sexta-feira, 1 de maio de 2020

“Nepenthos”, novo livro de D. D. Maio - publicação para muito breve


Está mesmo para muito breve a publicação em papel de “Nepenthos”, o novo livro de D. D. Maio. Em sistema de publish on demand, o romance estará disponível na Bubok (www.bubok.pt).
A ilustração de capa (e contracapa) é da nossa talentosa artista Ariadne Castro.
Os capítulos iniciais de "Nepenthos", e alguns exertos adicionais, podem ser encontrados AQUI neste mesmo blog.

Sinopse
Num gesto de encoberta bondade, o jovem imperador salva uma rapariga da ignomínia na taberna da vila. Devia ter sido inconsequente, mas o encontro muda para sempre as suas vidas.


Acaso, escolha ou destino?

Reena deseja morrer. Serva órfã, presa de abuso em menina e forçada à prostituição desde jovem, há muito que o desespero lhe sussurra ao ouvido. A súbita oferta de uma vida melhor no castelo do imperador não é o trabalho digno que teria almejado, mas dá-lhe esperança de vir a conquistar uma humilde posição de criada. No castelo, Reena experimenta uma liberdade que nunca lhe tinha sido permitida e recorda sonhos de rapariguinha, de um amor e de uma família. Mas sucessivos envolvimentos românticos, fracassados, tornam a lançá-la na escuridão da derradeira escolha. Por muito que tudo ainda melhore, conseguirá alguma vez resgatar-se a si mesma desse inimigo oculto no âmago da sua alma?
Eric, o imperador, já desceu demasiado baixo. Enraivecido por uma infância de abandono, endurecido por um passado de guerra, envereda voluntariamente pelos nefastos caminhos de que talvez não haja regresso. Um último passo na direcção errada desmorona o homem de pedra que já não o quer continuar a ser. Mas não será demasiado tarde para mudar?
Tão afastados nos extremos do destino, Eric e Reena partilham difíceis veredas na busca da longínqua felicidade que não lhes parece reservada. Para ambos, nenhuma felicidade poderá ser vulgar.


“Nepenthos” é um drama em Low Fantasy, pesado e realista, por vezes desconfortável, mas com bastantes tons de romântico.


Disponível brevemente. 

“Nepenthos”, novo livro de D. D. Maio


Sinopse
Num gesto de encoberta bondade, o jovem imperador salva uma rapariga da ignomínia na taberna da vila. Devia ter sido inconsequente, mas o encontro muda para sempre as suas vidas.


Acaso, escolha ou destino?

Reena deseja morrer. Serva órfã, presa de abuso em menina e forçada à prostituição desde jovem, há muito que o desespero lhe sussurra ao ouvido. A súbita oferta de uma vida melhor no castelo do imperador não é o trabalho digno que teria almejado, mas dá-lhe esperança de vir a conquistar uma humilde posição de criada. No castelo, Reena experimenta uma liberdade que nunca lhe tinha sido permitida e recorda sonhos de rapariguinha, de um amor e de uma família. Mas sucessivos envolvimentos românticos, fracassados, tornam a lançá-la na escuridão da derradeira escolha. Por muito que tudo ainda melhore, conseguirá alguma vez resgatar-se a si mesma desse inimigo oculto no âmago da sua alma?
Eric, o imperador, já desceu demasiado baixo. Enraivecido por uma infância de abandono, endurecido por um passado de guerra, envereda voluntariamente pelos nefastos caminhos de que talvez não haja regresso. Um último passo na direcção errada desmorona o homem de pedra que já não o quer continuar a ser. Mas não será demasiado tarde para mudar?
Tão afastados nos extremos do destino, Eric e Reena partilham difíceis veredas na busca da longínqua felicidade que não lhes parece reservada. Para ambos, nenhuma felicidade poderá ser vulgar.


“Nepenthos” é um drama em Low Fantasy, pesado e realista, por vezes desconfortável, mas com bastantes tons de romântico.


Disponível brevemente. 

(Imagem de capa de Ariadne Castro)

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

“Solstício”, conto de D. D. Maio, disponível em papel



Para os leitores à antiga, que gostam de tomar um livro nas mãos e afagar-lhe as páginas, “Solstício” já está disponível também em papel, na Bubok:
www.bubok.pt/livros/12040/Solsticio

O site Bubok permite o preview da capa e das páginas iniciais.

Para os amantes do e-reader, “Solstício” continua disponível para download gratuito em formato epub, aqui:
www.bubok.pt/livros/11942/Solsticio

“Solstício” é um drama romântico no género Low Fantasy. A acção centra-se em torno das celebrações do solstício de inverno em terras pagãs.

Sinopse
A noite mais longa do ano. Eric, o imperador, visita a sua prima Hildegaard nas Terras Verdes em busca da família que nunca teve e da esposa que quer vir a ter. Em terra de bruxas, sem acreditar nelas, espera-o confrontar-se com as suas próprias raízes num mundo isolado e proscrito que nunca conheceu, que nunca será o seu, e de que sempre fará parte.

sábado, 22 de junho de 2019

“Solstício”, um conto de D. D. Maio, disponível para download gratuito



O conto “Solstício” já se encontra disponível para download gratuito no site da Bubok.
Link aqui:
www.bubok.pt/livros/11942/Solsticio

Sinopse
A noite mais longa do ano. Eric, o imperador, visita a sua prima Hildegaard nas Terras Verdes em busca da família que nunca teve e da esposa que quer vir a ter. Em terra de bruxas, sem acreditar nelas, espera-o confrontar-se com as suas próprias raízes num mundo isolado e proscrito que nunca conheceu, que nunca será o seu, e de que sempre fará parte.

“Solstício” é um drama romântico no género Low Fantasy.

Como autora, agradeço a todos os beta readers e demais leitores que ao longo destes anos contribuíram com comentários construtivos. Sem vocês a minha escrita não seria o que era hoje. Muito obrigada.
d. d. maio

terça-feira, 19 de março de 2019

Nepenthos - Capítulo XXVII (excerto)

Já publicado
Capítulo I - primeira parte
Capítulo I - segunda parte
Capítulo II - primeira parte
Capítulo II - segunda parte
Capítulo III - primeira parte
Capítulo III - segunda parte
Capítulo IV (excerto)
Capítulo VII (excerto)
Capítulo VIII (excerto)
Capítulo XII (excerto)
Capítulo XVIII (excerto)


E morreria, se o perdesse.



Chegou o dia em que Rurik abria a loja e Micenne pensou, ao entrar, que não devia ter sido assim aquele dia. Devia ter sido um dia de alegria, o dia em que se sustentaria a si própria, e ao seu filho, com o seu trabalho. Não se tinha imaginado apavorada como se prestes a receber uma sentença. Que homem era aquele, o pai do seu filho, que a assustava mais porque ninguém sabia o que esperar dele? Nem Reena e Rurik, seus antigos servos, nem o próprio duque, amigo e aliado. Que homem podia ser assim imprevisível que era como se ninguém o conhecesse?
Rurik terminava de apontar numa lista as últimas entregas e o cálculo dos preços logo à frente. Escrevia para ela, porque Rurik fazia as contas de cabeça e não precisava de as pôr no papel. Micenne não sabia se era tão fácil para ele porque era o aluno mais esperto do monge Johannes, ou se era a ela que faltava esperteza. Ainda achava tudo tão complicado, os números mais do que as letras, mas esforçar-se-ia por não o decepcionar.
– Não te preocupes se te enganares. – Rurik tentou sossegá-la. Micenne esboçou um sorriso, o melhor que conseguiu mostrar. Não eram as contas que temia, mas de nada adiantaria afligi-lo também, àquele bom amigo, a quem estava tão grata, que já ajudava tanto e não podia ajudar mais. Rurik era um homem decente, um dos poucos que mereceriam o coração generoso da sua esposa. – Eu estarei lá em cima, se precisares de alguma coisa.
Rurik subiu, pela escada dos fundos que dava acesso aos pisos superiores, e Micenne olhou em redor aquele espaço que já conhecia, o balcão para os tecidos, as prateleiras de sedas e linhos, a porta aberta para a rua. Tinha chovido muito nessa noite, e cheirava a lã e a madeira nova. A manhã, enevoada, prometia mais chuva, que não tardou. Ouviu-se um trovão, ao longe, e as nuvens desfizeram-se em água. Ninguém ia entrar por aquela porta numa manhã assim, e Micenne voltou os olhos para o seu menino, no berço atrás do balcão, dormindo tão profundamente como se estivesse em casa. E morreria, se o perdesse. Micenne soluçou, e tapou a cara com as mãos e julgou que se ia desfazer em lágrimas…
Duas senhoras, cobertas com as suas vistosas capas, a fugir da chuva, entraram a correr pela loja adentro. Culpavam-se uma à outra pela imprudência de terem saído de casa nessa manhã, com aquele tempo! Mas agora reparavam, uma loja nova, e que bonitas peças, aqueles tecidos. Quanto custava este, quanto custava aquele?... Micenne consultava a lista e sorria porque achava que devia sorrir. E havia de decorar aqueles preços todos, com o tempo. Uma sentença talvez se abatesse sobre a sua cabeça, muito em breve, mas faria o seu melhor, e agradeceria com o seu trabalho aos benfeitores que lhe tinham dado aquela oportunidade. Talvez as senhoras, gente rica, sem dúvida, comprassem alguma coisa. E enquanto trabalhava esqueceria tudo o resto.
 




Outros excertos


quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Miasma - Capítulo I




Eu devia ter ido para casa. Hildegaard olhou pela janela da carruagem. A estrada da vila real era larga e suave às rodas, mantida em excelentes condições. Árvores antigas ladeavam-na, altas e soberbas, mas em tempos mais recentes muitas teriam sido sacrificadas às bermas simétricas que delimitavam o caminho. A paisagem outonal tinha os seus encantos, com os seus ramos despidos contra o céu cinzento. Nada da floresta bravia e perene a que Hildegaard chamava lar, mas bonito.
A brisa fria começava a incomodar e Hildegaard apertou o manto de lã em torno dos ombros. Não devia estar ali. Apenas por uns dias, tinha dito o seu primo. Três meses antes. Mas tanto tinha acontecido, e a estadia em Dois Portos tinha-se prolongado. Finalmente, regressavam. Se tivesse tomado a bifurcação na encruzilhada já estaria em casa. Hildegaard nem sabia que insensatez a levara mudar de ideias a meio da viagem. A vila real era perigosa. As pessoas tacanhas e rudes. Ali queimavam-se bruxas. Devia ter ido para casa.
No banco em frente, Eric e o menino estavam silenciosos e sisudos. Ambos com a cara de quem ia para um castigo. O castelo aproximava-se e notava-se-lhes a apreensão nos olhos. Hildegaard observou-os atentamente. Então o seu primo estava mesmo convencido de que havia qualquer coisa no castelo. Uma presença, tinha ele dito. Uma escuridão, um gelo em todos os aposentos mesmo com as lareiras acesas. Um miasma, tinha-lhe chamado. Como uma nuvem de pestilência que estava lá e não se via. Eric tinha pegado no seu filho e fugido dali para fora. A mãe do menino tinha morrido no castelo, de doença súbita e febril. O menino tinha parado de comer. O seu primo, era a única explicação, tinha entrado em pânico. O desgosto tinha-lhe afectado a imaginação. Que havia algo, uma presença.
Mas agora Hildegaard observava o menino. Também ele inquieto com a aproximação do castelo. Que Eric acreditasse em fantasmas inventados no luto e na dor, era plausível. Mas o menino tinha um ano e meio, não tinha idade de acreditar. Talvez ainda recordasse a mãe? A vaga lembrança de a ter perdido? A paisagem daquela estrada?
Não havia nada no castelo, nunca tinha havido. Hildegaard tinha a certeza. Estava ali para garantir ao seu primo que tinha imaginado coisas. Eric encontrava-se num estado lamentável. Digno de pena. Desfeito em lágrimas aos pés da campa a chorar uma morte ainda mais recente. Um segundo amor inesperado e breve. Dois lutos em tão poucos meses destroçariam qualquer um. Até ao imperador a quem chamavam o Implacável. Hildegaard tinha-se preocupado ao vê-lo assim. Vulnerável, sozinho, de cabeça perdida.
Só por isso tinha mudado de ideias a meio da viagem e decidido acompanhá-lo a casa. Guiada pelo coração. Mas agora começava a arrepender-se. Eric estava devastado, mas era forte e recuperaria. Não havia luto que o tempo não curasse. E Hildegaard julgava-se mais sensata do que isso. Não devia estar ali. Queimavam bruxas, ali.
Em volta da carruagem, os homens da escolta do imperador tinham-se calado também. Ainda no dia anterior se tinham mostrado tão contentes por voltar a casa, mas agora seguiam em silêncio taciturno, como se nem soubessem o que os acabrunhava.
E então o pequeno Eric deslizou do banco e pôs-se à janela. Em bicos dos pés, as mãozinhas apoiadas na porta, a cabeça loira a espreitar o caminho em frente. Como se algo o sobressaltasse. Às vezes aquele menino parecia ter o dobro da idade. Outras vezes era tão bebé ainda.
– Pima Higá! – tinha ele tentado, vezes sem conta, pronunciar-lhe o nome. Hildegaard ria-se, divertida, quando o seu primo mais velho o tentava corrigir. Em vão. Por agora, o menino chamava-lhe só Pima.
Hildegaard quase sorria à lembrança, quando viu também. Lá fora, ao correr da estrada, uma neblina. Uma nuvem, invisível. Já estavam dentro dela, e era fria e densa. Arrepiava a pele. Mas ninguém naquela escolta via outra coisa senão nevoeiro. Eric suspirou, de olhos baixos. Ele também não via. Mas todos sentiam. A presença. Ainda nem se avistava o castelo e já ali estava.
E o menino, veria a neblina como ela era? As crianças eram mais sensíveis. Muitas nasciam com o dom, mas perdiam-no. Não significava nada.
O pequeno Eric recuou até ao pai. De repente o seu rostinho rosado ameaçava desatar em pranto, como o bebé que era ainda.
A carruagem virou uma curva e Hildegaard vislumbrou o castelo. Imponente, cinzento como rocha. E à volta dele a neblina, espessa, branca, fluida no ar. Como uma cobra, serpenteava em volta das velhas paredes. Só o topo da antiga torre de vigia lhe escapava nas alturas. Hildegaard arrepiou-se outra vez e pôs a cabeça de fora para olhar melhor. Que era aquilo? Mas que raio era aquilo?
– Não chores. – Eric pedia ao seu filho, sentando-o de volta no banco a seu lado. De olhos nos olhos, como se lhe adivinhasse os receios. – Vais ser um rapazinho forte e corajoso como me prometeste. Estamos em casa. O pai está aqui.
Suavemente, Eric penteava-lhe os cabelos com os dedos, só um pai a tranquilizar o seu filho. O menino ameaçava chorar, mas não chorava. Valentemente, queria acreditar na protecção daquele braço forte que o amparava pelos ombros. Mas era como se hesitasse, como se soubesse que o seu pai não via o que ele via.
E finalmente aqueles olhos azuis, indefesos, voltaram-se para Hildegaard. Tu vês? Pareceu-lhe ouvir. Não em palavras. Só pensamentos difusos. Mas naquela idade não significava nada.




Continua.

sábado, 18 de agosto de 2018

Nepenthos - excertos publicados



Capítulo I - primeira parte
Se era mau, tinha regressado pior.
Capítulo I - segunda parte
A jovem ergueu os olhos, evitando os do taberneiro. Olhava antes o caminho em sua frente, o escuro corredor que conduzia à sala cor de fogo de onde ouvia os homens falar alto e rir às gargalhadas…
Capítulo II - primeira parte
Nada mais do que fazes aqui.
Capítulo II - segunda parte
Devia ser aquilo, o desespero, quando a morte, qualquer morte, lhe servia de maior engodo do que a esperança.
Capítulo III - primeira parte
Se me quiserem fazer mal, não vai ser esta chave a impedi-los de arrombar a porta.
Capítulo III - segunda parte
Aquela era a sua única, a sua última oportunidade. 
Capítulo IV (excerto)
Desde que o futuro se apresentara demasiado medonho para o contemplar
Capítulo VII (excerto)
Onde a morte enchia de frutos o seu cesto ávido 
Capítulo VIII (excerto)
Beijou o rosto cinzento da sua irmã pequenina, e largou o seu corpinho para dentro das chamas

Capítulo XII (excerto)
 Acreditavam, ambos, ter enganado o destino

Capítulo XVIII (excerto)
Talvez fosse maior a tristeza ao ouvir os males que não conhecia ela própria.


Capítulo XXVII (excerto)
E morreria, se o perdesse.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Nepenthos - Capítulo XVIII (excerto)

Já publicado
Capítulo I - primeira parte
Capítulo I - segunda parte
Capítulo II - primeira parte
Capítulo II - segunda parte
Capítulo III - primeira parte
Capítulo III - segunda parte
Capítulo IV (excerto)
Capítulo VII (excerto)
Capítulo VIII (excerto)
Capítulo XII (excerto)


Talvez fosse maior a tristeza ao ouvir os males que não conhecia ela própria.


Micenne ficou, e foi recebida como uma amiga. Não era uma delas, não conhecia o que elas conheciam, mas todas sabiam o que a esperava no mundo lá fora. Era já como elas, as que tinham chegado àquela casa assustadas e em lágrimas, a quem só o tempo e a amizade tinham tranquilizado.
À noite, no salão, Micenne servia bebidas aos convidados e sorria timidamente como se fosse o seu dever. Mas não o seu lugar. Reena observava, como constrangida Micenne se mantinha no seu cantinho, e ninguém a saberia doce e amável como já todos na casa a conheciam. Deslocada, receosa daqueles estranhos, não se aproximava. O tempo e a amizade tinham-na tranquilizado, talvez, mas nunca era aberto o seu sorriso.
Numa manhã fria, mas resplandecente de sol, Reena encontrou-a no jardim, sozinha, de olhar pousado nas flores de inverno que naquele clima ameno prosperavam como se fosse primavera. Teria ela encontrado também o conforto das flores? O sol rosava-lhe as faces, já menos pálidas, e brilhava-lhe nos cabelos louros, meio soltos meio entrançados em complicados padrões, como se um manto de ouro a cobrisse. Embrulhava-a um simples manto de lã, oferta de uma das raparigas, e nem por isso a sua beleza era menos majestosa. Reena aproximou-se, para lhe perguntar sobre as flores, e viu que chorava. Sem um som, sem um lamento, as lágrimas caíam-lhe pelo rosto, uma atrás da outra, pesadas e contínuas.
– Não queria que visses. – confessou Micenne, ao perceber a sua presença, e apertou mais o xaile à volta dos ombros. – Disseste-me para ter esperança, e eu quero ter esperança, mas este mundo… É um lugar tão amargo, este mundo, para tantos de nós. Às vezes preferia não ter nascido, ou que a morte me levasse, para não ter de viver neste mundo.
O desespero não largava aquele coração, já lhe tinha fincado garras profundas e afiadas, e era tão mais grave do que Reena tinha pensado. Os lábios tremeram-lhe, na falta de palavras, naquele momento em que se embrenhou naqueles olhos tão claros, e tão cheios de escuridão, e se lembrou do alívio da morte. E como era tentador, o alívio da morte, onde não haveria mais sofrimento, nem lágrimas, nem dor.
– Eu perdi a esperança, em tempos. – admitiu, e os olhos brilharam-lhe também. Estendeu a mão à dela, para a confortar, ou para partilhar um segredo. – Mas se tivesse feito o que pensei fazer não estaria aqui agora para ajudar outras como eu. Se soubesses como a minha vida era infeliz, e como mudou tanto. E se mudou para mim, mais facilmente mudará para ti.
A Micenne apenas, Reena contou o suficiente. Havia suficiente que contar sem contar muito. Micenne ouvia, em confidência, e o coração arrepiava-se-lhe. Não tinha julgado que pudesse haver pior, e já não se sentia tão abandonada pela sorte. Mas não era maior, a esperança, talvez fosse maior a tristeza ao ouvir os males que não conhecia ela própria.





Outros excertos


sábado, 7 de abril de 2018

Nepenthos - Capítulo XII (excerto)

Já publicado
Capítulo I - primeira parte
Capítulo II - primeira parte
Capítulo II - segunda parte
Capítulo III - primeira parte
Capítulo III - segunda parte
Capítulo IV (excerto)
Capítulo VII (excerto)
Capítulo VIII (excerto)

Acreditavam, ambos, ter enganado o destino



Todo o semblante do duque Alexander se tinha transformado, de choque, de íntima agitação. Os olhos, sempre tão serenos, pareciam voltar-se para o passado e vê-lo à sua frente, como tinha acontecido, como se acontecesse agora. Era um segredo, que tinha mantido por mais de vinte anos, tão doloroso que só a custo o começava a relatar. Um desgosto, o maior de todos os desgostos, que por graves razões tinha sido forçado a guardar para si. Um segredo que Eric conheceria porque precisava de conhecer.
Tinha havido um amor, tinha havido uma filha. Há tantos anos, era Alexander ainda o jovem herdeiro do ducado, tinha-se apaixonado por uma bonita serva do palácio. Um amor correspondido, puro e sincero, que não tinha olhos para a grande distância que os separava. Ambos sabiam que ele seria obrigado a contrair casamento entre a nobreza, mas mesmo assim decidiram assumir aquela união que só lhes valeria censura. A Alexander magoava muito que aos olhos do mundo a mulher que amava não passasse de uma amante, remetida à discrição que aquela relação lhes impunha, quando por sua vontade não seria outra a sua legítima esposa. Julgavam-se sensatos, ambos, e aceitaram que não podia ser de outra maneira. Alexander ofereceu-lhe uma casa na cidade, não muito longe do palácio, e jóias e fortuna e todo o conforto que o dinheiro podia comprar, para que a falta do matrimónio nunca a entristecesse. Embora sentissem, ambos, que nos seus corações era maior o laço que os unia do que as restrições que os cerceavam. Durante alguns anos foram felizes, como nunca tinham sido e não voltariam a ser. A seu tempo, a família de Alexander combinou-lhe o casamento com outra nobre herdeira, no intuito de fortalecer a aliança entre as duas casas. Em dias de guerra e prudência, Alexander acatou. A sua jovem amada, sensata que era, concordou que não havia alternativa. Planeavam ser felizes, apesar de tudo, naquela casa da cidade, longe das imposições e da falsidade que eram obrigados a consentir. Se ao menos a duquesa Agatha tivesse sido igualmente condescendente. Mas não era, e depressa começou a revelar ciúmes e pouca inclinação para tolerar aquele arranjo. Alexander não queria expor a sua amada a evitável vexame. Assim que herdou o ducado, pela morte do pai, propôs-lhe que fosse viver para um castelo da família, longe dali, onde seria senhora e nem sequer teria de ver passar a sua esposa legítima ou lembrar-se de que esta existia. Triste, a princípio, porque a distância ia impedi-los de se encontrarem tão frequentemente, a jovem preferiu guiar-se pela inteligência, aquela inteligência que Alexander tanto lhe admirava, e admitiu que seria a melhor solução. O amor que partilhavam era tão perfeito que nenhuma distância importaria. Acreditavam, ambos, ter enganado o destino, e sonhavam começar uma família, longe dali, num lar cheio de amor onde as limitações do mundo não lhes ensombrassem a alegria.
Não aconteceu logo, a partida, bastante adiada, porque se amavam e não se queriam separar, e porque entretanto ela se achava grávida e Alexander desejava muito acompanhar a chegada do seu primeiro filho. Só quando a gravidez ia já adiantada é que a jovem resolveu que seria mais acertado mudar-se para o castelo antes do nascimento da criança. Havia ainda tempo, para a viagem e para se instalar. Sem pressa, ela partiu, em segredo e na calada da noite, como escolta apenas alguns criados e guardas de confiança para que ninguém soubesse para onde iam. Embora em tempo de guerra, Alexander não estava preocupado. Mandara guarnecer o castelo como a uma fortaleza onde a sua amada e o seu filho ficariam a salvo. Não tardaria muito para que a visitasse. Era apenas um curto adeus.
Acabaria por ser a gravidez o que a atrasou. Mais cedo do que o previsto foi surpreendida pelo trabalho de parto e teve de se socorrer da estalagem mais próxima onde deu à luz uma menina. Prontamente um dos guardas, que viria a tornar-se um dos homens de maior confiança do jovem duque, cavalgou noite e dia para lhe anunciar que tinha uma filha. Foi também a última notícia que teve dela.
Assim que voltou a poder viajar, a jovem retomou caminho, com o seu séquito, mas nunca chegou ao destino. A versão oficial determinava que a comitiva tinha sido atacada por salteadores que a mataram, e a todos os criados e guardas, para roubarem as jóias preciosas que levava consigo. Não havia testemunhas do massacre.
Ao relatar esta parte, a voz de Alexander desvaneceu-se, abalada, como se tivesse sido ontem, como se não se tivessem passado mais de vinte anos, e o imperador escutava-o no silencioso respeito de quem lia naquele rosto o grande luto que fazia ainda.
O mistério começou, prosseguiu o duque, porque estavam todos mortos menos a criança. A menina, pura e simplesmente, tinha desaparecido. Louco de dor, abandonou tudo para sepultar a mulher que amava, e logo de seguida pôs-se à procura da recém-nascida, com a ajuda do seu homem leal, o único que escapara à matança porque regressara para lhe dar a notícia. O mistério adensava-se ainda mais. As jóias foram todas recuperadas sem dificuldade porque os ladrões as tinham vendido por um preço irrisório e suspeito, mas da menina não havia sinal. Durante meses, anos, Alexander esperou que lhe exigissem um resgate, mas o pedido nunca chegou. Pensou então que havia duas hipóteses: ou sabiam que a criança era sua e temiam demasiado a sua vingança para se atreverem a expor-se, ou não sabiam, e ter-se-iam meramente desfeito dela. Passaram-se anos após anos de cruel angústia, imaginando o que de pior teria acontecido à sua filha, antes de conseguir dispor-se a aceitar que a menina estaria morta, para não sofrer mais e em vão. Tinha já outros filhos, que a duquesa dera à luz, e a eles se dedicou com o mesmo amor com que teria desejado amar aquela primeira menina. Morta, de certeza, morta. Mas ainda se questionava, no segredo da sua dor, por que razão não teriam os malfeitores posto fim à criança logo ali, junto da mãe, e porque a teriam levado, se não para a venderem e tentarem obter algum lucro? Seria sequer concebível que a brutos assassinos tivesse faltado a coragem de matar uma recém-nascida? Mas admitindo essa possibilidade, por remota que parecesse, quem poderia adivinhar que aquela bebé desprotegida era filha de um duque? Bastaria envolverem-na em trapos sujos e alegarem que era órfã. Qualquer família lhes pagaria meia dúzia de trocos por uma futura serva, e assim se livravam da única prova do seu crime.
Havia ainda uma suspeita mais sinistra com que Alexander tinha aprendido a conviver, não obstante os seus escrúpulos em alimentar infundadas conjecturas. A mãe da sua filha, e os acompanhantes, viajavam como gente simples e modesta para não atraírem atenções. Ninguém sabia da sua partida, excepto se os tivessem espiado. Como é que então os salteadores tinham escolhido precisamente aquela comitiva, e porque não se tinham limitado a roubar? Porque se tinham visto na necessidade de matar a todos? Porque não tinham apenas eliminado os homens, se estes tivessem porventura oferecido demasiada resistência, e poupado as mulheres, já que era manifesto que não tinham matado a criança, pelo menos ali? Todas essas questões o atormentavam, embora não tivesse a mínima prova das suas suspeitas, mas no íntimo do seu coração sempre tinha desconfiado que aquela obra terrível tinha uma mão menos acidental, e que essa mão era a da própria duquesa.






Próximo excerto


terça-feira, 27 de março de 2018

Nepenthos - Capítulo VIII (excerto)

Já publicado
Capítulo I - primeira parte
Capítulo II - primeira parte
Capítulo II - segunda parte
Capítulo III - primeira parte
Capítulo III - segunda parte
Capítulo IV (excerto)
Capítulo VII (excerto)


Beijou o rosto cinzento da sua irmã pequenina, e largou o seu corpinho para dentro das chamas


Não era vulgar, a história que Rurik tinha para contar. Embora começasse como a de muitas outras famílias pobres, as famílias dos camponeses que trabalhavam aquelas terras, mais a sul, onde tinha nascido. Rurik tivera uma família como essas, camponeses sem nada de seu que viviam num miserável casebre. Sete filhos, dos quais tinha sido o quinto. Agora Rurik sabia que nem todas essas humildes famílias tinham sido abençoadas com a verdadeira abundância que havia debaixo do seu tecto: amor, carinho, alegria. Nem a pobreza, nem as privações, nem a dura vida do campo roubavam àquela família a alegria. O pai era brincalhão, a mãe uma doçura, e só o que faltava às vezes era comida suficiente para encher os pratos. Mas partilhavam de bom grado o pouco que tinham, como tinham sido ensinados pelo pai e pela mãe. Porque eram muitos, os irmãos mais velhos iam cuidando dos mais novos. Rurik tinha a seu cargo uma irmãzinha que adorava e um bebé de colo. Foram felizes os tempos com os seus irmãos e irmãs. Até que a terrível peste visitou aquelas terras. Todos na casa ficaram doentes e Rurik não foi excepção. Durante muitos dias permaneceu inconsciente e febril, entre a vida e a morte, sem noção do que se passava à sua volta. Acordou sozinho, naquela manhã silenciosa, milagrosamente recuperado, e encontrou o pai e a mãe na cama, mortos, e todos os seus irmãos, mortos. Havia um cheiro na casa, um cheiro que jamais conseguiria esquecer, prova de que muitos deles estavam mortos há vários dias. A ordem exacta em que tinham perecido não seria capaz de precisar. Talvez a primeira a sucumbir tivesse sido a mãe, porque, disso lembrava-se, tinha adoecido mais cedo. O único sobrevivente, daquela casa, daquela aldeia, de toda a região, tinha sido ele. Das vilas em redor, depois da mortandade, não restava sequer o nome. Mas Rurik nada disso suspeitava ainda, ignorante de como a morte o rodeava por aqueles campos fora. No seu terror de menino desamparado e entregue a si próprio, tomou nos braços o corpo da irmãzinha que amava e não a largou, sem saber o que fazer nem para onde ir, e continuava a cantar-lhe canções de embalar como se ela apenas dormisse, já as moscas tinham tomado a casa para seu repasto. Mais dias passaram até ouvir vozes de homens, vozes desconhecidas, de forasteiros, que falavam em pegar fogo ao casebre. Rurik não queria sair e abandonar a sua família. Mal acreditava que a tinha perdido. Ficou dentro de casa, escondido e calado, até o fogo subir pelas paredes. Só então, apavorado, escapou por uma pequena janela, ainda com a sua irmãzinha ao colo. Ao verem aquele milagre os homens benzeram-se e mandaram-no largar a criança e ir até eles, e muitos taparam a cara com um pano temendo o contágio. Rurik percebeu quem eram aqueles homens e porque queimavam a sua casa. Para que não se propagasse a doença. Enviados ali, aqueles homens, para dar fim aos mortos. Como a sua família, todos mortos, mas ele não. Não tinha alternativa, se queria juntar-se de novo aos vivos, senão restituir àquele túmulo a sua irmã preferida. Rurik não sabia se queria juntar-se de novo aos vivos, mas beijou o rosto cinzento da sua irmã pequenina, e largou o seu corpinho para dentro das chamas. Como um pequeno fardo de palha, ela caiu, e o fogo devorou-lhe os cabelos. Rurik não viu mais, porque desviou os olhos.




Próximo excerto
 


quinta-feira, 22 de março de 2018

Nepenthos - Capítulo VII (excerto)

Já publicado
Capítulo I - primeira parte
Capítulo II - primeira parte
Capítulo II - segunda parte
Capítulo III - primeira parte
Capítulo III - segunda parte
Capítulo IV (excerto)

 Onde a morte enchia de frutos o seu cesto ávido


Eric regressava a casa depois da visita a um nobre com quem mantinha proveitosos negócios, muito a norte do reino. Tão a norte que as altas montanhas dos seus domínios se sentiriam ofuscadas por aquelas irmãs mais poderosas, toda uma cordilheira negra e majestosa, tão bela de verão quanto terrível de inverno, mas revestida de tons vermelhos e dourados agora que coberta de outono.
(…)
Aproximava-se a bifurcação na estrada de onde se seguia para a mina de trabalhos forçados, não muito longe dali, e surpreendendo a sua escolta Eric pediu que alterassem o trajecto nessa direcção.
O desvio no caminho, íngreme e rochoso, conduzia directamente até uma cova nas montanhas onde os condenados extraíam precioso minério das férteis minas e partiam pedra para todos os cantos do império. Assim, visto de cima, aquele lugar de suplício parecia um pedaço do inferno. Devido à inclinação das ravinas raramente o sol ali pousava de inverno, mas de verão devia escaldar durante todo o dia. Guardas com chicotes certificavam-se de que os condenados faziam o seu trabalho. Os mais fortes, ou os que tinham chegado há pouco tempo, caminhavam acorrentados. Aos outros já não restava força para fugir e muito provavelmente acabariam ali a sua vida, naquele castigo derradeiro onde a morte enchia de frutos o seu cesto ávido. Mas os condenados não paravam de chegar, e as minas e a pedreira não paravam de produzir as suas riquezas. Por um que morresse, vinham logo dois para o seu lugar sem que a ração fosse duplicada. Ali terminavam a maior parte dos condenados a quem não fora sentenciada a forca. Muitos, sabia Eric, estavam inocentes. Conhecia aquele poço de tortura há vários anos, desde o tempo da guerra, e o seu maior beneficiário, o duque deVerna, senhor daqueles domínios, há período idêntico. Um homem execrável, aquele, mas poderoso, graças ao manancial daquelas jazidas, a quem pouco importava fazer justiça desde que não lhe faltassem escravos que escavassem a sua fortuna. Eric sabia disso, e desagradava-lhe, mas o nobre era também um estratégico aliado e nada lhe convinha ainda pô-lo na ordem. O tempo chegaria, e Eric seria implacável, mas por agora era preciso fechar os olhos a pormenores de menos importância.
Continuava a ser útil, aquela aliança, forjada do mútuo interesse, nos dias incertos em que o jovem soberano necessitava de mercenários e armas na mesma medida em que o velho nobre abominava o arrastar do conflito que lhe ameaçava o negócio. Ao visitar aqueles domínios, desde esse primeiro voto de lealdade, Eric comprometia-se na tácita aprovação que astutamente deVerna pretendia garantir. E que o futuro imperador teve de conceder. Também aquele era um negócio, e Eric não esperava melhor da exibição de justiça que tinha sido preparada para os seus olhos. DeVerna gostava de lhe chamar clemência, não mandando para a forca insignificantes ladrões e outros transgressores de mísero delito. Antes se devia pô-los a trabalhar, nas minas, onde eram úteis a todo o reino. O duque não disse como fazia questão de ir comprá-los, sobretudo os jovens e saudáveis, a qualquer nobreza que dispensasse de bom grado o incómodo de lidar com os criminosos. Só naquele dia, Eric assistiu enquanto dezenas eram condenados às minas. Alguns, os piores, livravam-se de sentença mais dura, mas muitos daqueles homens não mereciam tamanho castigo.
Eric nunca se esqueceu de um deles. Um jovem servo, acusado de roubar um candelabro de prata da casa dos seus senhores. O pobre rapaz jurava que era inocente, que nem sabia que destino dar a um candelabro de prata, que se fosse mesmo ladrão não fazia sentido ter-se limitado a furtar um único castiçal depois de anos de trabalho honesto. Tinha sido criado naquela casa, onde depositava todas as suas perspectivas futuras, inestimáveis, que estaria a trocar por tão desprezível lucro. Ao imperador, pelo menos, conseguiu convencer de que era um rapaz esperto e que sabia argumentar com racionalidade, mas valeu mais a palavra do filho do amo, que o acusava. Eric suspeitou que seria mais provável ter sido ele próprio a oferecer o candelabro a qualquer rapariga da aldeia no intuito de a seduzir. O infeliz servo, porém, desacreditado aos olhos do seu senhor, foi de facto condenado aos trabalhos forçados.
Eric perguntava-se se tinha sobrevivido, e indagou por ele ao capataz. Este, um antigo veterano que tinha lutado pelo exército do imperador, reconheceu-o, e respeitosamente dobrou-se numa vénia.
– Rurik, diz o meu senhor? Acho que sim, que vive. Acho até que o conheço. Se me dá licença… – o homem afastou-se para gritar algumas ordens, e depressa trouxeram à sua presença um condenado em farrapos. De barbas desgrenhadas, com os longos cabelos cobertos de poeira, quase parecia um ancião embora não pudesse ter mais de vinte e cinco anos. Eric achou-o tão magro e abatido que era de surpreender que ainda vivesse de todo. Lembrava-se dele na plenitude da mocidade, um jovem rosado a debater-se entre os guardas que o levavam para o calabouço, clamando inocência. Já nessa altura não era grandemente encorpado, mas pelo menos provava-se rijo e saudável, ou tê-lo-ia sido, durante sete anos, para resistir tanto tempo.
A pedido do imperador, o capataz deixou-os sozinhos. Fraco como estava, o condenado não era ameaça mesmo se tentasse qualquer golpe desesperado e contrário ao seu feitio.
O que de modo algum parecia ser a intenção. Rurik, o condenado, limitava-se a tapar os olhos com uma mão encardida. Até a cinzenta luminosidade daquela tarde de outono os feria, de tão habituado à escuridão das minas. Encandeado, tentava perceber quem era aquele nobre que tinha chamado por ele. Não o conhecia de lado nenhum e não lhe parecia que fosse coisa boa. Talvez acabasse mesmo enforcado por causa de um candelabro que nunca tinha visto.




Próximo excerto

 

Nepenthos - Capítulo IV (excerto)

Já publicado
Capítulo I - primeira parte
Capítulo II - primeira parte
Capítulo II - segunda parte
Capítulo III - primeira parte
Capítulo III - segunda parte


Desde que o futuro se apresentara demasiado medonho para o contemplar



Reena tinha pensado, ao chegar àquele castelo, ao ver o portão e os guardas, que ia ser um cativeiro igual aos outros. Agora já não lhe parecia sequer um cativeiro. O portão, durante o dia, estava sempre aberto para que a gente da vila pudesse entrar e sair. Dois guardas a cavalo, às vezes três, revezavam-se à entrada. Mais guardas, alguns à vista outros ocultos, vigiavam todo o domínio real. A princípio Reena tinha-os temido, mas com o passar dos meses apercebia-se de que não lhe dirigiam as intenções que receara. Mal a olhavam, atentos à sua missão de proteger a propriedade do imperador. Era assim que a encaravam também, propriedade do imperador. Nem mais, nem menos.
Há tempo que Eric se tinha ausentado, como Reena ouvira dos homens da sua escolta, e não se sabia quando voltaria. Não havia muito trabalho quando ele viajava, talvez por isso os criados gostassem tanto das suas ausências. Passavam o dia na cozinha, a tagarelar com a gente da vila, e o assunto predilecto era aquela espécie de criada a fingir que Eric tinha trazido para o castelo. Uma desprezível rameira que tinha aparecido na taberna! Reena escutava-os, e evitava-os. Tinham-se tornado tão cortantes, as troças e os insultos, que agora começava a fitar longamente o portão aberto. Já não era a primeira vez que pensava no que aconteceria se se atrevesse a cruzá-lo. Fê-lo naquela tarde, como se o ódio que ouvia atrás de si a empurrasse para fora. Pelo menos ficaria a saber o que aconteceria. Os guardas, à conversa um com o outro, nem pestanejaram. Nem sequer lhe perguntaram onde ia. Era tão estranho, sair sem que ninguém a impedisse. Reena não tinha imaginado que ia ter tanta liberdade.
Não tencionava ir muito longe, queria apenas fugir dos criados e dos ajudantes da vila. Distraiu-se a dar a volta ao muro do castelo, mais extenso do que tinha previsto. Estava frio lá fora, e a neve tudo cobria com o seu manto branco, mas Reena descobriu restos da antiga muralha, e árvores de troncos negros e ramos carregados de pingos de gelo, cintilantes, caprichosos, frios ao toque mas agradáveis à vista. A paisagem era de montanha, como nunca tinha contemplado, e ao longe vislumbravam-se os elevados cumes, alvos e azulados num horizonte de resplandecente cinzento, que defendiam o castelo a norte. Nessa direcção, uma estreita vereda desaparecia entre as árvores mais à frente. Reena ponderou o perigo de se aventurar por ela. Temia, também, a maldade de tantos homens que a tinham usado na taberna da vila. Parecia-lhe um caminho deserto e sossegado, pelo menos naquela altura do ano. E se se cruzasse com alguém, e se precisasse de ajuda, não a protegeriam os guardas se os chamasse? E se não a protegessem? E importava?
No dia seguinte, Reena apressou-se a terminar as suas tarefas e saiu. Levava um xaile, desta vez, e a intenção de se embrenhar pelo caminho até se cansar, ou que fossem horas de regressar. Pelo menos assim evitaria os criados. E a paisagem… Como era bonita aquela paisagem, e silenciosa e tranquila, onde apenas os pássaros e pequenos animais a espreitavam timidamente de suas tocas. Entrava-lhe pelos olhos, a beleza invernal, e Reena deu por si a sorrir como já não sorria há muitos anos. Também há muitos anos não lhe era permitido passear assim, talvez nunca lho tivesse sido permitido, sem que ninguém lhe perguntasse para onde ia e de onde vinha e sem ser esperada no regresso com censuras ou castigos. Reena tornou a sair, muitas vezes, e desvendou um emaranhado de veredas que subiam e desciam, na direcção da montanha ou do vale ou sempre em frente. Se era tão bonito de inverno, como seria na primavera, quando as árvores enfeitassem de folhas os seus ramos e as colinas se cobrissem de flores? E ainda ali estaria, na primavera, para poder deslumbrar-se no renascer da natureza? Agora Reena desejava ainda ali estar, naquele sítio onde podia sair em liberdade. Onde tinha paz.
Todos os dias se aventurava até mais longe. Não temia perder-se, no passo lento a que já se habituara, mas seguia com cuidado e atenção e não arriscava continuar em frente antes de conhecer o caminho de regresso. Tinha tempo, e podia parar e descansar e admirar o que a rodeava. Mas aquelas caminhadas eram cansativas. Reena lembrou-se de apanhar um galho para lhe servir de auxílio e aprendeu a apoiar-se nele a cada passo. Continuava a ser cansativo, embora menos, e a brisa fresca que lhe soprava os cabelos valia o sacrifício. Começava a compreender os caminhos e a adivinhar onde iam dar, e já imaginava que aquela vereda que descia o vale se abeirava da vila. Aproximou-se o suficiente para observar as pessoas à distância, ocupadas nos seus afazeres, comprando e vendendo no mercado, entrando e saindo da pequena igreja de dois torreões e harmoniosos sinos. Aí, Reena voltou para trás e decidiu não avançar mais.
Os piores rigores do inverno já tinham passado quando um modesto mercador de tecidos visitou o castelo. Vinha de longe, do sul, e tinha conseguido aquela comissão do próprio imperador devido à qualidade dos artigos com que anualmente abastecia o castelo. Reena espantou-se, ao apreciar a suavidade das lãs e a frescura dos linhos, que se destinassem ao uso da casa e às roupas dos criados. O imperador, para as suas vestes, comprava longe e comprava caro, mas preocupava-se com o conforto dos seus servidores. Reena até hesitava em escolher tecidos para si, para o verão. Ainda ali estaria no verão? Passou-lhe pela cabeça, nesse momento, que se não estivesse ela poderia estar outra rapariga em semelhantes circunstâncias, que igualmente se maravilhasse com uma arca cheia de boas roupas, e não hesitou mais.
Reena tinha descoberto outros tesouros abandonados em arcas poeirentas e esquecidas. Numa delas encontrou teares e agulhas, e até linhas de bordar. Ninguém demonstrava interesse naquelas coisas, nem se importavam que as usasse. Reena achava-as inestimáveis, e ao serão, na solidão do seu quarto, dedicava-se a coser e a bordar os vestidos novos. Era tão estranho voltar a bordar, como fazia na casa em que crescera sob o olhar benévolo da sua primeira senhora. Às vezes parecia-lhe que aquela também era, como a outra, uma casa em que nada lhe faltava. Nem a verdade. Pois ali, ao contrário desse primeiro lar, ninguém a enganava, ninguém a iludia, ninguém lhe escondia o preço daquele conforto. Reena começava a considerar que talvez não fosse um preço excessivo para alguém como ela, que não podia aspirar a muito mais. E um dia, sonhava, se aqueles nobres se esquecessem dela, porque um dia ia envelhecer e perderia qualquer vestígio de formas aprazíveis, talvez nesse dia ali tivesse um lar, para sempre, naquele sossego. Naquele sossego de um túmulo.
Há muito tempo que Reena não contemplava o seu futuro, desde que o futuro se apresentara demasiado medonho para o contemplar. Mas agora dava por si a recordar-se, naquelas solitárias caminhadas entre a floresta adormecida debaixo da neve, que um dia tivera sonhos, tantos sonhos, quando era nova e inocente.
Regressava ao castelo, depois de um daqueles passeios em liberdade, e cansada sentou-se nas ruínas da muralha. Não tinha sonhado, jamais, que o melhor que lhe podia acontecer era envelhecer e murchar, e dar-se por contente que lhe permitissem aquele lar triste e silencioso, invisível no seu canto, à espera que se esquecessem da sua existência. Lágrimas molharam-lhe o rosto, e desta vez Reena soluçou em voz alta porque ninguém a ouviria. Era aquele o melhor futuro que podia ambicionar? Quando tinha tido sonhos, tantos sonhos. Sonhos que não queria recordar para não sofrer mais.




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Nepenthos - Capítulo III - segunda parte

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Capítulo I - primeira parte
Capítulo II - primeira parte
Capítulo II - segunda parte
Capítulo III - primeira parte



Aquela era a sua única, a sua última oportunidade.



Durante dias, Reena sentiu-se como alguém errando num sonho, incompreensível, interminável, em que todas as noites adormecia e todas as manhãs acordava na perplexidade de que nada lhe tinha acontecido. Observava os criados, atentamente, pela verdade. Ensinava-lhe a experiência que se a aguardassem os terrores que suspeitava, eles saberiam. Mas nada lhes via que tal revelasse. Pelo contrário, não escondiam a indignação por terem de suportar aquela criatura ignóbil debaixo do mesmo tecto, convencidos de que ela tinha chegado para ficar. Para ficar, pensava Reena, e animava-se. Se terrores havia, não se passavam dentro daquelas paredes. Os criados, pelo menos, nem os imaginavam. Preocupavam-nos apenas as faltas na despensa, a lenha bastante no fogão, a roupa suja a separar para as lavadeiras. O castelo tinha uma rotina sossegada, nem se diria a morada de tão importante soberano. Reena ouvia, em pedaços de conversas, que nem sempre era assim, que Eric detestava visitas e que o seu feitio piorava nessas alturas, irascível e exigente. Felizmente, ausentava-se por longas temporadas. Mas quando estava em casa não era amo fácil de satisfazer, e que Reena não pensasse, por ser incumbida das tarefas de pouca importância, que se podia dar ao luxo de ser negligente. Não queria ver aquele homem irritado! Reena admirava-se de não o ver de todo, nem aos amigos a quem era suposto servir. Ter-se-ia mesmo o imperador dado ao trabalho de a ir buscar pessoalmente àquela taberna para ser naquela casa a rapariga que acendia velas e lavava a mesa da cozinha?
Como Reena desejaria ser apenas essa rapariga. Há quanto tempo não o era. Nem se importaria do desprezo, se apenas a deixassem em paz. Todos os dias chegava gente da vila, camponeses e vendedores do mercado que abasteciam o castelo ou prestavam o tributo do seu trabalho. Chegavam e troçavam dela, e traziam histórias de quem ela era e do que fazia na taberna, e os criados odiavam-na cada vez mais. Agora já nem disfarçavam, e já não era nas suas costas que lhe chamavam “rameira”.
Reena perguntava-se porque insistiam em insultá-la. Já deviam ter percebido que estava tão habituada à vergonha que meras palavras quase nada custavam suportar. O que pensariam dela, para a odiarem tanto? Poderiam sequer conceber a verdade, aquelas pessoas que não tinham sofrido o que ela tinha sofrido? Talvez nem acreditassem se lhes contasse. Reena poupava-lhes a sua presença, trocando com eles apenas as palavras necessárias e isolando-se nas suas tarefas. Sempre que podia, escapava-se para o seu quartinho à hora do pôr-do-sol. Era outono, e os dias cada vez mais curtos e apagados, mas a luz dourada ainda enchia aquele quarto, e Reena sentava-se e contemplava-a e acalmava-se na paz que a invadia. Se fosse só assim, talvez houvesse esperança. Talvez lhes provasse que só desejava um sítio decente onde viver. Que o que lhes tinham contado não tinha sido de sua vontade. Talvez pudesse revelar-lhes… Mas era muito cedo, não a quereriam ouvir. Talvez com o tempo, quando percebessem como estava disposta a ser prestável. Pelo menos já todos sabiam que lhes obedecia sem se esquivar ao trabalho, e começavam a habituar-se a mandá-la fazer o que lhes desagradava. Talvez assim, pela solicitude, começassem a vê-la com outros olhos.
– Vai levar o vinho ao senhor Eric. – disse-lhe a criada mais nova nessa noite em que não lhe apetecia ser ela a cumprir o ritual, uma taça de vinho a horas tardias que Eric apreciava bastante. Ao que parecia, não dormia sem ela.
Nunca Reena se atemorizara perante uma tarefa, mas desta vez, ao pegar na bandeja com a taça, sentiu-se estremecer por dentro. A rapariga devia achar que o encargo era tão simples que lho podia confiar, mas Reena nem sabia onde estava o imperador. Não se atrevia a entrar onde não fosse autorizada, e só conhecia do castelo a cozinha e os corredores que levavam ao seu quarto. Mas nada disse ou perguntou, antes voltou as costas para que ninguém se apercebesse da sua atrapalhação e saiu da cozinha como se soubesse para onde ia. A última coisa que desejava era que a julgassem uma tonta que nem se conseguia orientar, e que o relatassem ao dono da casa.
Tinha ouvido falar do salão, onde os nobres se reuniam com o imperador ao serão quando havia visitas. Reena encaminhou-se nessa direcção, guiada pelas poucas lamparinas, e suspirou ao perceber que se tinha enganado. No salão, obscurecido, não se demorou sequer para o contemplar duas vezes. Devia ter calculado, pela falta de archotes acesos, que o imperador se encontraria nos seus aposentos, algures nos andares de cima, onde nunca tinha ido. Agora estava perdida e já não sabia para que lado ficava a recôndita escada de serventia. Oh, que ninguém se cruzasse com ela, perdida e às voltas e à procura! Julgou-o um alívio, deparar-se com a série de degraus que serpenteavam em caracol até ao piso superior. Quando os observou melhor, à escassa luz, suspirou de novo e olhou a bandeja que lhe tremia nas mãos. Como eram altos e íngremes aqueles degraus. Um véu de lágrimas turvou-lhe os olhos. Tudo era tão difícil agora. Quem aceitaria na sua casa tão incompetente criada? Aquela era a sua única, a sua última oportunidade.
Reena respirou fundo, e apertou com força a bandeja contra o peito. Apoiou a mão esquerda na parede e começou a subir cautelosamente, receosa de entornar aquele vinho como se a sua vida dependesse disso. A sua vida dependia disso.



(Fim da sequência)
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Nepenthos - Capítulo III - primeira parte

Já publicado
Capítulo I - primeira parte


Se me quiserem fazer mal, não vai ser esta chave a impedi-los de arrombar a porta.



O castelo parecia ainda mais majestoso quando a carruagem se aproximou. Reena olhava, e tentava calar a esperança. Podia ser verdade? Podia aquele ser um lar, o seu lar? Tinha sonhado com um lar, um sonho tão vago e distante como se tornara esse ansiado abrigo, mas tinha-o sonhado pequeno e modesto, nunca na grandeza daquele castelo que se lhe apresentava perante os olhos. A carruagem cruzou o portão, pesado e largo, e parou no pátio interior. Intimidada, Reena contemplou a imponência das torres de pedra cinzenta ao luar, antigas como a dinastia real que nelas estabelecera residência durante séculos. Dentro do castelo não havia guardas, nem sequer nos lugares de vigia onde outrora os sentinelas teriam patrulhado as ameias. Essa ausência Reena não estranhou, depois do que vira, em todo o redor, os archotes dos soldados que protegiam o castelo e a vila. Lamentava agora não se conseguir recordar de tudo o que ouvira do imperador, longe de imaginar que um dia o viesse a conhecer e muito menos servi-lo no seu castelo. Podia ser verdade? Ser-lhe permitido ficar naquela casa nobre e importante, como criada, exercendo um trabalho digno?
Eric saiu da carruagem e apressou-se a dar instruções a um dos seus homens. Depois subiu os degraus da porta principal e desapareceu, e Reena não o tornou a ver nessa noite.
O guarda, investido dessa missão, guiou-a até uma porta mais pequena e lateral, que dava para a cozinha, e apresentou-a aos criados. Reena estava ali para partilhar as tarefas que não fossem demasiado pesadas. Deviam acomodá-la e incluí-la na rotina da casa. Eram essas as ordens do imperador. Cumprida a incumbência, o guarda retirou-se para outros deveres e deixou-a sozinha com os cinco serviçais que desconfiados a olhavam de alto a baixo.
Era hora da ceia e deixaram-na sentar-se à mesa e comer com eles. A velha cozinheira, uma criada mais nova e três homens fortes que se ocupavam da lenha e dos cavalos. Mas não sem lhe perguntarem de onde vinha. Assim que souberam, todos se empertigaram e trocaram olhares de pasmo e desdém. A criada mais nova fitava-a com repulsa como se tivesse peste que se pegasse. Os criados riam-se entre eles. A velha cozinheira, furiosa porque o imperador tinha levado para dentro daquelas paredes uma mulher da vida, mandou-a fazer a cama no outro lado do castelo para não se misturar com as pessoas honradas.
Nada daquilo foi estranho para Reena. Já não era o primeiro lugar onde até os criados a consideravam inferior. E se os criados a tratavam assim, o que não pensariam dela os nobres?
Embora advertida de que na manhã seguinte deveria procurar aposentos mais distantes, nessa primeira noite destinaram-lhe uma divisão perto da cozinha. Reena aceitou com agrado aquele quartinho improvisado, onde existia uma cama de verdade e cobertas limpas. Por uma noite, pelo menos, podia dormir em paz. Se os olhos não lhe teimassem em manter-se abertos no escuro. Não se esquecia daquela história de uma pobre rapariga apanhada por certos fidalgos na calada da noite, e encontrada degolada ao alvorecer, abandonada na floresta e com as vestes rasgadas. Estaria ali para morrer? Seria toda aquela recepção uma armadilha para a manterem iludida e dócil, confiante de que ocuparia uma posição de criada igual às outras? Os serviçais que residiam no castelo eram poucos. Muitos outros moravam na vila e só chegavam de manhã, quando eram necessários. Mas não passavam lá a noite. Bastavam aqueles para suprir as tarefas nocturnas, explicavam-lhe. Reena pensava antes que se lhe estivesse reservado um destino sangrento não haveria muitas testemunhas que o presenciassem. E ninguém no mundo daria pela sua falta.
Era como num pesadelo, ou num sonho, que no dia seguinte Reena se aventurava pela ala mais afastada do castelo à procura de um quarto. Encontrou vários, desocupados e poeirentos, as camas despidas e as mobílias arrumadas aos cantos por único indício de que em tempos também teriam servido de aposentos à gente do castelo. Reena gostou de um deles. Era mais estreito do que os outros, e parte da parede exterior devia ficar abaixo do solo, mas Reena ponderou que assim seria quente de inverno e fresco de verão. Se fosse para durar, aquela incerta estadia. A cama permanecia encostada à parede oposta, e era de excelente madeira, sólida e polida. Quem ocupara aquele quarto tivera bastante mobília à disposição, pois nem faltava um banco e uma mesinha, e uma arca onde guardar os seus pertences. Se os viesse a ter. Havia até uma pequena janela, quase uma fresta e quase no tecto, mas suficiente para que entrassem por ela os últimos raios de sol ao entardecer e os primeiros ao alvorecer, e todo aquele quarto se encheria de luz dourada. Reena sentou-se na cama por fazer, e tão depressa sorriu como sentiu os lábios molhados de lágrimas salgadas. Talvez não fosse para durar. Sim, era acolhedor e agradável, mas talvez fosse curta a estadia. Talvez fosse aquilo o desespero, porque havia tantas coisas que temia mais do que a morte.
Reena levantou-se e limpou as lágrimas, e de propósito travou essas ideias na consoladora intenção de abrir a arca e desvendar o que continha. O que encontrou surpreendeu-a. Roupas boas e bonitas, de homem e mulher. Talvez tivesse morado ali um casal, em tempos? Eram brancas as camisas de linho e quentes e macios os vestidos de lã. Os sapatos, de bom couro, protegiam da chuva e da neve. Mas a mais espantosa descoberta, entre vestes e mantas, foi um belo e pequeno espelho. O metal que o emoldurava e que lhe servia de pega, tão habilmente talhado pela maestria de um destro artesão, assemelhava-se à prata, mas Reena não acreditava que o fosse. Nem acreditava que tudo aquilo não tivesse dono. Certamente mexia no que não devia e apressou-se a colocar as coisas como estavam e a fechar a arca.
Perguntou às criadas pelo quarto e pelas roupas, e a velha cozinheira respondeu-lhe rispidamente que podia ficar lá e com o que lá estava, que era um sítio bem afastado, e que se livrasse dos trapos miseráveis que a cobriam. Reena atreveu-se a insistir se não pertenceriam a alguém, mas nenhuma das mulheres queria falar com ela e novamente a cozinheira a interrompeu, com grande irritação, que eram coisas dos antigos criados da rainha, que tinham partido há muitos anos, e que se preocupasse antes em pôr-se apresentável porque parecia uma rameira. Reena não fez mais perguntas nem tornou a tentar dirigir-lhes a palavra. Sabia o que se passava. Detestavam-na, e à sua presença. Pouco importava que roupa vestisse. Nada viam senão a sua desonra.
Mas deram-lhe um avental, e uma touca como a delas, e quando Reena voltou à cozinha, assim arranjada como uma criada, as duas mulheres não contiveram o riso. A mais velha mandou-a polir os tachos e ainda se riu mais. Reena sentou-se perto dos utensílios e começou o seu trabalho sem perceber o motivo da galhofa. Logo compreendeu, quando ambas a olharam, pasmadas, como se não acreditassem que soubesse o que fazer. Depois viraram-lhe as costas, despeitadas, e continuaram a murmurar entre elas e a deitar-lhe esgares de tanta aversão que Reena se perguntou se não devia antes ir trabalhar para o pátio. Mas não o fez. Junto das outras mulheres estaria mais segura, se é que podia sentir-se segura.
Os homens do castelo, rudes e grosseiros como os seus conterrâneos da vila, portavam-se ainda pior nas costas das criadas e escarneciam sugestivamente. Quando chegou a hora da refeição, Reena não teve coragem de se sentar com eles. A cozinha era grande, podia comer noutro lugar, ou antes ou depois. Podia até não comer, porque não tinha apetite. Não eram as troças dos criados o que a afligia, nem nada a que não estivesse habituada. Era o cair da noite o que temia.
Admirava-se que lhe permitissem retirar-se para o seu quartinho, sem que ninguém a incomodasse. Isso é que era novo, e invulgar, e assustava-a. Pensou em fechar a porta, quando reparou com atenção no pormenor que durante o dia não lhe tinha parecido importante. A porta não tinha uma tranca como nos outros aposentos. Tinha uma fechadura, e a fechadura tinha uma chave, grande e antiga e gasta pelos anos. Noutros tempos, em época talvez anterior às modestas mobílias dos criados ausentes, aquele lugar não tinha servido como quarto de dormir. Seria talvez um cofre, onde se guardavam valores ou armas. Ou uma masmorra onde se encerravam prisioneiros. A pequena janela era demasiado estreita para que fugissem por ela. Reena não tinha ponderado a origem da chave ao escolher aquele quarto, mas ponderava agora. E o mais estranho é que a tinham deixado escolher, e que a chave se encontrava à sua disposição para que se fechasse por dentro. E adiantaria, qualquer fechadura, isolada como estava? Não a teriam mandado para ali de propósito, para não verem nem ouvirem? Não seria a primeira vez e Reena não poderia dizer que não conhecia o estratagema. O que desconhecia, o que a aterrorizava, era o objectivo. Deteve-se, paralisada, nos seus trajes de criada, com a pesada chave na mão, a perguntar-se o significado de tudo aquilo. Julgariam que a conseguiam iludir? E que era necessário? Não saberiam que era como aqueles prisioneiros para quem não existia fuga? Se me quiserem fazer mal, não vai ser esta chave a impedi-los de arrombar a porta, concluiu, e não se deu ao trabalho de a trancar.
Seria enfim a morte a visitá-la nessa noite? Reena pensou na taberna, e nos sítios anteriores, e lembrou-se de que não tinha sido outro o engodo a convencê-la a caminhar até ali de livre vontade. Temia a dor e o sofrimento, mas não lamentava o fim. Libertou-se da touca e do vestido, e deitou-se na cama e apagou a única vela. Havia luar, e não se atrevia a fechar os olhos. Porque esperavam? De que esperavam? Que nova e desconhecida tormenta entraria por aquela porta? Reena não queria ter medo, dizia a si própria que estava farta de ter medo, mas chegou-se contra a parede e fitou a porta.
A luz rosada do amanhecer já inundava o quarto quando acordou. Tinha esperado, mas nada tinha entrado pela porta e o cansaço tinha-a vencido. Seria verdade, então? Seria uma criada, apenas uma criada?



Nepenthos - Capítulo II - segunda parte

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Capítulo I - primeira parte



Devia ser aquilo, o desespero, quando a morte, qualquer morte, lhe servia de maior engodo do que a esperança.



Reena admirava-se apenas do tom honesto naquela insistência. Como se alguma vez pudesse recusar. Se era vontade do imperador levá-la para os seus amigos, levá-la-ia. Porque haveria ele de mentir com benévolas promessas? A sua vida já nada valia, nem para o homem que a tinha comprado e que a dispensava de graça. Esperaria mesmo uma resposta, o imperador, se não havia o que responder? Reena baixou os olhos e apertou as mãos uma na outra, e naquele instante lembrou-se de que talvez devesse começar a rezar pela absolvição da sua alma.
Longe de adivinhar a angústia daquele silêncio, Eric estranhava que a rapariga nada dissesse. Seria por isso que o taberneiro se mostrava tão aberto a livrar-se dela? Estaria ali uma imbecil, incapaz de juntar duas palavras? Ou, pelo contrário, achar-se-ia ofendida, aquela criatura insignificante? Ambas as possibilidades lhe desagradavam e a paciência tinha-se-lhe esgotado.
– Bem, se não queres, ver-te-ei por aí. – encolheu os ombros, indiferente, e virou-se para se ir embora.
Reena levantou a cabeça, os olhos abertos de assombro. Não julgava que era uma escolha. Ele ia-se embora? Despedia-se e ia-se embora, sem a obrigar a ir também, porque tinha dito a verdade e não a queria levar contra a sua vontade? E se tinha dito a verdade, não poderia haver igualmente verdade no que oferecia?
– Sim, meu senhor, sim, eu vou. – Eric ouviu atrás de si, numa voz baixa e trémula como se Reena já não estivesse habituada a falar com ninguém há muito tempo. Voltou-se para ela, e viu que se tinha sentado direita, interessada. Não era nenhuma imbecil nem se achava mais importante do que era. Sempre tinha sido uma boa ideia, afinal. Pelo menos a rapariga não passaria privações e não dormiria na palha como um animal, e quanto a si próprio ficaria livre daquela indisposição desagradável que o incomodava há dias. Com um aceno de cabeça, indicou-lhe que o seguisse.
E se não houvesse verdade no que ele dizia, Reena hesitava, e se aquela condescendência fosse um engodo com que a atraía à armadilha? Havia desses, também. Mas que diferença faria, se fosse um engodo? Nem sabia se aceitava por acreditar no que lhe era prometido, ou se na esperança de que aqueles nobres fizessem o que não tinha coragem de fazer a si própria. Sabia somente, com absoluta certeza, que tudo seria preferível a ficar ali. Tentou levantar-se depressa para o seguir, como se já temesse que a deixasse para trás. Demasiado depressa. Num passo precipitado, a perna doente falhou-lhe e caiu desastradamente sobre a palha. A vergonha empalideceu-lhe as faces. Às vezes ainda se esquecia de que era agora outra a sua condição, de que já não era a rapariguinha de antes que se atrevia a correr e fugir. Contendo as lágrimas, ergueu a mão para a parede onde tinha aprendido a apoiar-se. O que pensaria dela aquele homem, vendo a inutilidade em que se tinha tornado? O que pensaria o senhor de qualquer casa onde fosse oferecer o seu trabalho, se por milagre tal liberdade lhe fosse concedida?
Tentava ainda levantar-se, esforçando-se por não parecer uma incapaz, quando o imperador lhe pegou no braço e a pôs de pé. Reena não esperava tal auxílio de alguém tão superior à sua posição. Mas se ele tinha agido por bondade ou impaciência, não chegou a perceber. Antes que pudesse agradecer, Eric já se afastava pelo corredor, e seria melhor não deduzir esperanças infundadas.
Seguiu-lhe os passos, que nunca conseguiria acompanhar, mas entrou no salão a tempo de o ver tirar do bolso duas moedas cintilantes que colocou sobre a mesa, frente ao taberneiro que sempre a tinha tratado como um mau negócio. Duas moedas. Então era isso o que valia a sua vida.
Se mais lágrimas ameaçassem demorá-la, Reena não teve tempo de as chorar. Ao vê-la aparecer, Eric tornou a acenar-lhe para que o seguisse, afinal cheio de pressa como dele tinha adivinhado, e saiu porta fora com o semblante absorto de quem já pensava noutros assuntos. Reena deitou um último olhar ao dono do estabelecimento, até há poucos momentos o amo do seu destino. De costas voltadas para ela, à luz de uma lamparina, este inspeccionava as moedas e admirava-lhes a cunhagem com o brasão do Urso que representava a dinastia real. Reena constatou que a sua pessoa já não lhe suscitava qualquer interesse e concluiu que a transacção estava fechada. Já não era à taberna que pertencia. O seu futuro aguardava-a lá fora, às mãos de um homem poderoso que a tinha comprado por duas moedas, o insignificante preço da sua vida, para suprir divertimentos, talvez, que significassem a sua morte, e nem mesmo assim hesitava em avançar. Devia ser aquilo, o desespero, quando a morte, qualquer morte, lhe servia de maior engodo do que a esperança.
A noite já tinha caído. Pela primeira vez desde que chegara àquela terra, Reena transpôs a porta da taberna e uma aragem fria e outonal soprou-lhe na cara e agitou-lhe os cabelos. Não a achou desagradável, pelo contrário, porque lhe provava na pele que estava realmente a abandonar aquele lugar maldito. Naquele instante de liberdade, entontecedor, nem lhe importava para onde.
O imperador esperava, junto à porta aberta da carruagem, e Reena olhou em volta, confusa, à procura da carroça que a transportasse. Todos os homens da escolta vinham a cavalo, envergando as cores do estandarte do Urso, o negro e o vermelho-escuro, alguns segurando tochas acesas agora que precisariam delas para alumiar a estrada. Mas não havia carroça ou coisa parecida, e subitamente Reena temeu que lhe estivesse reservado segui-los a pé. Segui-los-ia, se conhecesse o caminho, mas nunca tinha saído da taberna e já era noite. Temia perder-se, e que julgassem que fugia. Atreveu-se a olhar para este ou aquele rosto, como se pedisse instruções, e viu neles risos abafados de maliciosa chacota. Podia não os conhecer a eles, mas eles conheciam-na a ela, e Reena baixou a cabeça numa pontada de vergonha. Porque não falavam, porque não lhe diziam o que queriam que fizesse ou para onde devia ir? Não eram eles quem supostamente lhe transmitiria as ordens? De tão desorientada, ergueu os olhos para o imperador, que não tinha nenhuma vontade de rir.
Por esta altura Eric já se encontrava deveras impaciente, perguntando-se porque não percebia ela que estava à espera que entrasse. Vagos, difusos pensamentos de misericórdia devolveram-lhe a paciência. Uma pequena boa acção, que tinha de ser concluída. Para aquela rapariga o olhar teria de ser menos duro, menos frio, mais clemente.
Reena viu aquele olhar e mal conseguiu acreditar que era na carruagem que devia entrar. Em passo hesitante, atreveu-se a avançar. Nunca tinha subido a uma carruagem e estudou o degrau de acesso abaixo da porta de madeira, e procurou onde se agarrar. Tentou primeiro com a perna direita, a que não estava partida. Tudo aquilo era tão difícil para ela, tão difícil. No interior, assentos forrados de tecidos macios e bordados a flores, verdes e vermelhas, quase a detiveram. Como era bonito, à luz das tochas. Como devia ser mais bonito à luz do sol. Era mesmo ali que queriam que entrasse? Sempre era a morte que lhe destinavam, não podia ser outra coisa. Reena pestanejou, como se para acordar de um sonho ou de um pesadelo. Tomou coragem e entrou, e sentou-se ao cantinho oposto à porta.
Eric não a seguiu logo. Voltou-se para os homens da escolta e fulminou-os com um olhar de censura. Não o de um soberano aos seus guardas, mas o de um homem a outros homens a quem lembrava que se metessem na vida deles. O que tinham presenciado nessa noite era privado. Nada que não se entendesse. De sobrolho franzido, subiu para a carruagem e fechou a porta, e os homens entreolharam-se, esclarecidos. Parecia que a rapariga tinha encontrado um protector. Menos risos dali para a frente.
Carruagem e escolta partiram em direcção ao castelo. Reena não sabia a duração da viagem e mantinha-se quieta no seu cantinho, apertando nas mãos a saia do vestido sujo e gasto. Eric tinha-se instalado no assento em frente, o cotovelo apoiado na janela, o queixo pousado na mão fechada. Reena nem tinha coragem de levantar a cabeça. Que ao menos ele não olhasse, que não reparasse naquela presença indigna de tal transporte. Não podia ser assim tão longe, aquele castelo, que essa vergonha não tardasse a acabar.
– O que te aconteceu à perna? – Eric perguntou, e Reena percebeu com novo choque que aquele homem que a levava para um destino incerto também não fazia ideia do que tinha sido a sua vida. Não importava que lhe parecesse gentil. Muitos antes igualmente o tinham parecido, os mesmos que lhe tinham ceifado a esperança tão cedo.
– Eles… Eles bateram-me. Ainda dói muito. – revelou timidamente, e suportou o olhar penetrante que lhe perscrutou os olhos.
Eric não esperava aquela resposta. Não tinha imaginado que a perversidade tivesse chegado tão longe no seu reino, enquanto a guerra entretinha as atenções de quem devia fazer justiça, que uma pobre rapariga fosse espancada até lhe partirem os ossos sem que ninguém se importasse. Reclinou-se para trás, e voltou-se para a paisagem nocturna do arvoredo que ladeava a estrada como se não estivesse interessado em saber mais nada.
Foi o que Reena pensou, que não estava interessado em saber, e nada mais acrescentou. Mas o seu olhar já não se desviou do caminho que discretamente espreitava pela janela. Também ela reparava nas luzes das tochas, longe e perto ao longo da estrada, e à distância nos campos. Guardas, guardas em todo o lado. Reena estava habituada a carcereiros e aos seus chicotes, mas aqueles guardas eram um exército, cada um envergando no cinto uma espada mais longa do que um braço. Então lembrou-se, porque pensava ainda nessas coisas de outrora? Já não havia como fugir. Porque lhe teimavam os pensamentos em escapar-se por essas tolas fantasias de antigamente?