terça-feira, 27 de março de 2018

Nepenthos - Capítulo VIII (excerto)

Já publicado
Capítulo I - primeira parte
Capítulo II - primeira parte
Capítulo II - segunda parte
Capítulo III - primeira parte
Capítulo III - segunda parte
Capítulo IV (excerto)
Capítulo VII (excerto)


Beijou o rosto cinzento da sua irmã pequenina, e largou o seu corpinho para dentro das chamas


Não era vulgar, a história que Rurik tinha para contar. Embora começasse como a de muitas outras famílias pobres, as famílias dos camponeses que trabalhavam aquelas terras, mais a sul, onde tinha nascido. Rurik tivera uma família como essas, camponeses sem nada de seu que viviam num miserável casebre. Sete filhos, dos quais tinha sido o quinto. Agora Rurik sabia que nem todas essas humildes famílias tinham sido abençoados com a verdadeira abundância que havia debaixo do seu tecto: amor, carinho, alegria. Nem a pobreza, nem as privações, nem a dura vida do campo roubavam àquela família a alegria. O pai era brincalhão, a mãe uma doçura, e só o que faltava às vezes era comida suficiente para encher os pratos. Mas partilhavam de bom grado o pouco que tinham, como tinham sido ensinados pelo pai e pela mãe. Porque eram muitos, os irmãos mais velhos iam cuidando dos mais novos. Rurik tinha a seu cargo uma irmãzinha que adorava e um bebé de colo. Foram felizes os tempos com os seus irmãos e irmãs. Até que a terrível peste visitou aquelas terras. Todos na casa ficaram doentes e Rurik não foi excepção. Durante muitos dias permaneceu inconsciente e febril, entre a vida e a morte, sem noção do que se passava à sua volta. Acordou sozinho, naquela manhã silenciosa, milagrosamente recuperado, e encontrou o pai e a mãe na cama, mortos, e todos os seus irmãos, mortos. Havia um cheiro na casa, um cheiro que jamais conseguiria esquecer, prova de que muitos deles estavam mortos há vários dias. A ordem exacta em que tinham perecido não seria capaz de precisar. Talvez a primeira a sucumbir tivesse sido a mãe, porque, disso lembrava-se, tinha adoecido mais cedo. O único sobrevivente, daquela casa, daquela aldeia, de toda a região, tinha sido ele. Das vilas em redor, depois da mortandade, não restava sequer o nome. Mas Rurik nada disso suspeitava ainda, ignorante de como a morte o rodeava por aqueles campos fora. No seu terror de menino desamparado e entregue a si próprio tomou nos braços o corpo da irmãzinha que amava e não a largou, sem saber o que fazer nem para onde ir, e continuava a cantar-lhe canções de embalar como se ela apenas dormisse, já as moscas tinham tomado a casa para seu repasto. Mais dias passaram até ouvir vozes de homens, vozes desconhecidas, de forasteiros, que falavam em pegar fogo ao casebre. Rurik não queria sair e abandonar a sua família. Mal acreditava que a tinha perdido. Ficou dentro de casa, escondido e calado, até o fogo subir pelas paredes. Só então, apavorado, escapou por uma pequena janela, ainda com a sua irmãzinha ao colo. Ao verem aquele milagre os homens benzeram-se e mandaram-no largar a criança e ir até eles, e muitos taparam a cara com um pano temendo o contágio. Rurik percebeu quem eram aqueles homens e porque queimavam a sua casa. Para que não se propagasse a doença. Enviados ali, aqueles homens, para dar fim aos mortos. Como a sua família, todos mortos, mas ele não. Ele não, e não tinha alternativa, se queria juntar-se de novo aos vivos, senão restituir àquele túmulo a sua irmã preferida. Rurik não sabia se queria juntar-se de novo aos vivos, mas beijou o rosto cinzento da sua irmã pequenina, e largou o seu corpinho para dentro das chamas. Como um pequeno fardo de palha, ela caiu, e o fogo devorou-lhe os cabelos. Rurik não viu mais, porque desviou os olhos.




Próximo excerto
 


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