como aqueles fantasmas errantes que nem sabiam que estavam mortos.
Que vida era aquela, em que não vivia? Que liberdade era aquela, em que se aprisionava? Sim, era a última vez. Hildegaard sabia que era a última vez que amava, a última vez que escolhia, a última bifurcação no caminho. O vazio, familiar e seguro, ou o futuro, imprevisível e desconhecido... que era a vida.
Que confusão era aquela agora? Hildegaard julgava já ter escolhido. Que indecisão era aquela agora, em que sensatez e cobardia se confundiam?...
Ao longe, os cânticos recomeçaram. Uma fila de archotes, na noite escura, já subia a colina... E tudo era vazio, e tudo tinha perdido o significado.
Hildegaard sentou-se na cama e abanou o seu primo, suavemente, gentilmente.
– Acorda. Temos de ir à cerimónia. As Boas Vindas, a última cerimónia do Solstício.
– O quê?! – Eric perguntou, esfregando os olhos. – Mas ainda é de noite!
– Já não será noite por muito tempo. O Sol vai nascer. Vamos dar-lhe as boas vindas.
Eric esforçou-se por acordar completamente e soergueu-se da almofada, espantado e confuso.
– Pensei que isso tinha sido ontem...
– Não. Ontem celebrámos a noite, hoje celebramos o dia. Acorda! É a Vigília! Nem sequer devíamos ter adormecido! – e Hildegaard sorriu, divertida. A última coisa que o seu primo queria fazer era sair daquela cama, mas corajosamente conformava-se. – Vou acordar o menino. Quero que ele venha e assista.
Hildegaard já se levantava, quando Eric lhe pegou no pulso. Acordado, completamente acordado, lia-se-lhe nos olhos que recordava aquele pedaço de noite, aquele pedaço de longínqua memória em que em breve se transformaria o que tinham partilhado naquela cama. Suavemente, quase numa despedida também, Eric aproximou-se e beijou-a nos lábios. E era só, e era tudo.
E era o fim. Amargo e doloroso, era o fim. Hildegaard sacudiu a cabeça, como se falasse consigo própria. Era mesmo aquilo o que queria para a sua vida, solidão e vazio? No caminho, a bifurcação fechava-se, fechava-se, e o tempo esgotava-se... No seu íntimo, no seu coração, teria já escolhido?
– Apressa-te, não temos muito tempo. – recordou ao seu primo, e saiu do quarto.



Continua...

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