quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

SOLSTÍCIO I



– É aqui, a prima? – perguntou o menino, intrigado, quando a carruagem finalmente parou na última aldeia antes das Terras Verdes. O imperador sorriu-lhe, ao seu pequeno Eric, o "menino príncipe", como lhe chamavam, dois anos e meio e já sabia falar tão bem, e já tão esperto, debruçado da janela à procura como se já adivinhasse a resposta.
– Não, a prima mora mais longe. – Eric confirmou-lhe as suspeitas, e com um sorriso fez-lhe uma festinha nos cabelos loiros. Não era a primeira vez que ali estavam mas o seu filho era demasiado pequeno para se lembrar. Bem, algo devia lembrar, da maneira interessada que inspeccionava aquela pacata aldeia de rudes camponeses, mas devia ser tudo uma névoa na memória de um menino daquela idade.
Eric abriu a porta e saiu da carruagem, e aproveitou para esticar as pernas e o tronco. Os trinta anos já pesavam. Muito pouco, ainda só o suficiente.
O resto da viagem seria feita a cavalo, pela floresta, por atalhos que já ninguém conhecia. Ainda era uma boa distância mas a carruagem e a escolta tinham andado a excelente ritmo e chegariam antes do anoitecer. O céu, carregado, cinzento, não ameaçava chuva. Talvez nevasse, se o frio persistisse. Afinal, era a época do ano para nevar.
O capitão da escolta aproximava-se, trazendo pela rédea o cavalo malhado que levaria o imperador às Terras Verdes. O resto dos homens já se dirigia aos últimos afazeres antes do descanso. O imperador só regressaria daí por alguns dias, teriam descanso de sobra naquela aldeia de nenhures.
– Se me permite... – disse o capitão, olhando em volta para se certificar de que todos os homens já se tinham afastado. Havia uma familiaridade diferente na sua voz, uma familiaridade apenas permitida a um companheiro de armas, a um veterano de guerra que tinha lutado lado a lado do imperador quando ainda era duvidoso que este viesse a conquistar o trono. – Não me agrada a ideia de que vá sozinho às Terras Verdes. Bem sei, bem sei, a sua prima é nossa aliada, e eu também não acredito nessas histórias de bruxaria, isso é para tolos supersticiosos, mas senhor Eric... por uma questão de segurança... – e o homem pousou os olhos no menino, que lhe sorria. O capitão sorriu de volta. – Por uma questão de segurança, eu posso ir consigo...
Eric cruzou os braços, contendo um suspiro, e baixou os olhos para a verdura orvalhada e gélida que estalava sob o peso das suas botas. A sua escolta, os seus homens de confiança, estavam mais do que habituados às extravagâncias por que era conhecido, muitos até já lhes adivinhavam as intenções, mas o tempo das extravagâncias estava também a esgotar-se. Logo depois da guerra, quando tudo era novo e caótico, até as excentricidades tinham feito sentido, mas há dez anos que Eric era o soberano e sabia o que todos esperavam de um soberano. Uma rainha, uma corte, uma mão cheia de príncipes e princesas, herdeiros da coroa. Não um jovem desorientado que partia sozinho com um filho bastardo a visitar uma prima em terras proscritas!
– Lars... – argumentou, olhando o companheiro de armas nos olhos castanhos. Um homem da sua idade, da sua geração. Mais do que um súbdito, um camarada! – Conheces a minha prima. Estiveste lá, naquela madrugada, quando o exército dela apareceu e juntos mudámos o rumo da guerra... A minha prima Hildegaard não é uma traidora nem uma ameaça, e é como parente que a vou visitar para o Solstício, para conversar e descansar, e comer e beber como todas as famílias fazem nesta altura por todo o reino.
– Sem dúvida! – o capitão abanou a cabeça, embaraçado. – Sei que o senhor e a sua prima estiveram afastados durante muitos anos, sei que pretende reaproximar-se, como é natural... Na verdade, senhor Eric... – cada vez menos à vontade, o homem fingiu que ajeitava o cinto de armas, os olhos baixos, a voz mais baixa ainda: – Na verdade, sou eu quem gostaria de visitar as Terras Verdes. Não por mim. É o meu pai... O meu pai é velho, senhor Eric, e já não lhe resta muito tempo. Algo o apoquenta, algo o apoquenta cada vez mais. Há muitos anos, o meu tio desapareceu. O meu tio, irmão dele, irmão mais novo. Foi no tempo da sua mãe, a rainha Elena, quando ela vivia no castelo. Eu era pequeno, devia ter a idade do seu filho, ou menos ainda. Não me lembro do meu tio. Mas ele casou com uma das senhoras do séquito da sua mãe. Uma senhora daqui, das Terras Verdes, da terra da rainha Elena. Quando aquilo aconteceu... O que quer que tenha acontecido que as aias das Terras Verdes foram expulsas da vila real... Bem, o meu tio acompanhou a esposa. O meu pai diz que era intenção dele ir morar com ela nas Terras Verdes. Mas o meu tio daria notícias!... A verdade é que nunca deu, e o meu pai... O meu pai sabe que o fim está perto e apoquenta-o morrer sem saber o que lhe aconteceu. Quer saber o que é feito do irmão, se ainda vive, nas Terras Verdes. Porque o meu pai... O meu pai tem o pressentimento de que o meu tio Reid nunca aqui chegou, que é por isso que nunca deu notícias. Que está morto, algures. Digo-lhe, senhor Eric, o meu pai nunca se angustiou tanto como agora, e quando soube que eu vinha para estas partes... E eu gostaria de dar notícias ao meu pai. De ir às Terras Verdes e perguntar pelo meu tio, pela mulher dele...
– Reid, dizes que é o seu nome? – respondeu Eric, com um aceno e um estreitar de lábios. E olhou melhor as feições do capitão Lars como se quisesse memorizar aqueles olhos escuros e aquele tom de castanho dos cabelos, quase negro, e a forma do queixo e do nariz, caso encontrasse semelhante. – Perguntarei por ele. De certeza que se o teu tio está nas Terras Verdes não deve ser difícil encontrá-lo. Perguntarei, e trar-te-ei notícias. – assegurou, e desviou da testa o cabelo húmido de orvalho. – Mas sabes como é o meu acordo com as Terras Verdes. A minha prima não admite estranhos, e sabes porquê. Lamento, mas o convite só se estende a mim.
– Eu compreendo. – garantiu Lars, erguendo a mão para indicar que não precisava de mais explicações.
– Trarei notícias! – Eric prometeu, convicto, e tomou as rédeas do cavalo. Fazia-se tarde, os dias era cada vez mais curtos, não podia perder tempo.
O capitão afastou-se, inclinando a cabeça numa ligeira vénia, muito mais tranquilo depois daquela promessa. Eric perguntava-se, às vezes, por que razão eram os filhos tão próximos dos seus pais que a angústia de um era a angústia do outro. Um pai às portas da morte e nunca tinha visto aquele homem tão desorientado!... Não, não compreendia, jamais compreenderia. Aquelas eram angústias de quem tinha tido um pai, de quem sabia o que era ter tido um tio, uma família. Eric não sabia. Nem ia às Terras Verdes em busca de descobrir o que jamais saberia, mas de algo mais, algo que conhecia. O amor pela sua prima, conhecia, o amor com que sorriu ao seu filho, conhecia. Aquele amor por um pai, desconhecia. Primeiro, era preciso ter tido um pai. O rei seu pai não tinha sido pai nenhum. Agora Eric sabia, no amor pelo seu filho.
O menino sorria-lhe, impaciente. Eric afastou a sua longa capa com o braço, e pegou-lhe ao colo e montou-o no cavalo. Sem o largar, montou também, e partiram.



Continua...

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