quinta-feira, 22 de março de 2018

Nepenthos - Capítulo III - segunda parte

Capítulo I - primeira parte
Capítulo II - primeira parte
Capítulo II - segunda parte
Capítulo III - primeira parte


Aquela era a sua única, a sua última oportunidade.




A luz rosada do amanhecer já inundava o quarto quando acordou. Tinha esperado, em terror, mas nada tinha entrado pela porta e o cansaço tinha-a vencido. Seria verdade, então? Seria uma criada, apenas uma criada?
Durante dias, Reena sentiu-se como alguém errando num sonho, ou num pesadelo, incompreensível, interminável, em que todas as noites adormecia e todas as manhãs acordava na perplexidade de que nada lhe tinha acontecido. Observava os criados, atentamente, pela verdade. Ensinava-lhe a experiência que se a aguardassem os terrores que suspeitava, eles saberiam. Mas nada lhes via que tal revelasse. Pelo contrário, não escondiam a indignação por terem de suportar aquela criatura ignóbil debaixo do mesmo tecto, convencidos de que ela tinha chegado para ficar. Para ficar!, pensava Reena, e animava-se. Se terrores havia, não se passavam dentro daquelas paredes. Os criados, pelo menos, nem os imaginavam. Preocupavam-nos apenas as faltas na despensa, a lenha bastante no fogão, a roupa suja a separar para as lavadeiras… O castelo tinha uma rotina sossegada, nem se diria a morada de tão importante soberano. Reena ouvia, em pedaços de conversas, que nem sempre era assim, e que Eric detestava visitas e o incómodo de encher a sua casa de gente. Que o seu feitio piorava nessas alturas, irascível e exigente. Felizmente, ausentava-se por longas temporadas. Mas quando estava em casa, como agora, não era amo fácil de satisfazer, e que Reena não pensasse, por ser incumbida das tarefas de pouca importância, que se podia dar ao luxo de ser negligente, porque não queria ver aquele homem irritado! Reena admirava-se de não o ver de todo, nem aos “amigos” a quem era suposto servir. Ter-se-ia mesmo o imperador dado ao trabalho de a ir buscar pessoalmente àquela taberna para ser naquela casa a rapariga que acendia velas e lavava a mesa da cozinha?...
Como Reena desejaria ser apenas essa rapariga. Há quanto tempo não o era, e como lhe agradavam aquelas simples ocupações, por muito inferiores que as considerassem. Nem se importaria do desprezo das criadas e do escárnio dos criados, se apenas a deixassem ficar ali em paz… Todos os dias chegava gente da vila, camponeses e vendedores do mercado que abasteciam o castelo ou prestavam o tributo do seu trabalho. Chegavam e troçavam dela, e traziam histórias de quem ela era e do que fazia na taberna, e os criados do castelo odiavam-na cada vez mais e agora já nem disfarçavam, e já não era nas suas costas que lhe chamavam “rameira”.
Reena sabia que não tinha ali um único amigo, nem se iludia que o viesse a ter, mas perguntava-se porque insistiam em insultá-la se já deviam ter percebido que estava tão habituada ao desprezo e à vergonha que meras palavras de troça quase nada custavam suportar? O que pensariam dela, para a odiarem tanto? Poderiam sequer conceber a verdade, aquelas pessoas que não tinham sofrido o que ela tinha sofrido? Talvez nem acreditassem se lhes contasse. Reena poupava-lhes o embaraço da sua presença, trocando com eles apenas as palavras absolutamente necessárias e isolando-se nas suas tarefas onde não a vissem. Sempre que podia, e que o trabalho lho permitia, escapava-se para o seu quartinho à hora do pôr-do-sol. Era outono, e os dias cada vez mais curtos e apagados, mas a luz dourada ainda enchia aquele quarto e Reena sentava-se e contemplava-a e acalmava-se na paz que a invadia. Se fosse só assim, talvez houvesse esperança. Talvez provasse, com o tempo, até mesmo àquela gente que a desprezava, que só desejava um sítio decente onde viver. Que o que lhes tinham contado não tinha sido de sua vontade. Talvez pudesse revelar-lhes… Mas era muito cedo, não a quereriam ouvir. Talvez com o tempo, quando percebessem como estava disposta a ser útil e prestável e que não teriam dela nenhuma razão de queixa. Pelo menos já todos os criados sabiam que lhes obedecia sem se esquivar ao trabalho, e começavam a habituar-se a mandá-la fazer o que lhes desagradava. Talvez assim, pela solicitude, começassem a vê-la com outros olhos.
– Vai levar o vinho ao senhor Eric! – disse-lhe a criada mais nova nessa noite em que não lhe apetecia ser ela a cumprir o ritual, uma taça de vinho a horas tardias que Eric apreciava bastante. Ao que parecia, não dormia sem ela.
Nunca Reena se atemorizara perante uma tarefa, mas desta vez, ao pegar na bandeja com a taça, sentiu-se estremecer por dentro. A moça devia achar que o encargo era tão simples que lho podia confiar, mas Reena nem sabia onde estava o imperador! Só conhecia do castelo a cozinha e os corredores que levavam ao seu quarto na outra ala, não se atrevia a entrar onde não fosse autorizada, e nunca tinha sequer subido ao andar superior! Mas nada disse ou perguntou, antes voltou as costas para que ninguém se apercebesse da sua atrapalhação e saiu da cozinha como se soubesse para onde ia. A última coisa que desejava era que a julgassem uma tonta que nem se conseguia orientar, e que o relatassem ao dono da casa! Seria o fim de qualquer esperança de ficar ali como criada!
Tinha ouvido falar do salão, onde os nobres se reuniam com o imperador ao serão, junto à lareira, quando havia visitas. Reena encaminhou-se nessa direcção à luz das poucas lamparinas que ardiam por ali e suspirou de aflição ao perceber que se tinha enganado. No salão, obscurecido, não se demorou sequer para o contemplar duas vezes. Devia ter calculado, pela falta de archotes acesos, que o imperador se encontraria nos aposentos dele, algures nos andares de cima, onde nunca tinha ido. Agora estava perdida e já não sabia para que lado ficava a estreita e recôndita escada de serventia destinada aos criados! Oh, que ninguém se cruzasse com ela, perdida e às voltas e à procura! Julgou-o um alívio, deparar-se com a série de degraus que serpenteavam em caracol até ao piso superior. Quando os observou melhor, à escassa luz da única lamparina, suspirou de novo e olhou a bandeja que lhe tremia nas mãos. Como eram altos e íngremes aqueles degraus! Como lhe era difícil levar uma taça de vinho ao seu amo, admitiu, e um véu de lágrimas turvou-lhe os olhos. Quem aceitaria na sua casa tão incompetente criada? Ninguém a aceitaria. Aquela era a sua única, a sua última oportunidade.
Reena respirou fundo, e apertou com força a bandeja contra o peito. Apoiou a mão esquerda na parede e começou a subir devagar e cautelosamente, receosa de entornar aquele vinho como se a sua vida dependesse disso. A sua vida dependia disso.
 

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