quinta-feira, 22 de março de 2018

Nepenthos - Capítulo IV (excerto)

Já publicado
Capítulo I - primeira parte
Capítulo II - primeira parte
Capítulo II - segunda parte
Capítulo III - primeira parte
Capítulo III - segunda parte


Desde que o futuro se apresentara demasiado medonho para o contemplar




Reena tinha pensado, ao chegar àquele castelo, ao ver o portão e os guardas, que ia ser um cativeiro igual aos outros. Agora já não lhe parecia sequer um cativeiro. O portão, durante o dia, estava sempre aberto para que a gente da vila pudesse entrar e sair. Dois guardas a cavalo, às vezes três, revezavam-se à entrada. Mais guardas, alguns à vista outros ocultos, vigiavam toda a extensão do domínio real. A princípio Reena tinha-os temido, mas com o passar dos meses apercebia-se de que não lhe dirigiam as intenções que receara. Mal a olhavam, atentos à sua missão de proteger a propriedade do imperador. Era assim que a encaravam também, propriedade do imperador. Nem mais, nem menos.
Há tempo que Eric se tinha ausentado, como Reena ouvira dos homens da sua escolta, e não se sabia quando voltaria. Não havia muito trabalho quando ele viajava, talvez por isso os criados gostassem tanto das suas ausências. Passavam o dia na cozinha, a tagarelar com a gente da vila, e o assunto predilecto era aquela espécie de criada a fingir que Eric tinha trazido para o castelo. Uma desprezível rameira que tinha aparecido na taberna! Reena escutava-os, e evitava-os. Tinham-se tornado tão cortantes, as troças e os insultos, que agora começava a fitar longamente o portão aberto. Já não era a primeira vez que pensava no que aconteceria se se atrevesse a cruzá-lo. Fê-lo naquela tarde, como se o ódio que ouvia atrás de si a empurrasse para fora. Pelo menos ficaria a saber o que aconteceria. Os guardas, à conversa um com o outro, nem pestanejaram. Nem sequer lhe perguntaram onde ia. Era tão estranho, sair sem que ninguém a impedisse. Reena não tinha imaginado que ia ter tanta liberdade.
Não tencionava ir muito longe, queria apenas fugir dos criados e dos ajudantes da vila. Distraiu-se a dar a volta ao muro do castelo, mais extenso do que tinha antecipado. Estava frio lá fora, e a neve tudo cobria com o seu manto branco, mas Reena descobriu restos da antiga muralha, e árvores de troncos negros e ramos carregados de pingos de gelo, cintilantes, caprichosos, frios ao toque mas agradáveis à vista. A paisagem era de montanha, como nunca tinha contemplado, e ao longe vislumbravam-se os elevados cumes, alvos e azulados num horizonte de resplandecente cinzento, que defendiam o castelo a norte. Nessa direcção, uma estreita vereda desaparecia entre as árvores mais à frente, e Reena ponderou o perigo de se aventurar por ela. Temia, também, a maldade de tantos homens que a tinham usado na taberna da vila. Parecia-lhe um caminho deserto e sossegado, pelo menos naquela altura do ano. E se se cruzasse com alguém, e se precisasse de ajuda, não a protegeriam os guardas se os chamasse? E se não a protegessem? E importava?
No dia seguinte, Reena apressou-se a terminar as suas tarefas e saiu. Levava um xaile, desta vez, e a intenção de se embrenhar pelo caminho até se cansar ou que fossem horas de regressar. Pelo menos assim evitaria os criados. E a paisagem… Como era bonita aquela paisagem, e silenciosa e tranquila, onde apenas os pássaros e pequenos animais a espreitavam timidamente de suas tocas. Entrava-lhe pelos olhos, a beleza invernal, e Reena deu por si a sorrir como já não sorria há muitos anos. Também há muitos anos não lhe era permitido passear assim, talvez nunca lho tivesse sido permitido, sem que ninguém lhe perguntasse para onde ia e de onde vinha e sem ser esperada no regresso com censuras ou castigos. Reena tornou a sair, muitas vezes, e desvendou um emaranhado de veredas que subiam e desciam, na direcção da montanha ou do vale ou sempre em frente. Se era tão bonito de inverno, como seria na primavera, quando as árvores enfeitassem de folhas os seus ramos e o prado se cobrisse de flores? E ainda ali estaria, na primavera, para poder deslumbrar-se no renascer da natureza? Agora Reena desejava ainda ali estar na primavera, naquele sítio onde podia sair em liberdade. Onde tinha paz.
Todos os dias se aventurava até mais longe. Não temia perder-se, no passo lento a que já se habituara, mas seguia com cuidado e atenção e não arriscava continuar em frente antes de conhecer o caminho de regresso. Tinha tempo, e podia parar e descansar e admirar o que a rodeava. Mas eram cansativas, aquelas caminhadas. Reena lembrou-se de apanhar um galho para lhe servir de auxílio e aprendeu a apoiar-se nele a cada passo. Continuava a ser cansativo, embora menos, e a brisa fresca que lhe soprava os cabelos valia o sacrifício. Começava a compreender os caminhos e a adivinhar onde iam dar. Já imaginava que aquela vereda que descia o vale se abeirava da vila. Receosa, aproximou-se o suficiente para observar as pessoas à distância, ocupadas nos seus afazeres, comprando e vendendo no mercado, entrando e saindo da pequena igreja de dois torreões e harmoniosos sinos. Aí, Reena voltou para trás, e decidiu não avançar mais.
Os piores rigores do inverno já tinham passado quando um modesto mercador de tecidos visitou o castelo. Vinha de longe, do sul, pelo que Reena percebia, e tinha conseguido aquela comissão do próprio imperador devido à qualidade dos artigos com que anualmente abastecia o castelo. Reena espantou-se, ao apreciar a suavidade das lãs e a frescura dos linhos, que se destinassem ao uso da casa e às roupas dos criados. O imperador, para as suas vestes, comprava longe e comprava caro, mas preocupava-se com o conforto dos seus servidores. Reena até hesitava em escolher tecidos para si, para o verão. Ainda ali estaria no verão? Passou-lhe pela cabeça, nesse momento, que se não estivesse ela poderia estar outra, outra rapariga em semelhantes circunstâncias que igualmente se maravilhasse com uma arca cheia de boas roupas, e não hesitou mais.
Reena tinha descoberto outros tesouros abandonados em arcas poeirentas e esquecidas. Numa delas encontrou teares e agulhas, e até linhas de bordar. Ninguém demonstrava interesse naquelas coisas, nem se importavam que as usasse. Reena achava-as preciosas, inestimáveis, e ao serão, na solidão do seu quarto, dedicava-se a coser e a bordar os vestidos novos. Era tão estranho voltar a bordar, como fazia na casa em que crescera sob o olhar benévolo da sua primeira senhora. Às vezes parecia-lhe que aquela também era, como a outra, uma casa em que nada lhe faltava. Nem a verdade. Pois ali, ao contrário desse primeiro lar, se era um lar, ninguém a enganava, ninguém a iludia, ninguém lhe escondia o preço daquele conforto. Reena começava a considerar que talvez não fosse um preço excessivo, para alguém como ela, que não podia aspirar a muito mais. E um dia, sonhava, se aqueles nobres se esquecessem dela, porque um dia ia envelhecer e perderia qualquer vestígio de formas aprazíveis que ainda lhe restassem, nesse dia talvez ali tivesse um lar, para sempre, naquele sossego. Naquele sossego de um túmulo.
Há muito tempo que Reena não contemplava o seu futuro, desde que o futuro se apresentara demasiado medonho para o contemplar. Mas agora dava por si a recordar-se, naquelas solitárias caminhadas entre a floresta adormecida debaixo da neve, que um dia tivera sonhos, tantos sonhos, quando era nova e inocente. Sonhos de que já nem se lembrava.
Reena regressava ao castelo, depois de um daqueles passeios em liberdade, e cansada sentou-se nas ruínas da muralha, por um bocadinho. Não tinha sonhado, jamais, que o melhor que lhe podia acontecer era envelhecer e murchar, e dar-se por contente que lhe permitissem aquele lar triste e silencioso, invisível no seu cantinho, à espera que se esquecessem da sua existência. Lágrimas molharam-lhe o rosto, e desta vez Reena soluçou em voz alta porque ninguém a ouviria. Era aquele o melhor futuro que podia ambicionar? Quando tinha tido sonhos, tantos sonhos. Sonhos que não queria recordar para não sofrer mais.




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