quinta-feira, 26 de abril de 2018

Nepenthos - excertos publicados

Capítulo I - primeira parte
Se era mau, tinha regressado pior.
Capítulo I - segunda parte
A jovem ergueu os olhos, evitando os do taberneiro. Olhava antes para o caminho em sua frente, o escuro corredor que conduzia à sala cor de fogo de onde ouvia os homens falarem alto e rirem às gargalhadas…
Capítulo II - primeira parte
Nada mais do que fazes aqui.
Capítulo II - segunda parte
Devia ser aquilo, o desespero, quando a morte, qualquer morte, lhe servia de maior engodo do que a esperança.
Capítulo III - primeira parte
Se me quiserem fazer mal, não vai ser esta chave a impedi-los de arrombar a porta.
Capítulo III - segunda parte
Aquela era a sua única, a sua última oportunidade. 
Capítulo IV (excerto)
Desde que o futuro se apresentara demasiado medonho para o contemplar
Capítulo VII (excerto)
Onde a morte enchia de frutos o seu cesto ávido 
Capítulo VIII (excerto)
Beijou o rosto cinzento da sua irmã pequenina, e largou o seu corpinho para dentro das chamas

Capítulo XII (excerto)
 Acreditavam, ambos, ter enganado o destino

Capítulo XVIII (excerto)
Talvez fosse maior a tristeza ao ouvir os males que não conhecia ela própria.



Capítulo XVIII (excerto)

Capítulo I - primeira parte
Capítulo I - segunda parte
Capítulo II - primeira parte
Capítulo II - segunda parte
Capítulo III - primeira parte
Capítulo III - segunda parte
Capítulo IV (excerto)
Capítulo VII (excerto)
Capítulo VIII (excerto)
Capítulo XII (excerto)


Talvez fosse maior a tristeza ao ouvir os males que não conhecia ela própria.

Micenne ficou, e foi recebida como uma amiga. Não era uma delas, não conhecia o que elas conheciam, mas todas sabiam o que a esperava no mundo lá fora. Não era uma delas, mas podia ter sido. Era já como elas, as que tinham chegado àquela casa assustadas e em lágrimas, a quem só o tempo e a amizade tinham tranquilizado.
À noite, no salão, Micenne servia bebidas aos convidados e timidamente sorria como se fosse seu dever. O seu dever, não o seu lugar. Reena observava, como reservada e constrangida Micenne se mantinha no seu cantinho e não falava com ninguém, e ninguém a saberia doce e amável como já todos na casa a conheciam. Deslocada, receosa daqueles estranhos, não se aproximava. O tempo e a amizade tinham-na tranquilizado, talvez, mas Micenne não era feliz, e nunca era aberto aquele ténue sorriso.
Numa manhã fria, mas resplandecente do sol radioso daquelas terras, Reena encontrou-a no jardim, sozinha, de olhar pousado nas flores de inverno que naquele clima ameno prosperavam como se fosse primavera. Teria ela encontrado também o conforto das flores? O sol rosava-lhe as faces, já menos pálidas, e brilhava-lhe nos cabelos louros, meio soltos meio entrançados, em complicados padrões, como se um manto de ouro a cobrisse. Embrulhava-a um simples manto de lã, oferta de uma das raparigas, e nem por isso a sua beleza era menos majestosa. Reena aproximou-se, para lhe perguntar sobre as flores, e viu que chorava. Sem um som, sem um lamento, as lágrimas caíam-lhe pelo rosto, uma atrás da outra, pesadas e contínuas.
– Não queria que visses. – confessou Micenne, ao perceber a sua presença, e apertou mais o xaile à volta dos ombros. – Disseste-me para ter esperança, e eu quero ter esperança, mas este mundo… É um lugar tão amargo, este mundo, para tantos de nós. Às vezes preferia não ter nascido, ou que a morte me levasse, para não ter de viver neste mundo.
O desespero não largava aquele coração, já lhe tinha fincado garras, profundas e afiadas, e era tão mais grave do que Reena tinha pensado. Os lábios tremeram-lhe, na falta de palavras, naquele momento em que se embrenhou naqueles olhos tão claros, e tão cheios de escuridão, e se lembrou do alívio da morte, e como era tentador, o alívio da morte, onde não haveria mais sofrimento, nem lágrimas, nem dor.
– Eu perdi a esperança, em tempos. – admitiu, e os olhos brilharam-lhe também. Estendeu a mão à dela, para a confortar, ou para partilhar um segredo. – Mas se tivesse feito o que pensei fazer não estaria aqui agora para ajudar outras como eu. Se soubesses como a minha vida era infeliz, e como mudou tanto! E se mudou para mim, mais facilmente mudará para ti.
A Micenne apenas, Reena contou o suficiente. Havia suficiente que contar sem contar muito. Micenne ouvia, em confidência, e o coração arrepiava-se-lhe. Não tinha julgado que pudesse haver pior, e já se não sentia tão abandonada pela sorte. Mas não era maior, a esperança, talvez fosse maior a tristeza ao ouvir os males que não conhecia ela própria.
 

sábado, 7 de abril de 2018

Nepenthos - Capítulo XII (excerto)

Capítulo I - primeira parte
Capítulo II - primeira parte
Capítulo II - segunda parte
Capítulo III - primeira parte
Capítulo III - segunda parte
Capítulo IV (excerto)
Capítulo VII (excerto)
Capítulo VIII (excerto)

Acreditavam, ambos, ter enganado o destino



Todo o semblante do duque Alexander se tinha transformado, de choque, de íntima agitação, de incredulidade. Os olhos, sempre tão serenos, pareciam voltar-se para o passado e vê-lo à sua frente, como tinha acontecido, como se acontecesse agora. Era um segredo, que tinha mantido por mais de vinte anos, um segredo tão terrível que só a custo o começava a relatar. Um desgosto, o maior de todos os desgostos, que por graves razões tinha sido forçado a esconder, por tanto tempo, de toda a gente com quem lidava de longe ou de perto. Um segredo que Eric conheceria porque precisava de conhecer.
Tinha havido um amor, tinha havido uma filha. Há tantos anos, era Alexander ainda o jovem herdeiro do ducado, tinha-se apaixonado por uma bonita serva do palácio. Um amor correspondido, grande e forte, puro e sincero, que não tinha olhos para a grande distância que os separava se apenas podiam pertencer um ao outro. Ambos sabiam que ele seria obrigado a contrair casamento entre a nobreza, mas mesmo assim decidiram ficar juntos e assumir aquela união que só lhes valeria censura. A Alexander magoava muito que aos olhos do mundo a mulher que amava não passasse de uma amante, remetida à discrição que aquela relação lhes impunha, quando por sua vontade não seria outra que não ela a sua legítima esposa. Julgavam-se sensatos, ambos, e aceitaram que não podia ser de outra maneira. Alexander ofereceu-lhe uma casa na cidade, não muito longe do palácio, e jóias e fortuna e todo o conforto que o dinheiro podia comprar, para que a falta do matrimónio nunca a entristecesse, embora sentissem, ambos, que nos seus corações era maior o laço que os unia do que as restrições que os cerceavam. Durante alguns anos foram felizes, felizes como nunca tinham sido e não voltariam a ser. A seu tempo, a família de Alexander combinou-lhe o casamento com outra nobre herdeira, no intuito de fortalecer a aliança entre as duas casas. Em dias de guerra e prudência, Alexander acatou. A sua jovem amada, sensata que era, concordou que não havia alternativa. Planeavam ser felizes, apesar de tudo, naquela casa da cidade, longe das imposições e da falsidade que eram obrigados a consentir. Se ao menos a duquesa Agatha tivesse sido igualmente condescendente… Mas não era, e depressa começou a revelar ciúmes e pouca inclinação para tolerar aquele arranjo. Alexander não queria expor a sua amada a evitável vexame. Assim que herdou o ducado, pela morte do pai, propôs-lhe que fosse viver para um castelo da família, longe dali, onde seria senhora absoluta e nem sequer teria de ver passar a sua esposa legítima ou lembrar-se de que esta existia. Triste, a princípio, porque a distância ia impedi-los de se encontrarem tão frequentemente, a jovem preferiu guiar-se pela inteligência, aquela inteligência que Alexander tanto lhe admirava, e admitiu que seria a melhor solução. O amor que partilhavam era tão perfeito que nenhuma distância importaria. Acreditavam, ambos, ter enganado o destino, e sonhavam começar uma família, longe de tudo e de todos, num lar cheio de amor onde as limitações do mundo não lhes ensombrassem a alegria.
Não aconteceu logo, a partida, bastante adiada, porque se amavam e não se queriam separar, e porque entretanto ela se achava grávida e Alexander desejava muito acompanhar a chegada ao mundo do seu primeiro filho. Só quando a gravidez ia já adiantada é que a jovem resolveu que seria mais acertado mudar-se para o castelo antes do nascimento da criança. Havia ainda tempo, para a viagem e para se instalar. Sem pressa, ela partiu, em segredo e na calada da noite, como escolta apenas alguns criados e guardas de confiança para que ninguém soubesse para onde iam. Embora em tempo de guerra, Alexander não estava preocupado. Mandara guarnecer o castelo como a uma fortaleza onde a sua amada e o seu filho ficariam a salvo. Não tardaria muito para que a visitasse. Era apenas um curto adeus.
Acabaria por ser a gravidez o que a atrasou. Mais cedo do que o previsto foi surpreendida pelo trabalho de parto e teve de se socorrer da estalagem mais próxima onde deu à luz uma menina. Prontamente um dos guardas, que viria a tornar-se um dos homens de maior confiança do jovem duque, cavalgou noite e dia para lhe anunciar que tinha uma filha. Foi também a última notícia que teve dela.
Assim que voltou a poder viajar, a jovem retomou caminho, com o seu séquito, mas nunca chegou ao destino. A versão oficial determinava que a comitiva tinha sido atacada por salteadores que a mataram, e a todos os criados e guardas, para roubarem as jóias preciosas que levava consigo. Não havia testemunhas do massacre.
Ao relatar esta parte, a voz de Alexander desvaneceu-se, abalada, como se tivesse sido ontem, como se não se tivessem passado mais de vinte anos, e o imperador escutava-o no silencioso respeito de quem lia naquele rosto o grande luto que fazia ainda.
O mistério começou, prosseguiu o duque, porque estavam todos mortos menos a criança. A menina, pura e simplesmente, tinha desaparecido. Louco de dor, abandonou tudo para sepultar a mulher que amava, e logo de seguida pôs-se à procura da recém-nascida, com a ajuda do seu homem leal, o único que escapara à matança porque regressara para lhe dar a notícia. O mistério adensava-se ainda mais. As jóias foram todas recuperadas sem dificuldade porque os ladrões as tinham vendido por um preço irrisório e suspeito, mas da menina não havia sinal. Durante meses, anos, Alexander esperou que lhe exigissem um resgate, mas o pedido nunca chegou. Pensou então que havia duas hipóteses: ou sabiam que a criança era sua e temiam demasiado a sua vingança para se atreverem a expor-se, ou não sabiam, e ter-se-iam meramente desfeito dela. Passaram-se anos, anos após anos de cruel angústia, imaginando o que de pior teria acontecido à sua filha, antes de conseguir dispor-se a aceitar que a menina estaria morta, para não sofrer mais e em vão. Tinha já outros filhos, que a duquesa dera à luz, e a eles se dedicou com o mesmo amor com que teria desejado amar aquela primeira menina. Morta, de certeza, morta. Mas ainda se questionava, no segredo da sua dor, por que razão não teriam os malfeitores posto fim à criança logo ali, junto da mãe, e porque a teriam levado, se não para a venderem e tentarem obter algum lucro? Seria sequer concebível que a brutos assassinos tivesse faltado a coragem de matar uma recém-nascida?... Mas admitindo essa possibilidade, por remota que parecesse, quem poderia adivinhar que aquela bebé desprotegida era filha de um duque? Bastaria envolveram-na em trapos sujos e alegarem que era órfã. Qualquer família lhes pagaria meia dúzia de trocos por uma futura serva, e assim se livravam da única prova do seu crime.
Havia ainda uma suspeita mais sinistra com que Alexander tinha aprendido a conviver, não obstante os seus escrúpulos em alimentar infundadas conjecturas… A mãe da sua filha, e os acompanhantes, viajavam como gente simples e modesta para não atraírem atenções. Ninguém sabia da sua partida, excepto se os tivessem espiado. Como é que então os salteadores tinham escolhido precisamente aquela comitiva, e porque não se tinham limitado a roubar? Porque se tinham visto na necessidade de matar a todos? Porque não tinham apenas eliminado os homens, se estes tivessem porventura oferecido demasiada resistência, e poupado as mulheres, já que era manifesto que não tinham matado a criança, pelo menos ali?... Todas essas questões o atormentavam, embora não tivesse a mínima prova das suas suspeitas, mas no íntimo do seu coração sempre tinha desconfiado que aquela obra terrível tinha uma mão menos acidental, e que essa mão era a da própria duquesa.


terça-feira, 27 de março de 2018

Nepenthos - Capítulo VIII (excerto)

Capítulo I - primeira parte
Capítulo II - primeira parte
Capítulo II - segunda parte
Capítulo III - primeira parte
Capítulo III - segunda parte
Capítulo IV (excerto)
Capítulo VII (excerto)


Beijou o rosto cinzento da sua irmã pequenina, e largou o seu corpinho para dentro das chamas



Não era vulgar, a história que Rurik tinha para contar. Embora começasse como a de muitas outras famílias pobres, as famílias dos camponeses que trabalhavam aquelas terras, mais a sul, onde tinha nascido. Rurik tivera uma família como essas, camponeses sem nada de seu, que viviam num miserável casebre com os seus sete filhos, dos quais Rurik tinha sido o quinto. Agora Rurik sabia que nem todas essas humildes famílias tinham sido abençoados com a verdadeira abundância que havia debaixo do seu tecto: amor, carinho, alegria. Nem a pobreza, nem as privações, nem a dura vida do campo roubavam àquela família a alegria. O pai era brincalhão, a mãe uma doçura, e só o que faltava às vezes era comida suficiente para encher os pratos, mas partilhavam de bom grado o pouco que tinham, como tinham sido ensinados pelo pai e pela mãe. Porque eram muitos, os irmãos mais velhos iam cuidando dos mais novos, e Rurik tinha a seu cargo uma irmãzinha que adorava e um bebé de colo. Foram felizes os tempos com os seus irmãos e irmãs… Até que a terrível peste visitou aquelas terras. Todos na casa ficaram doentes. Rurik não foi excepção. Durante muitos dias permaneceu inconsciente e febril, entre a vida e a morte, sem noção do que se passava à sua volta. Acordou sozinho, naquela manhã silenciosa, milagrosamente recuperado, e encontrou o pai e a mãe na cama, mortos, e todos os seus irmãos, mortos. Havia um cheiro na casa, um cheiro que jamais conseguiria esquecer, prova de que muitos deles estavam mortos há vários dias, mas a ordem exacta em que tinham perecido não seria capaz de precisar. Talvez a primeira a sucumbir tivesse sido a mãe, porque, disso lembrava-se, tinha adoecido mais cedo. O único sobrevivente, daquela casa, daquela aldeia, de toda a região, tinha sido ele. Das vilas em redor, depois da mortandade, não restava sequer o nome. Mas Rurik nada disso suspeitava ainda, ignorante de como a morte o rodeava por aqueles campos fora, e no seu terror de menino desamparado e entregue a si próprio tomou nos braços o corpo da irmãzinha que amava e não a largou, sem saber o que fazer nem para onde ir, e continuava a cantar-lhe canções de embalar como se ela apenas dormisse, já as moscas tinham tomado a casa para seu repasto. Mais dias passaram até ouvir vozes de homens, vozes desconhecidas, de forasteiros, que falavam em pegar fogo ao casebre. Rurik não queria sair e abandonar a sua família. Mal acreditava que a tinha perdido! Ficou dentro de casa, escondido e calado, até o fogo subir pelas paredes. Só então, apavorado, escapou por uma pequena janela, ainda com a sua irmãzinha ao colo, e ao verem aquele milagre os homens benzeram-se e mandaram-no largar a criança e ir até eles, e muitos taparam a cara com um pano temendo o contágio. Rurik percebeu quem eram aqueles homens e porque queimavam a sua casa para que não se propagasse a doença. Enviados ali, aqueles homens, para dar fim aos mortos, como a sua família, todos mortos, mas ele não. Ele não, e não tinha alternativa, se queria juntar-se de novo aos vivos, senão restituir àquele túmulo a sua irmã preferida. Rurik não sabia se queria juntar-se de novo aos vivos, mas beijou o rosto cinzento da sua irmã pequenina, e largou o seu corpinho para dentro das chamas. Como um pequeno fardo de palha, ela caiu, e o fogo devorou-lhe os cabelos. Rurik não viu mais, porque desviou os olhos.
 

quinta-feira, 22 de março de 2018

Nepenthos - Capítulo VII (excerto)

Capítulo I - primeira parte
Capítulo II - primeira parte
Capítulo II - segunda parte
Capítulo III - primeira parte
Capítulo III - segunda parte
Capítulo IV (excerto)

 Onde a morte enchia de frutos o seu cesto ávido


Eric regressava a casa depois da visita a um nobre com quem mantinha proveitosos negócios muito a norte do reino. Tão a norte que as altas montanhas dos seus domínios se sentiriam ofuscadas por aquelas irmãs mais poderosas, toda uma cordilheira negra, majestosa e tão bela de verão quanto terrível de inverno, mas revestida de tons dourados e avermelhados agora que coberta de outono.
(…)
Aproximava-se a bifurcação na estrada de onde se seguia para a mina de trabalhos forçados, não muito longe dali, e surpreendendo a sua escolta Eric pediu que alterassem o trajecto nessa direcção.
O desvio no caminho, íngreme e pedregoso, conduzia directamente até uma cova nas montanhas onde os condenados extraíam precioso minério das vastas e férteis minas e partiam pedra para todos os cantos do império. Assim, visto de cima, aquele lugar de suplício parecia um pedaço do inferno. Devido à inclinação das ravinas raramente o sol ali pousava de inverno, mas de verão devia escaldar durante todo o dia. Guardas com chicotes certificavam-se de que os condenados faziam o seu trabalho. Os mais fortes, ou os que tinham chegado há pouco tempo, caminhavam acorrentados. Aos outros já não restava força para fugir e muito provavelmente acabariam ali a sua vida, naquele castigo derradeiro onde a morte enchia de frutos o seu cesto ávido. Mas os condenados não paravam de chegar, e as minas e a pedreira não paravam de produzir as suas riquezas. Por um que morresse, vinham logo dois para o seu lugar sem que a ração fosse duplicada. Ali terminavam a maior parte dos condenados a quem não fora sentenciada a forca. Muitos, sabia Eric, estavam inocentes. Conhecia aquele poço de tortura há vários anos, desde o tempo da guerra, e o seu maior beneficiário, o duque deVerna, senhor daqueles domínios, há período idêntico. Um homem execrável, aquele, mas poderoso, graças ao manancial daquelas jazidas, a quem pouco importava fazer justiça desde que não lhe faltassem escravos que escavassem a sua fortuna. Eric sabia disso, e desagradava-lhe, mas o nobre era também um estratégico aliado e não lhe convinha nada, ainda, pô-lo na ordem. O tempo chegaria, e Eric seria implacável, mas por agora era preciso fechar os olhos a pormenores de menos importância.
Continuava a ser útil, aquela aliança, forjada do mútuo interesse, nos dias incertos em que o jovem soberano necessitava de mercenários e armas na mesma medida em que o velho nobre abominava o arrastar do conflito que lhe ameaçava o negócio. Ao visitar aqueles domínios, desde esse primeiro voto de lealdade, Eric comprometia-se na tácita aprovação que astutamente deVerna pretendia garantir. E que o futuro imperador teve de conceder. Também aquele era um negócio, e Eric não esperava melhor da exibição de justiça que tinha sido preparada para os seus olhos, a que deVerna gostava de chamar clemência, em que não se mandava para a forca insignificantes ladrões e outros transgressores de mísero delito. Antes se devia pô-los a trabalhar, nas minas, onde eram úteis a todo o reino. DeVerna não disse como fazia questão de ir comprá-los, sobretudo os jovens e saudáveis, a qualquer nobreza que dispensasse de bom grado o incómodo de lidar com os criminosos. Só naquele dia, Eric assistiu, imperturbável, enquanto dezenas eram condenados às minas. Alguns, os piores, livravam-se de sentença mais dura, mas muitos daqueles homens não mereciam tamanho castigo.
Eric nunca se esqueceu de um deles. Um jovem servo, acusado de roubar um candelabro de prata da casa dos seus senhores. O pobre rapaz jurava que era inocente, que nem sabia que destino dar a um candelabro de prata, que se fosse mesmo um ladrão não fazia sentido ter-se limitado a furtar um único castiçal depois de anos de trabalho honesto na casa em que tinha sido criado e bem tratado e onde depositava todas as suas perspectivas futuras, inestimáveis, que estaria a trocar por tão desprezível lucro! Ao imperador, pelo menos, conseguiu convencer de que era um rapaz esperto e que sabia argumentar com racionalidade, mas valeu mais a palavra do filho do amo, que o acusava, e de quem Eric suspeitou que seria mais provável ter sido ele próprio a oferecer o belo ornamento a qualquer rapariga da aldeia no intuito de a seduzir. O infeliz servo, porém, desacreditado aos olhos do seu senhor, foi de facto condenado aos trabalhos forçados.
Eric perguntava-se se tinha sobrevivido, e indagou por ele ao capataz das minas. Este, um antigo veterano que tinha lutado pelo exército do imperador, reconheceu-o, e respeitosamente dobrou-se numa vénia.
– Rurik, diz o meu senhor? Acho que sim, que vive. Acho até que o conheço. Se me dá licença… – o homem afastou-se para gritar algumas ordens, e depressa trouxeram à sua presença um condenado em farrapos, de desgrenhadas barbas e longos cabelos cobertos de poeira que o faziam parecer um ancião embora não pudesse ter mais de vinte e cinco anos. Magro e abatido como se encontrava, com a pele tão branca e o olhar encandeado porque o tinham tirado da escuridão de uma mina, o que surpreendia Eric era que ainda vivesse de todo. Lembrava-se dele na plenitude da sua mocidade, um jovem rosado a debater-se entre os guardas que o levavam para o calabouço, clamando a sua inocência. Já nessa altura não era um rapaz grandemente encorpado, mas pelo menos provava-se rijo e saudável, ou tê-lo-ia sido, durante sete anos, para resistir tanto tempo, porque no estado em que se lhe deparava não era de acreditar que durasse muito mais.
A pedido do imperador, o capataz deixou-os sozinhos sem se meter no que não era chamado. Fraco como estava, o condenado não era ameaça para um guerreiro experiente que daria conta dele com um sopro se este tentasse qualquer golpe desesperado e contrário ao seu feitio.
O que de modo algum parecia ser a intenção, pois Rurik, o condenado, limitava-se a tapar os olhos com uma mão encardida, aflito à luminosidade do dia como se esta os magoasse, até naquela tarde apagada e cinzenta de outono, e tentava perceber quem era aquele nobre que tinha chamado por ele. Não o conhecia de lado nenhum e não lhe parecia que fosse coisa boa. Talvez acabasse mesmo enforcado por causa de um candelabro que nunca tinha visto. Depois de sete anos daquele inferno, morrer seria um alívio.

 

Nepenthos - Capítulo IV (excerto)

Capítulo I - primeira parte
Capítulo II - primeira parte
Capítulo II - segunda parte
Capítulo III - primeira parte
Capítulo III - segunda parte


Desde que o futuro se apresentara demasiado medonho para o contemplar



Reena tinha pensado, ao chegar àquele castelo, ao ver o portão e os guardas, que ia ser um cativeiro igual aos outros. Agora já não lhe parecia sequer um cativeiro. O portão, durante o dia, estava sempre aberto para que a gente da vila pudesse entrar e sair. Dois guardas a cavalo, às vezes três, revezavam-se à entrada. Mais guardas, alguns à vista outros ocultos, vigiavam toda a extensão do domínio real. A princípio Reena tinha temido aqueles guardas, mas com o passar dos meses apercebia-se de que não lhe dirigiam as intenções que receara. Mal a olhavam, atentos à sua missão de proteger a propriedade do imperador. Era assim que a encaravam também, propriedade do imperador, e não tocariam no que o soberano mantinha em casa para seu uso pessoal.
Há tempo que Eric se tinha ausentado, como Reena ouvira dos homens da sua escolta, e não se sabia quando voltaria. Não havia muito trabalho quando ele viajava, talvez por isso os criados gostassem tanto das suas ausências. Passavam o dia na cozinha, a tagarelar com a gente da vila, e o assunto predilecto era aquela espécie de criada a fingir que Eric tinha trazido para o castelo. Uma desprezível rameira que tinha aparecido na taberna depois de ter andado por todo o lado! Reena escutava-os, e evitava-os. Tinham-se tornado tão cortantes, as troças e os insultos, que agora começava a fitar o portão aberto… longamente. Já não era a primeira vez que pensava no que aconteceria se se atrevesse a cruzá-lo. Fê-lo naquela tarde, como se o ódio que ouvia atrás de si a empurrasse para fora. Pelo menos ficaria a saber o que aconteceria. Os guardas, à conversa um com o outro, nem pestanejaram. Nem sequer lhe perguntaram onde ia. Era tão estranho, sair sem que ninguém a impedisse! Reena não tinha imaginado, quando Eric lhe propusera viver no castelo, que ia ter tanta liberdade.
Não tencionava ir muito longe, queria apenas fugir dos criados e dos ajudantes da vila, e nesse primeiro dia distraiu-se a dar a volta ao muro do castelo, que era maior do que tinha antecipado. Estava frio lá fora, e a neve tudo cobria com o seu manto branco, mas Reena descobriu restos da antiga muralha, e árvores de troncos negros e ramos carregados de pingos de gelo, cintilantes, caprichosos, frios ao toque mas agradáveis à vista. A paisagem era de montanha, como Reena jamais tivera oportunidade de conhecer, e ao longe vislumbravam-se os elevados cumes, alvos e azulados num horizonte de resplandecente cinzento, que defendiam o castelo a norte. Nessa direcção, uma estreita vereda desaparecia entre as árvores mais à frente, e Reena ponderou o perigo de se aventurar por ela. Temia, também, a maldade de tantos homens que a tinham usado na taberna da vila. Parecia-lhe um caminho deserto e sossegado, pelo menos naquela altura do ano, mas podia cruzar-se com alguém… E se encontrasse alguém, e precisasse de ajuda, não a protegeriam os guardas se os chamasse? E se não a protegessem?... E importava?...
No dia seguinte, Reena apressou-se a terminar as suas tarefas e saiu. Levava um xaile, desta vez, e a intenção de se embrenhar pelo caminho até se cansar ou que fossem horas de regressar. Pelo menos assim evitaria os criados. E a paisagem… Como era bonita aquela paisagem, e silenciosa e tranquila, onde apenas os pássaros e pequenos animais a espreitavam timidamente de suas tocas. Entrava-lhe pelos olhos, a beleza daquela paisagem, e Reena deu por si a sorrir como já não sorria há muitos anos. Também há muitos anos não lhe era permitido passear assim, talvez nunca lhe tivesse sido permitido passear assim, sem que ninguém lhe perguntasse para onde ia e de onde vinha e sem ser esperada no regresso com censuras ou castigos. Reena tornou a sair, muitas vezes, e desvendou um emaranhado de veredas que subiam e desciam, na direcção da montanha ou do vale ou sempre em frente. Se era tão bonito de inverno, como seria na primavera, quando as árvores do bosque enfeitassem de folhas os seus ramos e o prado se cobrisse de flores?… E ainda ali estaria, na primavera, para poder deslumbrar-se no renascer da natureza?... Agora Reena desejava ainda ali estar na primavera, naquele sítio onde podia sair em liberdade. Onde tinha paz.
Todos os dias se aventurava até mais longe. Não temia perder-se, no passo lento a que já se habituara, mas seguia com cuidado e atenção e não arriscava continuar em frente antes de conhecer o caminho de regresso. Tinha tempo, e podia parar e descansar e contemplar o que rodeava. Mas eram cansativas, aquelas caminhadas. Reena lembrou-se de apanhar um galho para lhe servir de auxílio e aprendeu a apoiar-se nele a cada passo. Continuava a ser cansativo, embora menos, e a brisa fresca que lhe soprava os cabelos valia o sacrifício. Começava a conhecer os caminhos, e a adivinhar onde iam dar. Já imaginava que aquela vereda que descia o vale se abeirava da vila. Receosa, aproximou-se o suficiente para observar as pessoas à distância, ocupadas nos seus afazeres, comprando e vendendo no mercado, entrando e saindo da pequena mas graciosa igreja de dois torreões e majestosos sinos… Aí, Reena voltou para trás, e decidiu não avançar mais.
Os piores rigores do inverno já tinham passado quando um modesto mercador de tecidos visitou o castelo. Vinha de longe, do sul, pelo que Reena percebia, e tinha conseguido aquela comissão do próprio imperador devido à qualidade da mercadoria com que anualmente abastecia o castelo. Reena espantou-se, ao apreciar a suavidade das lãs e a frescura dos linhos, que aqueles artigos se destinassem ao uso da casa e às roupas dos criados. O imperador, para as suas vestes, comprava longe e comprava caro, mas preocupava-se com o conforto dos seus servidores, como dele era dito. Reena até hesitava em escolher tecidos para si, para o verão… Ainda ali estaria no verão?... Passou-lhe pela cabeça, nesse momento, que se não estivesse ela poderia estar outra, outra rapariga em semelhantes circunstâncias que igualmente se maravilhasse com uma arca cheia de boas roupas, e não hesitou mais.
Reena tinha descoberto outros tesouros abandonados em arcas poeirentas e esquecidas. Numa delas encontrou teares, e agulhas, e até linhas de bordar! Ninguém demonstrava interesse naquelas coisas, nem se importavam que as usasse. Reena achava-as preciosas, inestimáveis, e ao serão, na solidão do seu quarto, dedicou-se a coser e a bordar os vestidos novos. Era tão estranho voltar a bordar, como fazia na casa em que crescera sob o olhar benévolo da sua primeira senhora… Às vezes parecia-lhe que aquela também era, como a outra, uma casa em que nada lhe faltava. Nem a verdade. Pois ali, ao contrário desse primeiro lar, se era um lar, ninguém a enganava, ninguém a iludia, ninguém lhe escondia o preço daquele conforto. Reena começava a considerar que talvez não fosse um preço excessivo, para alguém como ela, que não podia aspirar a muito mais. E um dia, sonhava, se aqueles nobres se esquecessem dela, porque um dia ia envelhecer e perderia qualquer vestígio de formas aprazíveis que ainda lhe restassem, nesse dia talvez ali tivesse um lar, para sempre, naquele sossego… Naquele sossego de um túmulo.
Há muito tempo que Reena não contemplava o seu futuro, desde que o futuro se apresentara demasiado medonho para o contemplar, mas agora dava por si a recordar-se, naquelas solitárias caminhadas entre a beleza da floresta adormecida debaixo da neve, que um dia tivera sonhos, tantos sonhos, quando era nova e inocente. Sonhos de que já nem se lembrava.
Reena regressava ao castelo, depois de um daqueles passeios em liberdade, e cansada sentou-se nas ruínas da muralha, por um bocadinho. Não tinha sonhado, jamais, que o melhor que lhe podia acontecer era envelhecer e murchar, e dar-se por contente que lhe permitissem aquele lar triste e silencioso, invisível no seu cantinho, à espera que se esquecessem da sua existência. Lágrimas molharam-lhe o rosto, e desta vez Reena soluçou em voz alta porque ninguém a ouviria. Era aquele o melhor futuro que podia ambicionar? Quando tinha tido sonhos, tantos sonhos… Sonhos que não queria recordar para não sofrer mais.
 

Nepenthos - Capítulo III - segunda parte

Capítulo I - primeira parte
Capítulo II - primeira parte
Capítulo II - segunda parte
Capítulo III - primeira parte


Aquela era a sua única, a sua última oportunidade.




A luz rosada do amanhecer já inundava o quarto quando acordou. Tinha esperado, em terror, mas nada tinha entrado pela porta e o cansaço tinha-a vencido. Seria verdade, então? Seria uma criada, apenas uma criada?
Durante dias, Reena sentiu-se como alguém errando num sonho, ou num pesadelo, incompreensível, interminável, em que todas as noites adormecia e todas as manhãs acordava na perplexidade de que nada lhe tinha acontecido. Observava os criados, atentamente, pela verdade. Ensinava-lhe a experiência que se a aguardassem os terrores que suspeitava, eles saberiam. Mas nada lhes via que tal revelasse. Pelo contrário, não escondiam a indignação por terem de suportar aquela criatura ignóbil debaixo do mesmo tecto, convencidos de que ela tinha chegado para ficar. Para ficar!, pensava Reena, e animava-se. Se terrores havia, não se passavam dentro daquelas paredes. Os criados, pelo menos, nem os imaginavam. Preocupavam-nos apenas as faltas na despensa, a lenha bastante no fogão, a roupa suja a separar para as lavadeiras… O castelo tinha uma rotina sossegada, nem se diria a morada de tão importante soberano. Reena ouvia, em pedaços de conversas, que nem sempre era assim, e que Eric detestava visitas e o incómodo de encher a sua casa de gente. Que o seu feitio piorava nessas alturas, irascível e exigente. Felizmente, ausentava-se por longas temporadas. Mas quando estava em casa, como agora, não era amo fácil de satisfazer, e que Reena não pensasse, por ser incumbida das tarefas de pouca importância, que se podia dar ao luxo de ser negligente, porque não queria ver aquele homem irritado! Reena admirava-se de não o ver de todo, nem aos “amigos” a quem era suposto servir. Ter-se-ia mesmo o imperador dado ao trabalho de a ir buscar pessoalmente àquela taberna para ser naquela casa a rapariga que acendia velas e lavava a mesa da cozinha?...
Como Reena desejaria ser apenas essa rapariga. Há quanto tempo não o era, e como lhe agradavam aquelas simples ocupações, por muito inferiores que as considerassem. Nem se importaria do desprezo das criadas e do escárnio dos criados, se apenas a deixassem ficar ali em paz… Todos os dias chegava gente da vila, camponeses e vendedores do mercado que abasteciam o castelo ou prestavam o tributo do seu trabalho. Chegavam e troçavam dela, e traziam histórias de quem ela era e do que fazia na taberna, e os criados do castelo odiavam-na cada vez mais e agora já nem disfarçavam, e já não era nas suas costas que lhe chamavam “rameira”.
Reena sabia que não tinha ali um único amigo, nem se iludia que o viesse a ter, mas perguntava-se porque insistiam em insultá-la se já deviam ter percebido que estava tão habituada ao desprezo e à vergonha que meras palavras de troça quase nada custavam suportar? O que pensariam dela, para a odiarem tanto? Poderiam sequer conceber a verdade, aquelas pessoas que não tinham sofrido o que ela tinha sofrido? Talvez nem acreditassem se lhes contasse. Reena poupava-lhes o embaraço da sua presença, trocando com eles apenas as palavras absolutamente necessárias e isolando-se nas suas tarefas onde não a vissem. Sempre que podia, e que o trabalho lho permitia, escapava-se para o seu quartinho à hora do pôr-do-sol. Era outono, e os dias cada vez mais curtos e apagados, mas a luz dourada ainda enchia aquele quarto e Reena sentava-se e contemplava-a e acalmava-se na paz que a invadia. Se fosse só assim, talvez houvesse esperança. Talvez provasse, com o tempo, até mesmo àquela gente que a desprezava, que só desejava um sítio decente onde viver. Que o que lhes tinham contado não tinha sido de sua vontade. Talvez pudesse revelar-lhes… Mas era muito cedo, não a quereriam ouvir. Talvez com o tempo, quando percebessem como estava disposta a ser útil e prestável e que não teriam dela nenhuma razão de queixa. Pelo menos já todos os criados sabiam que lhes obedecia sem se esquivar ao trabalho, e começavam a habituar-se a mandá-la fazer o que lhes desagradava. Talvez assim, pela solicitude, começassem a vê-la com outros olhos.
– Vai levar o vinho ao senhor Eric! – disse-lhe a criada mais nova nessa noite em que não lhe apetecia ser ela a cumprir o ritual, uma taça de vinho a horas tardias que Eric apreciava bastante. Ao que parecia, não dormia sem ela.
Nunca Reena se atemorizara perante uma tarefa, mas desta vez, ao pegar na bandeja com a taça, sentiu-se estremecer por dentro. A moça devia achar que o encargo era tão simples que lho podia confiar, mas Reena nem sabia onde estava o imperador! Só conhecia do castelo a cozinha e os corredores que levavam ao seu quarto na outra ala, não se atrevia a entrar onde não fosse autorizada, e nunca tinha sequer subido ao andar superior! Mas nada disse ou perguntou, antes voltou as costas para que ninguém se apercebesse da sua atrapalhação e saiu da cozinha como se soubesse para onde ia. A última coisa que desejava era que a julgassem uma tonta que nem se conseguia orientar, e que o relatassem ao dono da casa! Seria o fim de qualquer esperança de ficar ali como criada!
Tinha ouvido falar do salão, onde os nobres se reuniam com o imperador ao serão, junto à lareira, quando havia visitas. Reena encaminhou-se nessa direcção à luz das poucas lamparinas que ardiam por ali e suspirou de aflição ao perceber que se tinha enganado. No salão, obscurecido, não se demorou sequer para o contemplar duas vezes. Devia ter calculado, pela falta de archotes acesos, que o imperador se encontraria nos aposentos dele, algures nos andares de cima, onde nunca tinha ido. Agora estava perdida e já não sabia para que lado ficava a estreita e recôndita escada de serventia destinada aos criados! Oh, que ninguém se cruzasse com ela, perdida e às voltas e à procura! Julgou-o um alívio, deparar-se com a série de degraus que serpenteavam em caracol até ao piso superior. Quando os observou melhor, à escassa luz da única lamparina, suspirou de novo e olhou a bandeja que lhe tremia nas mãos. Como eram altos e íngremes aqueles degraus! Como lhe era difícil levar uma taça de vinho ao seu amo, admitiu, e um véu de lágrimas turvou-lhe os olhos. Quem aceitaria na sua casa tão incompetente criada? Ninguém a aceitaria. Aquela era a sua única, a sua última oportunidade.
Reena respirou fundo, e apertou com força a bandeja contra o peito. Apoiou a mão esquerda na parede e começou a subir devagar e cautelosamente, receosa de entornar aquele vinho como se a sua vida dependesse disso. A sua vida dependia disso.
 

Nepenthos - Capítulo III - primeira parte

Capítulo I - primeira parte


Se me quiserem fazer mal, não vai ser esta chave a impedi-los de arrombar a porta.



III
UMA VIDA MELHOR


O castelo parecia ainda mais majestoso quando a carruagem se aproximou. Reena olhava, e tentava calar a esperança. Podia ser verdade? Podia aquele ser um lar, o seu lar? Tinha sonhado com um lar, um sonho tão vago e distante como se tornara esse fantasioso abrigo a que em tempos tinha aspirado com obstinada ingenuidade, mas tinha-o sonhado pequeno e modesto, nunca na grandeza daquele castelo que se lhe apresentava perante os olhos. A carruagem cruzou o portão, pesado e largo, e parou no pátio interior. Intimidada, Reena contemplou com assombro a imponência das torres e paredes de pedra cinzenta ao luar, antigas como a dinastia real que nelas estabelecera residência durante séculos. Dentro do castelo não havia guardas, nem sequer nos lugares de vigia onde outrora, dia e noite, sentinelas teriam patrulhado as ameias. Essa ausência Reena não estranhou, depois do que vira, em todo o redor, os archotes dos soldados que protegiam o castelo e a vila. Aqueles soldados, nas cores do estandarte do Urso, eram frequentadores habituais da taberna e Reena tinha noção do seu número. Lamentava agora não se conseguir recordar de tudo o que ouvira dizer do imperador, sempre em conversas em que não lhe era tolerado que participasse, longe de imaginar que um dia o viesse a conhecer, muito menos servi-lo no seu castelo! Podia ser verdade? Ser-lhe permitido ficar, naquela casa nobre e importante, como criada, exercendo um trabalho digno? Tão humilde a ambição, e mesmo assim tão difícil de acreditar!... Eric saiu da carruagem e apressou-se a dar instruções a um dos seus homens. Depois subiu os degraus da porta principal e desapareceu, e Reena não o tornou a ver nessa noite.
O guarda, investido dessa missão, guiou-a até uma porta mais pequena e lateral, que dava para a cozinha, e apresentou-a aos criados. Reena estava ali para ser uma deles e partilhar as tarefas que não fossem demasiado pesadas. Deviam acomodá-la e incluí-la na rotina da casa. Eram essas as ordens do imperador. Cumprida a sua incumbência, o guarda retirou-se para outros deveres e deixou-a sozinha com os cinco serviçais que desconfiados a olhavam de alto a baixo.
Era hora da ceia e deixaram-na sentar-se à mesa e comer com eles, a velha cozinheira, uma criada mais nova e três homens fortes que se ocupavam da lenha e dos cavalos, mas não sem lhe perguntarem de onde vinha. Assim que souberam, todos se empertigaram e trocaram entre eles olhares de pasmo e desdém. A criada mais nova fitava-a com repulsa como se tivesse peste que se pegasse. Os criados riam-se entre eles. A velha cozinheira, furiosa porque o imperador tinha levado para dentro daquelas paredes uma mulher da vida, mandou-a fazer a cama no outro lado do castelo para não se misturar com as pessoas honradas.
Nada daquilo foi estranho para Reena. Já não era o primeiro lugar onde até a criadagem a considerava inferior. E se a criadagem a tratava assim, o que não pensariam dela os nobres?...
Nessa primeira noite, Reena dormiu numa divisão perto da cozinha, embora advertida de que na manhã seguinte deveria procurar aposentos mais distantes. Mas por agora ficaria ali, para não dar trabalho. Reena aceitou com agrado aquele quartinho improvisado, onde existia uma cama de verdade e cobertas limpas. Por uma noite podia dormir em paz, como tanto desejava… Se os olhos não lhe teimassem em manter-se abertos no escuro. Não se esquecia daquela história de uma pobre rapariga apanhada por certos fidalgos, na calada da noite, e encontrada degolada ao alvorecer, abandonada na floresta e com as vestes rasgadas… Estaria ali para morrer? Seria toda aquela recepção um engano para a manterem iludida e dócil, confiante de que ocuparia uma posição de criada igual às outras? Seria uma armadilha? Os criados que residiam no castelo eram poucos. Muitos outros moravam na vila e só chegavam de manhã, quando eram necessários. Mas não passavam lá a noite. Bastavam aqueles poucos para suprir as tarefas nocturnas, explicavam-lhe. Reena pensava antes que se lhe estivesse reservado um destino sangrento não haveria muitas testemunhas que o presenciassem. E ninguém, ninguém no mundo daria pela sua falta.
Era como num pesadelo, ou num sonho, que no dia seguinte Reena se aventurava pela ala mais afastada do castelo, à procura de um quarto. Encontrou vários, desocupados e poeirentos, as camas despidas e as mobílias arrumadas aos cantos por único indício de que em tempos também teriam servido de aposentos aos servidores do castelo, mas agora abandonados. Reena gostou de um deles. Era mais estreito do que os outros, e parte da parede exterior devia ficar abaixo do solo, mas Reena ponderou que assim seria quente de inverno e fresco de verão… Se fosse para durar, aquela incerta estadia… A cama permanecia encostada à parede oposta, e era de excelente madeira, sólida e bem feita. Quem ocupara aquele quarto tivera bastante mobília à disposição, pois nem faltava um banco e uma mesinha, e uma arca onde guardar os seus pertences… se os viesse a ter. Havia até uma pequena janela, quase uma fresta e quase no tecto, mas suficiente para que entrassem por ela os últimos raios de sol ao entardecer e os primeiros ao alvorecer, e todo aquele quarto se encheria de luz dourada. Reena sentou-se na cama por fazer e tão depressa sorriu como sentiu os lábios molhados de lágrimas salgadas. Talvez não fosse para durar. Sim, era acolhedor e agradável, mas talvez fosse curta a estadia. Se eram carrascos, o que a esperava, eram os carrascos mais benévolos que já tinha conhecido. E se era morrer, o seu destino, não seria tão terrível morrer às mãos de quem lhe tentava proporcionar conforto nos seus últimos dias. Era nisso que devia pensar, para não ter medo do que viesse a seguir. Talvez fosse aquilo o desespero, porque havia tantas coisas que temia mais do que a morte!...
Reena levantou-se e limpou as lágrimas, e de propósito travou essas ideias na consoladora intenção de abrir a arca e desvendar o que continha, se alguma coisa. O que encontrou surpreendeu-a. Roupas boas, e bonitas, de homem e mulher. Talvez tivesse morado ali um casal, em tempos?... Eram brancas as camisas de linho e quentes e macios os vestidos de lã. Os sapatos, de bom couro, protegiam da chuva e da neve. Mas a mais espantosa descoberta, entre vestes e mantas, foi um belo e pequeno espelho! O metal que o forrava e que lhe servia de pega, tão habilmente talhado pela maestria de um destro artesão, assemelhava-se à prata, mas Reena não acreditava que o fosse. Nem acreditava que tudo aquilo não tivesse dono. Certamente mexia no que não devia e apressou-se a colocar as coisas como estavam e a fechar a arca.
Perguntou às criadas, pelo quarto e pelas roupas, e a velha cozinheira respondeu-lhe rispidamente que podia ficar lá e com o que lá estava, que era um sítio bem afastado, e que se livrasse dos trapos sujos e miseráveis que a cobriam! Curiosa, Reena atreveu-se a insistir se não pertenceriam a alguém, mas nenhuma das mulheres queria falar com ela e novamente a cozinheira a interrompeu, com grande irritação, que eram coisas dos antigos criados da rainha, que tinham partido há muitos anos, e que se preocupasse antes em pôr-se apresentável porque parecia uma rameira. Reena não fez mais perguntas nem tornou a tentar dirigir-lhes a palavra. Sabia o que se passava. Detestavam-na, e à sua presença, que julgavam indigna de pessoas decentes. Pouco importava que roupa vestisse, era a sua desonra que viam.
Mas deram-lhe um avental, e uma touca como as que usavam, e quando Reena voltou à cozinha, assim arranjada como uma criada, as duas mulheres não contiveram o riso. A mais velha riu-se mais, e mandou-a polir os tachos. Reena sentou-se perto dos utensílios e começou o seu trabalho, sem perceber o motivo da galhofa. Logo compreendeu, quando ambas a olharam, pasmadas, como se não acreditassem que soubesse o que fazer. Depois viraram-lhe as costas, furiosas e despeitadas, e continuaram a murmurar entre elas sobre a estranha a quem deitavam esgares de tanta aversão que Reena se perguntou se não devia ir trabalhar lá para fora, para o pátio. Mas não o fez, porque ali, junto das outras mulheres, estaria mais segura… Mais segura? Teria sido trazida ali para se sentir segura? Ou para outros propósitos? Porque que não os conhecia já? Do que esperavam?...
Os homens do castelo, rudes e grosseiros como os seus conterrâneos da vila, portavam-se ainda pior nas costas das criadas, e troçavam e escarneciam sugestivamente. Quando chegou a hora da refeição, Reena não teve coragem de se sentar com eles. A cozinha era grande, podia comer noutro lugar, afastado, ou antes ou depois. Podia até não comer, porque não tinha apetite. Não eram as zombarias dos criados o que a afligia nem nada a que não estivesse habituada. Era o cair da noite o que temia.
Admirava-se que lhe permitissem retirar-se para o seu quartinho, onde supostamente seria o seu sítio, sem que ninguém a incomodasse. Isso é que era novo, e invulgar, e assustava-a. Pensou em fechar a porta, quando reparou com atenção no pormenor que durante o dia não lhe tinha parecido importante. A porta não tinha uma tranca como nos outros aposentos. Tinha uma fechadura, e a fechadura tinha uma chave, grande e antiga e gasta pelos anos. Noutros tempos, em época talvez anterior às modestas mobílias dos criados ausentes, aquele lugar não tinha servido como quarto de dormir. Seria talvez um cofre, onde se guardavam valores ou armas. Ou uma masmorra onde se encerravam prisioneiros. A pequena janela era demasiado estreita para que fugissem por ela. Reena não tinha ponderado a origem da chave ao escolher aquele quarto, mas ponderava agora. E o mais estranho é que a tinham deixado escolher, e que a chave se encontrava à sua disposição para que se fechasse por dentro… E adiantaria alguma coisa, qualquer fechadura, isolada como estava naquela parte afastada do castelo? Não a teriam mandado para ali de propósito, para não verem nem ouvirem… Não seria a primeira vez e Reena não poderia dizer que não conhecia o estratagema. O que desconhecia, o que a aterrorizava, era o objectivo. Deteve-se, paralisada, nos seus trajes de criada, com a pesada chave na mão, a perguntar-se o significado de tudo aquilo. Julgariam que a iludiam, julgariam que a conseguiam iludir? E julgariam que era necessário? Não saberiam que era como aqueles prisioneiros para quem não existia fuga? Se me quiserem fazer mal, não vai ser esta chave a impedi-los de arrombar a porta, concluiu, e não se deu ao trabalho de a trancar.
Seria enfim a morte a visitá-la nessa noite? Reena pensou na taberna, e nos sítios anteriores, e lembrou-se de que não tinha sido outro o engodo a convencê-la a caminhar até ali de sua livre vontade. Tinha tanto desejado a morte, talvez a morte não tardasse!... Temia a dor e o sofrimento, mas não lamentava o fim. Libertou-se da touca e do vestido, e deitou-se na cama e apagou a única vela. Havia luar, e não se atrevia a fechar os olhos. Porque esperavam? De que esperavam? Que nova e desconhecida tormenta entraria por aquela porta?... Reena não queria ter medo, dizia a si própria que estava farta de ter medo, mas chegou-se contra a parede e fitou a porta.
A luz rosada do amanhecer já inundava o quarto quando acordou. Tinha esperado, em terror, mas nada tinha entrado pela porta e o cansaço tinha-a vencido. Seria verdade, então? Seria uma criada, apenas uma criada?




Nepenthos - Capítulo II - segunda parte

Capítulo I - primeira parte




Devia ser aquilo, o desespero, quando a morte, qualquer morte, lhe servia de maior engodo do que a esperança.




Reena admirava-se apenas do tom honesto naquela insistência. Como se alguma vez pudesse recusar! Se era vontade do imperador levá-la para os seus amigos, levá-la-ia. Porque haveria ele de mentir com benévolas promessas se ninguém no mundo queria saber do que lhe acontecia, a ela, quando a sua vida já nada valia, nem para o homem que a tinha comprado e que a dispensava de graça? Esperaria mesmo uma resposta, o imperador, se não havia o que lhe responder? Reena baixou os olhos, e apertou as mãos uma na outra, e naquele instante lembrou-se de que talvez devesse começar a rezar pela absolvição da sua alma.
Longe de adivinhar a angústia daquele silêncio, Eric estranhava que a rapariga nada dissesse e perguntava-se se não seria por isso também que o taberneiro se mostrava tão aberto a livrar-se dela. Estaria ali uma imbecil, incapaz de juntar duas palavras? Ou, pelo contrário, achar-se-ia ofendida, aquela criatura insignificante, pelo convite que piedosamente lhe estendia? Ambas as possibilidades lhe desagradavam e a paciência tinha-se-lhe esgotado:
– Bem, se não queres, ver-te-ei por aí… – disse apenas, com um indiferente encolher de ombros, e virou-se para se ir embora.
Reena levantou a cabeça, admirada, os olhos abertos de assombro, porque não julgava que era uma escolha. Ele ia-se embora? Despedia-se e ia-se embora, sem a obrigar ir também, porque tinha dito a verdade e não a queria levar contra a sua vontade?... E se tinha dito a verdade, não poderia haver igualmente verdade no que oferecia?...
– Sim, meu senhor, sim, eu vou. – Eric ouviu atrás de si, numa voz baixa e trémula como se Reena já não estivesse habituada a falar com ninguém há muito tempo, o que podia ser precisamente o caso. Voltou-se para ela, e viu que se tinha sentado direita, interessada, e que o fitava em expectativa atenta e suplicante. Não era nenhuma imbecil nem se achava mais importante do que era, e Eric gostou do que viu. Sempre tinha sido uma boa ideia, afinal. Pelo menos a rapariga não passaria privações e não dormiria na palha como um animal, e quanto a si próprio ficaria livre daquela indisposição desagradável que obstinadamente o incomodava há dias. Com um aceno de cabeça, indicou-lhe que o seguisse.
E se não houvesse verdade no que ele dizia, Reena hesitava, e se aquela condescendência fosse um engodo com que a atraía à armadilha? Havia desses, também. Mas que diferença faria, se fosse um engodo, para ela que não conseguiria dizer se aceitava por acreditar no que lhe era prometido ou se na esperança de que aqueles nobres lhe fizessem o que não tinha coragem de fazer a si própria? Sabia somente, com absoluta certeza, que tudo seria preferível a ficar ali. Tentou levantar-se depressa para o seguir, como se já temesse que aquele homem a deixasse para trás, quando sentiu que a perna mutilada lhe falhava e caía desastradamente sobre a palha. A vergonha empalideceu-lhe as faces. Às vezes ainda se esquecia de que era agora outra a sua condição, e que já não era a rapariguinha de antes que se atrevia a correr e fugir… Como acreditar que alguém a aceitasse, naquele estado, a prestar um serviço digno numa casa decente?... Baixando o rosto, e contendo as lágrimas, ergueu a mão para a parede onde tinha aprendido a apoiar-se, e resignou-se a levantar-se devagar, pois se calhar não havia assim tanta razão para ter pressa de caminhar ao encontro do que a aguardava. O que aquele homem não devia estar a pensar, ao assistir à inutilidade em que se tinha tornado? O que pensaria qualquer senhor de qualquer casa onde fosse bater à porta para oferecer o seu trabalho, se por milagre tal liberdade lhe fosse concedida?...
Tentava ainda levantar-se, esforçando-se por parecer menos desajeitada, quando Eric lhe pegou no braço. Como era forte e firme aquela mão que a ergueu e a pôs de pé! Reena jamais teria esperado tal genuíno gesto de auxílio daquele homem tão superior à sua posição. Mas se ele tinha agido por bondade, ou por impaciência, não chegou a perceber. Eric já saía pelo corredor em direcção ao salão, e Reena lamentou que desprevenida pela surpresa não se tivesse lembrado de agradecer. Aquele gesto gentil, qualquer que fosse o seu motivo, obrigava a um agradecimento, mas o imperador não parecia ter tempo ou disposição para ouvi-lo. Queria que o acompanhasse, imediatamente, e Reena preferia não deduzir esperança do que podia não passar da pouca vontade em aturar a sua lentidão.
Obedeceu e seguiu-lhe os passos, que nunca conseguiria acompanhar, mas entrou no salão a tempo de o ver retirar do bolso duas moedas cintilantes que colocou sobre a mesa, frente ao taberneiro que sempre a tinha tratado como um mau negócio. Duas moedas. Então era isso o que valia a sua vida.
Se mais lágrimas ameaçassem demorá-la em pranto, Reena não teve tempo de as chorar. Ao vê-la aparecer Eric tornou a acenar-lhe para que o seguisse, afinal cheio de pressa como dele tinha adivinhado, e saiu porta fora com o semblante absorto de quem já pensava noutros assuntos. Reena deitou um último olhar ao dono do estabelecimento, até há poucos momentos o amo do seu destino. De costas voltadas para ela, à luz de uma das lamparinas, este inspeccionava as moedas e admirava-lhes a cunhagem com o brasão do Urso que representava a dinastia real. Reena constatou que a sua pessoa já não lhe suscitava qualquer interesse e concluiu que a transacção estava fechada. Já não era à taberna que pertencia. O seu futuro, por curto que o suspeitasse, aguardava-a lá fora, às mãos de um homem poderoso que a tinha comprado por duas moedas, o insignificante preço da sua vida, para suprir divertimentos, talvez, que significassem a sua morte, e nem mesmo assim hesitava em avançar. Devia ser aquilo, o desespero, quando a morte, qualquer morte, lhe servia de maior engodo do que a esperança.
A noite já tinha caído. Pela primeira vez desde que chegara àquela terra, Reena transpôs a porta da taberna e uma aragem fria e outonal soprou-lhe na cara e agitou-lhe os cabelos. Não a achou desagradável, pelo contrário, porque lhe provava na pele que estava realmente a abandonar aquele lugar maldito. Naquele instante de liberdade, entontecedor, nem lhe importava para onde.
O imperador estava à espera, ao lado da porta aberta da carruagem, e Reena olhou em volta, confusa, à procura de uma carroça que a transportasse. Todos os homens da escolta vinham a cavalo, envergando as cores do estandarte do Urso, o negro e o vermelho escuro, alguns segurando tochas acesas agora que precisariam delas para alumiar a estrada. Mas não havia carroça ou coisa parecida, e subitamente Reena temeu que lhe estivesse reservado segui-los a pé. Segui-los-ia, até, se conhecesse o caminho, mas não tinha saído da taberna desde que a tinham trazido para aquele sítio, e já era noite. Temia perder-se, e que julgassem que fugia. Atreveu-se a olhar para este ou aquele rosto, como se pedisse instruções, e viu neles risos abafados de maliciosa chacota. Podia não os conhecer a eles, mas eles conheciam-na a ela, e Reena baixou a cabeça numa pontada de vergonha. Porque não falavam, porque não lhe diziam o que queriam que fizesse ou para onde devia ir? Não eram eles, os subalternos, quem supostamente lhe transmitiria as ordens? De tão desorientada, ergueu os olhos para o imperador, que não tinha nenhuma vontade de rir.
Por esta altura Eric já se encontrava deveras impaciente, e perguntava-se porque não percebia ela que estava à espera que entrasse? Vagos, difusos pensamentos de misericórdia voltaram a apaziguá-lo e a devolver-lhe a paciência. Uma pequena boa acção, que tinha de ser concluída. Para aquela rapariga o olhar teria de ser menos duro, menos frio, mais clemente.
Reena viu aquele olhar e mal conseguiu acreditar que era na carruagem que devia entrar! Não, não estava enganada, ao avançar com passo hesitante em direcção à porta de madeira que ele agora segurava, à espera que subisse. Reena nunca tinha entrado numa carruagem e estudou o degrau de acesso abaixo da porta, e procurou onde se agarrar e elevou primeiro a perna direita, a que não estava partida. Tudo aquilo era tão difícil para ela, tão difícil! No interior, assentos forrados de tecidos macios e bordados a flores, verdes e vermelhas, quase a detiveram. Como era bonito, à luz das tochas! Como devia ser tão mais bonito à luz do sol! Era mesmo ali que queriam que entrasse? Reena pestanejou, como se para acordar de um sonho ou de um pesadelo. Sempre era a morte que lhe reservavam, não podia ser outra coisa. Em qualquer dos casos, preferia não irritar aquele homem que decidia que era ali que devia viajar. Tomou coragem e entrou, e sentou-se ao cantinho oposto à porta.
Eric não a seguiu logo. Voltou-se para os homens da sua escolta e fulminou-os com um olhar de censura. Não o de um soberano aos seus guardas, mas o de um homem a outros homens a quem lembrava que se metessem na vida deles. O que tinham presenciado nessa noite era privado, só entre ele e a rapariga. Não era nada que não se entendesse. De sobrolho franzido, Eric subiu para a carruagem e fechou a porta, e os homens entreolharam-se, esclarecidos. Parecia que a rapariga tinha encontrado um protector. Menos risos, dali para a frente.
Carruagem e escolta partiram em direcção ao castelo. Reena não sabia a duração da viagem e mantinha-se calada e quieta no seu cantinho, apertando nas mãos a saia daquele vestido tão sujo e tão gasto, quase em fio. Eric tinha-se instalado no assento em frente, o cotovelo apoiado na janela, o queixo pousado na mão fechada. Reena nem tinha coragem de levantar a cabeça. Que ao menos ele não olhasse, que não reparasse naquela presença indigna de tal transporte! Não podia ser assim tão longe, aquele castelo, que essa vergonha não tardasse a acabar! Se ao menos ele não a observasse, como se sentia observada…
– O que te aconteceu à perna? – Eric perguntou, porque o intrigava, e Reena percebeu com novo choque que aquele homem que a levava para um destino incerto também não fazia ideia do que tinha sido a sua vida. Não importava quão poderoso, ou que lhe parecesse gentil. Muitos antes igualmente o tinham parecido, os mesmos que lhe tinham ceifado a esperança tão cedo.
– Eles… Eles bateram-me. Ainda dói muito. – revelou timidamente, e suportou o olhar penetrante que lhe perscrutou os olhos.
Eric não esperava aquela resposta. Não tinha calculado que a perversidade tivesse chegado tão longe no seu reino, enquanto a guerra entretinha as atenções de quem devia fazer justiça, que uma pobre rapariga fosse espancada até lhe partirem os ossos sem que ninguém se importasse. Reclinou-se para trás no seu assento e voltou-se para a paisagem nocturna do arvoredo que ladeava a estrada, como se não estivesse interessado em saber mais nada.
Foi o que Reena pensou, que não estava interessado em saber, e nada mais acrescentou. Mas o seu olhar já não se desviou do caminho que discretamente espreitava pela janela, e também ela reparou nas luzes das tochas, longe e perto ao longo da estrada, e à distância nos campos. Guardas, guardas em todo o lado! Reena estava habituada a carcereiros, e aos seus chicotes e vergastas, mas aqueles guardas eram um exército, cada um envergando no cinto uma espada mais longa do que um braço, e punhais e armas de que desconhecia o nome… Então lembrou-se, porque pensava ainda nessas coisas de outrora? Já não havia como fugir. Porque lhe teimavam os pensamentos em escapar-se por essas tolas fantasias de antigamente?




Nepenthos - Capítulo II - primeira parte

Capítulo I - primeira parte


Nada mais do que fazes aqui.



II
O ACORDO


Durante dias, Eric não se esqueceu do que tinha visto. Não que fosse a primeira vez que o via, mas algo naquela noite o tocara, algo o impressionara… Algo que não sabia o que era nem o desejava ir desencantar aos confins da alma. Talvez o soubesse, mesmo assim, mas não tinha tempo a perder com pequenas misericórdias ou qualquer conveniência em exibi-las. Havia uma solução melhor.
Já se punha o sol quando ordenou que preparassem a carruagem porque tencionava sair. Não a cavalo, como era seu costume, pois não esperava regressar sozinho. Era um curto trajecto desde o castelo à taberna da vila, e enquanto a noite ia caindo, acinzentada, Eric dava por si a olhar pela janela e a apreciar com satisfação aquela estrada principal que ele próprio tinha mandado alargar e aplanar. A carruagem deslizava sem sobressaltos, mais suave à viagem do que alguma vez tinha sido nos tempos de Eric o Gordo. De ambos os lados do caminho, as altas e majestosas árvores da região tinham sido domadas em linhas simétricas, como guias que acolhiam os viajantes e os cumprimentavam com boas vindas aos domínios reais. Já iam longe os dias da guerra, e Eric queria proporcionar à nobreza que o visitasse uma passagem decente que não a vereda de cabras em que dantes as carroças tropeçavam e as rodas partiam os eixos. Também aqueles eram os novos tempos.
A intervalos regulares, cruzava-se com destacamentos de guardas que mantinham a cerrada vigilância com que outrora vigiavam acampamentos militares. Ao aproximar da carruagem real e sua escolta, estes afastavam-se e prestavam uma respeitosa reverência, e Eric gostava de os ver no seu lugar. A estrada e o castelo, e todo o território circundante, encontravam-se em segurança e nada passaria despercebido aos homens leais que patrulhavam a vila. Aqueles guardas, bem pagos e bem estimados, eram bastante melhor defesa do que as antigas muralhas que rodeavam o castelo. Tinham sido altas e altivas, em tempos, mas alvo de décadas de ataques e pilhagens restavam-lhes por memória os montes de ruínas espalhados aqui e ali. Eric nunca as mandaria reparar, antes sorria, ao avistar o que delas sobrava no lusco-fusco, uma constante recordação de que tinha lutado e de que tinha vencido, e era com um secreto prazer que deixava as pedras tombar.
Ainda era muito cedo para a habitual agitação da taberna, quando a carruagem parou à porta e Eric desceu. A sua chegada foi notada, e logo o taberneiro saiu ao seu encontro enrolando as mãos no avental. Obsequioso e admirado perante a distinta visita a tão inesperadas horas, perguntava em que podia agradar, mas Eric não levava intenção de se demorar e depressa lhe deu a saber que não tinha vindo para comer ou beber.
– Diz-me, quanto queres pela rapariga, Reena, penso que se chama?... – perguntou, entrando pelo salão e olhando em volta. A lareira ainda não tinha sido acesa mas bastavam os pálidos clarões que por enquanto animavam as lamparinas para denunciar que a imundície da noite anterior, ou de muitas noites antes dessa, não tinha conhecido limpeza.
O taberneiro mal queria crer no que ouvia, e quase perdia o perpétuo sorriso servil tal era a perplexidade que lhe assentara no rosto.
– A puta coxa?! – insistiu, temendo não ter percebido bem ou que o imperador se tivesse enganado no nome.
– Sim, a puta coxa. Quanto?
Abismado, apesar de familiarizado com a natureza caprichosa do seu cliente mais importante, o taberneiro lá acabou por esquecer o sorriso ao falar de negócios.
– Bem, meu senhor, eu por ela pediria duas moedas, mas para vossa majestade… – e baixou a cabeça, encolhendo os ombros, porque pouco lhe importava para que intuitos desejava o imperador adquirir justamente aquela coisa sem valor. O melhor era guardar para si o espanto, não fosse incorrer no risco de que o soberano julgasse que questionava o tipo de distracção que lhe agradava, e falar depressa e sem maiores rodeios: – Para vossa majestade, ofereço-a de graça.
– Muito bem. Onde está ela?
Ainda não completamente convencido de que o imperador quisesse mesmo levar consigo aquela imprestável, o taberneiro dobrou-se numa vénia e guiou-o pelo corredor até ao sítio onde a rapariga dormia, se era esse o seu desejo!... Dobrou-se novamente, quando o imperador o mandou embora com um gesto, e deixou-os sozinhos como parecia ser o seu propósito. Sabia lá do que o soberano gostava e achava melhor não saber demais!
Eric não tinha chegado por acaso àquela hora pouco frequentada. Calculava que as mulheres e os criados da taberna andassem a preparar comida e bebida para os fregueses dessa noite, e ninguém de importância o teria visto ali. Reena não estaria entre eles, porque não a tratavam como igual. Mantinham-na à distância, como a uma escrava ou a um animal doméstico que toleravam dentro de portas enquanto tivesse utilidade. Os aposentos em que a encontrava apenas confirmavam o que já tinha deduzido de observações anteriores. Espreitou primeiro, pela porta entreaberta, e viu a rapariga sozinha, sentada em sujas mantas sobre um monte de palha, a sua única cama, encostada à parede de tosco tijolo com o olhar ausente dos condenados à morte. Nem uma luz havia naquele quarto esquecido, apenas a tocha do corredor lhe fazia chegar alguma claridade, mas não lhe parecia que a rapariga se importasse com isso, nem com coisa nenhuma. Tão desalentada a achava, se calhar nem sabia porque era desprezada e porque não comia na cozinha com os outros. Pelo que Eric tinha presenciado, não era difícil de perceber. Com certeza não era lucrativa para os fins que o taberneiro lhe planeara, e deixavam-na ficar para ali, de acordo com a sua pouca importância, remetida aos restos. Nada de melhor a aguardava se ficasse naquele sítio.
A rapariga permanecia quieta e pensativa, de olhar perdido no vazio, alheia a que era observada e muito menos por quem. Tinha ouvido passos perto da porta mas estava tão habituada a ser ignorada pelas pessoas da casa que já não erguia a cabeça para as olhar senão quando lhe davam ordens. Nunca se lhe tinham dirigido com diferente intenção e ainda era cedo para a chamarem. Ainda era cedo, mas a noite caía, e Reena estremecia ao lembrar-se de que o serão se aproximava. Talvez tivesse sorte, e a ninguém apetecesse troçar dos seus insuficientes favores. Talvez a deixassem ali ficar, em paz, por uma noite, por uma noite que fosse, e dormir… Reena desejava muito dormir, adormecer como se fosse para sempre e como se nunca mais precisasse de acordar… Cada dia, cada noite, era pior do que a anterior. Tinha-se iludido na sua ténue esperança, ao chegar, de que talvez aquele lugar não fosse tão mau como os outros. Pelo menos ali ameaçavam mandá-la embora, como se tal fosse uma ameaça, como se durante anos não tivesse planeado outra coisa senão fugir… Quando ainda era demasiado jovem para que os seus carcereiros permitissem que escapasse. Já não a trancavam, agora, deixavam-lhe a porta aberta, desinteressados. Agora, que era tarde demais. Já não podia fugir, não desde que lhe tinham partido aquela perna que às vezes ainda doía tanto. Não havia para onde ir, nem como lá chegar. O que havia eram noites de sofrimento e dor, e madrugadas de lágrimas que anunciavam um novo dia, igual ou pior… Agora Reena pensava numa outra fuga, muito mais definitiva e derradeira. Se ao menos conseguisse falar com aquela mulher que vivia na vila, a quem as outras recorriam quando ficavam grávidas, e que lhes dava umas ervas que as punham muito doentes mas libertas da criança indesejada, umas ervas tão poderosas que algumas não sobreviviam embora fossem administradas com todo o cuidado… Conhecedora de poções tão fortes, certamente essa mulher saberia de ervas venenosas para outros propósitos, mas como convencê-la a ajudá-la ou apontá-la na direcção certa se esta era chegada ao taberneiro e não desejaria prejudicar-lhe o negócio? Reena não depositava grande esperança nesse auxílio. Mas havia outras maneiras, maneiras igualmente eficazes, e não seria a primeira vez que experimentava o gume afiado de uma faca contra a pele aparentemente tenra dos pulsos. Não era tão fácil como parecia, nem tão eficaz, nem tão rápido. Demorava tempo, e havia muitos olhos a vigiá-la. Não, teria de ser outro o golpe, profundo e irremediável, no peito ou no ventre, e teria de ser rápido, e fatal, e exigia força. Reena não achava que tivesse força para fazer o que tinha de ser feito, porque as suas mãos eram fracas, e a sua alma cobarde, e as lágrimas correram-lhe pelo rosto ao lembrar-se de que desejava dormir, e adormecer… Se ao menos pudesse fechar os olhos e dormir!
O ranger da porta a abrir acordou-a. Contra a luz das tochas, a negra silhueta de um homem alto e forte entrava no quarto. Outro qualquer tê-la-ia assustado, mas o tamanho do choque dissipou o susto quando lhe distinguiu as feições. Reena nem queria crer que estava a ver o imperador no seu aposento miserável e por instantes até se esqueceu de respirar.
– Reena, é o teu nome? – Eric perguntou, como se não soubesse, para a distrair de quaisquer que fossem os sombrios pensamentos que a levavam a chorar na escuridão. – Venho fazer-te uma proposta. Tenho observado como os meus amigos têm uma particular predilecção por ti, e gostaria que os servisses na minha casa quando eles me visitam para não terem o incómodo de fazer o percurso até aqui. O inverno aproxima-se e a minha sala é muito mais acolhedora do que este antro malcheiroso. – e Eric olhou em volta, o sobrolho levantado e desdenhoso. – Se aceitares, servirás no castelo. Não terás tarefas pesadas que não possas suportar, mas deve haver alguma coisa que consigas fazer. O dono da taberna oferece-te de graça mas não quero levar-te sem o teu consentimento. O que dizes?
Reena não conseguia dizer nada, de espanto. O que falava, dentro dela, era o medo que subitamente lhe apertava o coração. Tinha ouvido histórias sobre o que os nobres faziam na impunidade secreta das suas casas a raparigas sem ninguém no mundo. Raparigas como ela. Conhecia os amigos do imperador, que troçavam e riam, mas que dentro das paredes da taberna se comportavam como todos os outros, e a usavam e a esqueciam. Se a queriam levar dali, para um sítio longe dos olhares, se o próprio imperador em pessoa estava ali, sozinho, para lhe propor tal coisa, ele que a podia mandar buscar por um qualquer criado e obrigá-la a submeter-se a tudo o que desejasse, mas vinha sozinho, falar-lhe em privado... só podia significar que a queriam levar para fazer pior, muito pior. Para outro tipo de prazeres, proibidos até à nobreza, que terminavam em sangue e morte. Reena pensou na morte e estremeceu. Se calhar, por milagre, as suas preces tinham sido ouvidas e o que o imperador lhe propunha era que desse permissão… para que a matassem? Seria isso?... Seria rápido, seria lento?... E importava?...
– Então? – Eric insistiu, um pouco impaciente perante aquela demora incompreensível com que gente mais importante não se atreveria a fazê-lo perder o seu tempo. Talvez ela não o conhecesse, pois afinal tinha ali chegado há apenas alguns meses, e se o vira antes teria sido na sala da taberna em companhia de outros nobres e homens de armas… Todos entretidos em comportamentos, admitia, que nada se adequavam a um soberano. – Sabes quem eu sou? – inquiriu, mas a rapariga continuava calada, por única resposta um tremor afirmativo e aterrorizado de que sabia, sim, quem ele era, e que o temia, e só então Eric percebeu que por alguma razão com que não tinha contado a proposta a apavorava. Aquilo surpreendia-o, porque tinha julgado que ficasse contente… A não ser que imaginasse que a esperava no castelo uma existência de maus tratos, como ali, ou pior, e que injusto seria fazer dele tal ideia, pois não tinha nenhum motivo para recear… Excepto pela própria proposta! Claro, e como poderia ser de outra maneira? Devia soar-lhe inesperada, e demasiado generosa, e algo a desconfiar da parte de um estranho. Era preciso ser mais explícito, muito mais explícito: – Estou a propor-te que venhas servir-me no castelo, e terás uma vida melhor, boa comida, roupas decentes, um trabalho leve, e nada mais do que fazes aqui.




Nepenthos - Capítulo I - segunda parte

Capítulo I - primeira parte

A jovem ergueu os olhos, evitando os do taberneiro. Olhava antes para o caminho em sua frente, o escuro corredor que conduzia à sala cor de fogo de onde ouvia os homens falarem alto e rirem às gargalhadas…




– Quatro anos, quatro miseráveis anos! Sem contar com os tempos do rei! – recordava o jovem conde Malkom, sentado ao lado do imperador como era privilégio dos seus maiores amigos. Voltou a molhar os lábios na cerveja e continuou, de sobrolho levemente franzido e sem a mesma jocosidade dos convivas reunidos à volta da tosca banca de madeira daquela taberna ignóbil onde ninguém era obrigado a comportar-se à altura da sua posição. – Ainda me custa a crer que já não sei o que é dormir no chão de uma tenda de campanha há quase dois anos! Pior que o inimigo, eram as pulgas!
Os homens interromperam-no numa gargalhada cúmplice, e Malkom riu-se também e bebeu outro gole, mas novamente a sua expressão se tornou séria:
– Julgavam que não éramos sequer uma ameaça, a princípio, tão poucos e divididos. Já nos tinham cortado a cabeça, em pensamento, de tal maneira que nem se deram ao trabalho de no-la cortar! E devo admitir, os malditos tinham razão. Quem acreditaria que chegássemos onde chegámos? Eu próprio não acreditei!
Não era novidade para ninguém. Também Malkom tinha conquistado uma alcunha nos tempos da guerra, e não era por nada que lhe chamavam o Cínico. Mas os homens àquela mesa não estavam na disposição de aturar lembranças sombrias, e vaiaram-no com a alacridade de quem já tinha bebido canecas a mais.
– Melhor era a conversa quando falavas das pulgas! – calou-o o conde Ian, com uma careta de desagrado que apenas um amigo de infância, quase um irmão, podia dirigir-lhe sem que este ficasse ofendido. – Ninguém te quer ouvir! Não viemos aqui para brindar à nossa vitória? Ou para beber, com a desculpa de brindar à nossa vitória?… – e voltou-se, numa gargalhada, para os antigos companheiros de armas que recordavam na honestidade daquelas palavras a natureza ligeira, quase insensata, com que Ian dizia sempre a primeira coisa que lhe vinha à cabeça. Mais rápido ainda era na prontidão com que cavalgava para a batalha de espada em punho, à frente e sem temor, porque era já o inimigo quem dele se apavorava. A fama de Ian o Valente era tão grande entre aliados como adversários. – Proponho outro brinde, ao nosso magnífico soberano que nos uniu numa causa comum e gloriosa: estar aqui, esta noite, a beber até cair para o lado!
Só de Ian o Valente era esperado que se referisse assim ao imperador. Era sabido que o conde Ian e o conde Malkom eram os seus melhores amigos, de um companheirismo forjado nos campos de batalha, mas em nada faltava àquela amizade o riso e a folia de homens jovens e nem sempre inclinados a respeitar as formalidades que os respectivos cargos lhes impunham. Nem estavam ali para outra coisa senão para se divertirem, naquela noite na taberna entre irmãos de armas em que regras diferentes se lhes aplicavam.
Eric baixou os olhos e lambeu a espuma da sua cerveja, numa expressão tão satisfeita como meditativa, e abanou a cabeça antes que Ian pudesse receber uma resposta:
– Basta de brindes à minha pessoa por hoje! Brindamos à vitória que nos trouxe aqui... – começou, e olhou a cada um dos homens sentados, e alguns de pé, muitos que tinham vindo de longe para aquela comemoração. Homens que tinham passado a juventude na guerra mas que tinham podido regressar a casa, finalmente, e que por isso mais alegremente aceitavam o convite. Todos faziam silêncio ao ouvi-lo, adivinhando-lhe pelo tom de voz que se seguia algo de sentido e importante: – E brindamos pelas vitórias futuras que ainda nos esperam. As batalhas que temos à nossa frente não se ganham com a espada mas com determinação e propósito. Os velhos tempos acabaram, e os novos tempos não apresentam menos desafios. Conto com todos vós, senhores, capitães, amigos, para continuardes a lutar as futuras batalhas que serão travadas neste reino, para serdes os meus olhos e os meus ouvidos e os guardiões da nossa vitória, vós, os meus homens de confiança que partilhais os meus desígnios e a quem eu confio também o sucesso do nosso empreendimento. Em vós confio como confiei quando era a nossa vida que estava em causa, e sei que não me desapontareis como não me desapontastes antes, face à morte. Se exércitos não nos travaram nada nos travará agora. – e então Eric levantou-se, erguendo a vulgar caneca como se fosse a mais preciosa taça, e todos se levantaram também e imitaram-no, em expectativa. – A nossa vitória não acabou, está apenas a começar. Brindo à paz. Brindo à mudança. Aos novos tempos!
– Aos novos tempos! – ouviu-se em coro, e desta vez não eram levianos os brindes que se ergueram entre eles.
Por momentos, a solenidade das palavras ecoou pela sala e trocaram-se olhares de orgulho e confiança. Todos aqueles homens tinham uma missão ao serviço do imperador, que os enobrecia, que os elevava a circunstâncias menos humildes do que aquelas em que tinham nascido e com que jamais teriam sonhado. Eric brindou com os mais próximos, e quando se voltou para Ian, ao seu lado direito, encontrou-lhe nos olhos negros a censura enfadada de quem estava farto de discursos. Já tinha ouvido muitos e não julgava que a noite tomasse tal rumo. Na verdade, Eric também não o tinha planeado. Haveria muito tempo para falar de assuntos sérios com os seus leais capitães de armas. Aquela não seria essa noite.
– Mas o meu amigo tem razão! – retomou, abandonando o cerimonioso porte de um comandante a inspirar as suas tropas e abrindo o rosto num sorriso indulgente aos veteranos que brindavam. – Basta de pensar em deveres por hoje. Estamos aqui para celebrar, e para beber, e para o que mais a noite oferecer! Que seja esse o nosso dever por agora!
Eric ergueu novamente a caneca, e ouviu os homens aprovarem e rirem, e sentou-se descontraído à cabeceira da mesa. Malkom e Ian sentaram-se também, num brinde final entre os três. Os convivas entregaram-se à farra despreocupada da bebida e da conversa, e Malkom aproveitou para congratular o imperador em voz baixa:
– Excelente! – elogiou, sincero, com um brilho de admiração nos olhos cor de mel. – Quando abres a boca nada ficas a dever ao Tentador! E pensar que a princípio não te sabia um bom orador…
– Ora! – interrompeu Eric, encolhendo os ombros com modéstia. – Como te disse, aprendi tudo nos livros do mosteiro. Li as obras da Antiguidade, estudei a vida dos grandes reis e generais e conquistadores. Apenas lhes sigo o exemplo. Tudo o resto foi sorte e oportunidade. Algo que também não faltou aos mais ilustres, quando no antigo império de…
– Oh não, não, não! – insurgiu-se Ian, abanando a cabeça. Já imaginava que Eric se ia pôr a contar qualquer história de estratégias e de guerras antigas, como fazia amiúde se não o calassem. – Viemos aqui para beber, não estamos em nenhum mosteiro. Pelo contrário. – e o seu sorriso travesso revelou que afinal não pensava só em beber. – Têm belas moçoilas por aqui! Por falar nisso… – e Ian ergueu a voz e o olhar, que dirigiu ao taberneiro, por ali especado a um canto da sala a aguardar as ordens da nobre clientela. – Quando é que trazem a puta coxa?...
Malkom riu-se. A “puta coxa” era uma espécie de atracção. Tinha chegado à taberna há alguns meses e era conhecida pela sua relutância em agradar aos fregueses. Claramente era um jogo, um truque, como ela tão bem se conseguia fazer passar por ingénua donzela!
Eric não se riu. Não tinha tanta certeza de que fosse um jogo. Já tinha observado a rapariga em ocasiões anteriores e parecia-lhe mais que a pobre desgraçada não tinha nascido para aquela vida… Mas até podia ser um jogo, como tantos outros com que as prostitutas eram peritas em divertir os clientes. Malkom e Ian divertiam-se, e certamente não seria ele a preocupar-se com o assunto.
O taberneiro dobrou-se para a frente numa humilde vénia e saiu pela porta. Assim que saiu, os traços daquele rosto antes sorridente e servil endureceram-lhe as rugas da idade. Caminhou até ao canto escuro de um corredor, onde sentada num pequeno banco, de cabeça baixa e mãos apertadas sobre o colo, a jovem esperava. O taberneiro parou uns instantes a inspeccioná-la. Estava suja, mal vestida e descalça. Se freguesia daquele calibre começava a chamar por ela talvez tivesse de lhe comprar trapos decentes… Mas adiantaria? A rapariga era tão inútil! A princípio tinha-a considerado um mau negócio e passou-lhe pela cabeça mandá-la embora, mesmo perdendo o dinheiro que à socapa trocou de mãos com quem a vendera. Era contra a lei e o costume que se transaccionassem servos e outros tipos de gente de ainda inferior condição a quem ninguém reclamaria, mas com algum expediente lá lhe chamavam compensação e o negócio ia-se fazendo. Por pouco o taberneiro não se julgava enganado, e arrependido de ter desperdiçado moeda em tão ruim investimento, quando algo de curioso começou a acontecer. Alguns homens, bem bebidos, achavam graça àquela rapariga que se fingia apudorada e que muitas vezes até chorava lágrimas verdadeiras. Só por essa razão ainda a mantinha no estabelecimento.
Mas na verdade a rapariga era inútil. Nem se sabia arranjar! Com um suspiro exasperado, o taberneiro aproximou-se e soltou-lhe o cabelo. Já lhe tinha dito que o usasse solto, as madeixas castanhas sobre os ombros descobertos. A inútil não dava ouvidos!
– Querem-te na sala. – anunciou, e quase a viu estremecer, mas ela não levantou a cabeça. – Põe-te de pé, vamos! Não temos a noite toda! – repreendeu, e só então a rapariga se apoiou na parede para se erguer, sem tirar os olhos do chão. – Presta atenção! Sabes quem está naquela sala? O próprio imperador e outros nobres. Deixa-te de lamúrias e trata de satisfazê-los bem satisfeitos! Quando te trouxeram para aqui bem me avisaram de que não prestavas. Fiquei contigo porque me saíste barata mas não és lucro que compense a despesa. É bom que passes a levar o trabalho a sério e que o faças bem feito senão ponho-te na rua num esfregar de olho! A tua sorte é que ainda há quem te ache uma novidade, mas olha que isso acaba num instante! As outras mulheres, muito mais competentes do que tu, mereciam mais ir esta noite àquela sala! Mas é a ti que querem, e és tu que vais. Eu entendo-me com elas. Mas que seja a última vez que to digo: ou começas a trabalhar como deve ser ou podes pensar em ir pela estrada fora!
A jovem ergueu os olhos, evitando os do taberneiro. Olhava antes para o caminho em sua frente, o escuro corredor que conduzia à sala cor de fogo de onde ouvia os homens falarem alto e rirem às gargalhadas… Já deviam estar muito bêbedos. Sem que o taberneiro precisasse de lhe dizer mais nada, caminhou até lá, a mão esquerda apoiada na parede a cada passo como se habituara a fazer desde que coxeava, embora naquela noite procurasse antes naquela parede já familiar um último e frio e breve amparo.
Parou à porta e observou o que a esperava. Eram tantos! Novamente baixou os olhos, e cerrou os lábios, e não teve coragem de avançar. Não foi preciso, porque logo um dos homens a foi buscar por um braço. Alguns eram fregueses habituais e fizeram questão de explicar aos outros o que nela os interessava. Mas como era tímida! Mas como se fingia inocente! Quem a visse assim recatada nem adivinharia que já passara por bordéis no reino inteiro! A algazarra e as gargalhadas aumentaram de tom. Todos queriam experimentar, mas o que primeiro a agarrara mandou-os esperar pela vez deles. Puxou-lhe pela manga do vestido, já muito gasto e remendado, quase em farrapos, e encostou-a contra uma mesa ao centro da sala, onde a beijou no pescoço e lhe apalpou os seios e as coxas. Os outros homens aplaudiam e incentivavam com sugestões e gritos viris.
Eric reparava, discreto, agora que as atenções se desviavam para a luxúria do espectáculo, que ela mantinha os olhos fechados, e que deixava que a cabeça se lhe balanceasse de um lado para o outro à vontade daquele que lhe manipulava o corpo, como se desmaiada ou adormecida. Farto de brincadeiras, o homem deitou-a na mesa, derrubando canecas e pratos e jarros, e puxou-lhe para baixo o decote do vestido, expondo os seios, e levantou-lhe a saia. Eric desviou os olhos, como sempre preferia fazer, quando dela ouviu um lamento de dor, quase imperceptível no meio daquela ruidosa galhofa, e sem que o desejasse não se conseguiu impedir de tornar a olhar. Os lábios dela, entreabertos, pareciam murmurar a palavra “não”, embora não a chegasse a pronunciar, mas Eric viu-lhe nos olhos castanhos, por instantes descobertos num piscar de pálpebras, que pesadas lágrimas lhe molhavam o rosto, e perguntou-se se eles se lembrariam de que a pobre rapariga era um ser humano também. Até então, Eric não se tinha apercebido de que entretanto, numa das muitas noites naquela taberna, lhe ouvira o nome e o sabia. Chamava-se Reena.
Em breve todos os que assim o entenderam se satisfizeram como lhes apeteceu e deixaram-na ir embora. Reena saiu por onde entrara, num passo mais lento e cambaleante do que era costume e sem erguer os olhos do chão, e o imperador não a voltou a ver na sala.
Entre os homens, a conversa retomou onde tinha ficado, as glórias do passado e as conquistas do futuro.