quinta-feira, 22 de março de 2018

Nepenthos - Capítulo I - segunda parte

Já publicado
Capítulo I - primeira parte


A jovem ergueu os olhos, evitando os do taberneiro. Olhava antes o caminho em sua frente, o escuro corredor que conduzia à sala cor de fogo de onde ouvia os homens falar alto e rir às gargalhadas


Os homens irromperam numa gargalhada cúmplice, e Malkom riu-se também e bebeu outro gole, mas novamente a sua expressão se tornou séria.
– Julgavam que não éramos sequer uma ameaça, tão poucos e divididos. Já nos tinham cortado a cabeça, em pensamento, de tal maneira que nem se deram ao trabalho de no-la cortar. E devo admitir, os malditos tinham razão. Quem acreditaria que chegássemos onde chegámos? Eu próprio não acreditei.
Não era novidade para ninguém. Também Malkom tinha conquistado uma alcunha nos tempos da guerra, e não era por nada que lhe chamavam o Cínico. Mas os homens àquela mesa não estavam na disposição de aturar lembranças sombrias e vaiaram-no com a alacridade de quem já tinha bebido canecas a mais.
– Melhor era a conversa quando falavas das pulgas! – calou-o o conde Ian, com uma careta reprovadora que apenas um amigo de infância, quase um irmão, podia dirigir-lhe sem que este ficasse ofendido. – Ninguém te quer ouvir! Não viemos aqui para brindar à nossa vitória? Ou para beber, com a desculpa de brindar à nossa vitória? – e voltou-se, rindo, para os antigos companheiros de armas. Todos lhe reconheceram a natureza ligeira, quase insensata, com que dizia sempre a primeira coisa que lhe vinha à cabeça. Mais rápido ainda era na prontidão com que cavalgava para a batalha de espada em punho, à frente e sem temor. A fama de Ian o Valente era tão grande entre aliados como adversários. – Proponho outro brinde, ao nosso magnífico soberano que nos uniu numa causa gloriosa: estar aqui, esta noite, a beber até cair para o lado!
Só dele era esperado que se referisse assim ao imperador. Ian e Malkom eram os seus melhores amigos, de um companheirismo forjado nos campos de batalha, mas em nada faltava àquela amizade o riso e a folia de homens jovens e nem sempre inclinados a respeitar formalidades. Nem estavam ali para outra coisa senão para se divertirem, naquela noite entre irmãos de armas em que ninguém era obrigado a comportar-se à altura da sua posição.
Eric baixou os olhos e lambeu a espuma da sua cerveja, numa expressão tão satisfeita como meditativa, e abanou a cabeça antes que Ian pudesse receber uma resposta:
– Basta de brindes à minha pessoa por hoje! Brindamos à vitória que nos trouxe aqui, – começou, e olhou a cada um dos homens sentados, e alguns de pé, muitos que tinham vindo de longe para aquela comemoração. Homens que tinham passado a juventude na guerra mas que finalmente tinham podido regressar a casa, e que por isso mais alegremente aceitavam o convite. Todos faziam silêncio ao ouvi-lo, adivinhando-lhe pelo tom de voz que se seguia algo de sentido e importante. – e brindamos pelas vitórias futuras que ainda nos esperam. As batalhas que temos à nossa frente não se ganham com a espada mas com determinação e propósito. Os velhos tempos acabaram e os novos tempos não apresentam menos desafios. Conto com todos vós, senhores, capitães, amigos, que partilhais os meus desígnios, para continuardes a lutar as futuras batalhas que serão travadas neste reino. Em vós confio como confiei quando era a nossa vida que estava em causa, e sei que não me desapontareis como não me desapontastes face à morte. Se exércitos não nos travaram nada nos travará agora. – e então Eric levantou-se, erguendo a vulgar caneca como se fosse a mais preciosa taça. Todos o imitaram. – A nossa vitória não acabou, está apenas a começar. Brindo à paz. Brindo à mudança. Aos novos tempos!
– Aos novos tempos! – ouviu-se em coro, e desta vez não eram levianos os brindes que se ergueram entre eles.
Por momentos, a solenidade das palavras ecoou pela sala e trocaram-se olhares de orgulho. Todos aqueles homens tinham uma missão ao serviço do imperador, que os enobrecia, que os elevava a circunstâncias menos humildes do que aquelas em que tinham nascido. Eric brindou com os mais próximos, e quando se voltou para Ian, ao seu lado direito, encontrou-lhe nos olhos negros a censura de quem estava farto de discursos. Já tinha ouvido muitos e não julgava que a noite tomasse tal rumo. Na verdade, Eric também não o tinha planeado. Haveria muito tempo para falar de assuntos sérios com os seus leais capitães de armas. Aquela não seria essa noite.
– Mas o meu amigo tem razão. – concedeu, abrindo um sorriso indulgente aos veteranos que brindavam. – Basta de pensar em deveres por hoje. Estamos aqui para celebrar, e para beber, e para o que mais a noite oferecer. Que seja esse o nosso dever por agora!
Eric ergueu novamente a caneca, e ouviu os homens aprovarem e rirem, e sentou-se descontraído à cabeceira da mesa. Malkom e Ian acompanharam-no num brinde final entre os três. Os convivas entregaram-se à bebida e à conversa, e Malkom aproveitou para congratular o imperador em voz baixa:
– Excelente! – elogiou, sincero, com um brilho de admiração nos olhos cor de mel. – Quando abres a boca nada ficas a dever ao Tentador. E pensar que a princípio não te sabia um bom orador…
– Ora! – interrompeu Eric, encolhendo os ombros com modéstia. – Como te disse, aprendi tudo nos livros do mosteiro. Li as obras da Antiguidade, estudei a vida dos grandes reis e generais e conquistadores. Apenas lhes sigo o exemplo. Tudo o resto foi sorte e oportunidade. Algo que também não faltou aos mais ilustres, quando no antigo império de…
– Oh não, não! – insurgiu-se Ian, abanando a cabeça. Já imaginava que Eric se ia pôr a contar qualquer história de guerras antigas, como fazia amiúde se não o calassem. – Viemos aqui para beber, não estamos em nenhum mosteiro. Pelo contrário. – e o seu sorriso travesso revelou que afinal não pensava só em bebida. – Têm belas moçoilas por aqui! Por falar nisso… – e Ian ergueu a voz e o olhar que dirigiu ao taberneiro, por ali especado a um canto da sala a aguardar as ordens da nobre clientela. – Quando é que trazem a puta coxa?
Malkom riu-se. A puta coxa era uma espécie de atracção. Tinha chegado à taberna há alguns meses e era conhecida pela sua relutância em agradar aos fregueses. Claramente era um jogo, um truque, como ela tão bem se conseguia fazer passar por ingénua donzela.
Eric não se riu. Não tinha tanta certeza de que fosse um jogo. Já tinha observado a rapariga em ocasiões anteriores e parecia-lhe mais que a pobre desgraçada não tinha nascido para aquela vida. Mas até podia ser um jogo, como tantos outros com que as prostitutas eram peritas em divertir os clientes. Malkom e Ian divertiam-se, e certamente não seria ele a preocupar-se com o assunto.
O taberneiro dobrou-se numa humilde vénia e saiu pela porta. Assim que virou costas, os traços do rosto antes sorridente e servil endureceram-lhe as rugas da idade. Caminhou até ao canto escuro de um corredor, onde sentada num pequeno banco, de cabeça baixa e mãos apertadas sobre o colo, a jovem esperava. O taberneiro parou uns instantes a inspeccioná-la. Estava suja, mal vestida e descalça. Se freguesia daquele calibre começava a chamar por ela talvez tivesse de lhe comprar trapos decentes. Mas adiantaria? A rapariga era tão inútil. A princípio tinha-a considerado um mau negócio e passou-lhe pela cabeça mandá-la embora, mesmo perdendo o dinheiro que à socapa trocou de mãos com quem a vendera. Era contra a lei e o costume que se transaccionassem servos e outros tipos de gente de ainda inferior condição a quem ninguém reclamaria, mas com algum expediente lá lhe chamavam compensação e o negócio ia-se fazendo. Por pouco o taberneiro não se julgava enganado, arrependido de ter desperdiçado moeda em tão ruim investimento, quando algo de curioso começou a acontecer. Alguns homens, bem bebidos, achavam graça àquela indolente que se fingia apudorada e que muitas vezes até chorava lágrimas verdadeiras. Só por essa razão ainda a mantinha no estabelecimento.
Mas na verdade a rapariga era inútil. Nem se sabia arranjar. Com um suspiro exasperado, o taberneiro aproximou-se e soltou-lhe o cabelo. Já lhe tinha dito que o usasse solto, as madeixas castanhas sobre os ombros descobertos. A inútil não dava ouvidos.
– Querem-te na sala. – anunciou, e quase a viu estremecer, mas ela não levantou a cabeça. – Põe-te de pé, vamos! Não temos a noite toda! – repreendeu, e só então a rapariga se apoiou na parede para se erguer, sem tirar os olhos do chão. – Presta atenção! Sabes quem está naquela sala? O próprio imperador e outros nobres. Deixa-te de lamúrias e trata de satisfazê-los bem satisfeitos. Quando te trouxeram para aqui bem me avisaram de que não prestavas. Fiquei contigo porque me saíste barata mas não és lucro que compense a despesa. É bom que passes a levar o trabalho a sério senão ponho-te na rua num esfregar de olho. A tua sorte é que ainda há quem te ache uma novidade, mas olha que isso acaba num instante. As outras mulheres, muito mais competentes do que tu, mereciam mais ir esta noite àquela sala. Mas é a ti que querem, e és tu que vais. Eu entendo-me com elas. Mas que seja a última vez que to digo: ou começas a trabalhar como deve ser ou podes pensar em ir pela estrada fora!
A jovem ergueu os olhos, evitando os do taberneiro. Olhava antes o caminho em sua frente, o escuro corredor que conduzia à sala cor de fogo de onde ouvia os homens falar alto e rir às gargalhadas. Já deviam estar muito bêbedos. Sem que o taberneiro precisasse de lhe dizer mais nada, caminhou até lá, a mão esquerda apoiada na parede a cada passo como se habituara a fazer desde que coxeava. Procurando, naquela parede familiar, um último e frio e breve amparo.
Parou à porta e observou o que a esperava. Eram tantos. Novamente baixou os olhos e cerrou os lábios, e não teve coragem de avançar. Não foi preciso, porque logo um dos homens a foi buscar por um braço. Alguns eram fregueses habituais e fizeram questão de explicar aos outros o que nela os interessava. Mas como era tímida! Mas como se fingia inocente! Quem a visse assim recatada nem adivinharia que já passara por bordéis no reino inteiro. A algazarra e as gargalhadas aumentaram de tom. Todos queriam experimentar, mas o que a tinha agarrado primeiro mandou-os esperar pela sua vez. Puxou-lhe pela manga do vestido, já muito gasto e remendado, e encostou-a contra uma mesa ao centro da sala. Sôfrego, beijou-a no pescoço e apalpou-lhe os seios e as coxas. Os outros homens incitavam com sugestões e gritos viris.
Eric reparava, discreto, agora que as atenções se desviavam para a luxúria do espectáculo, que ela mantinha os olhos fechados, e que deixava que a cabeça se lhe balanceasse à vontade daquele que lhe manipulava o corpo, como se desmaiada ou adormecida. O homem deitou-a na mesa, derrubando canecas e pratos e jarros. Farto de brincadeiras, baixou-lhe o decote do vestido, expondo os seios, e levantou-lhe a saia. Eric desviou os olhos, como sempre preferia fazer, quando dela ouviu um lamento de dor, quase imperceptível no meio daquela ruidosa galhofa. Sem que o desejasse, tornou a olhar. Os lábios dela, entreabertos, pareciam murmurar a palavra “não”, embora não a chegasse a pronunciar, mas Eric viu-lhe nos olhos castanhos, por instantes descobertos num piscar de pálpebras, que pesadas lágrimas lhe molhavam o rosto. Não se lembrariam eles de que a pobre rapariga era um ser humano também? Até então, Eric não se tinha apercebido de que entretanto, numa das muitas noites naquela taberna, lhe ouvira o nome e o sabia. Chamava-se Reena.
Em breve todos os que assim o entenderam se satisfizeram como lhes apeteceu e deixaram-na ir embora. Reena saiu por onde entrara, num passo mais lento e cambaleante do que era costume e sem erguer os olhos do chão. O imperador não a voltou a ver na sala.
Entre os homens, a conversa retomou onde tinha ficado, as glórias do passado e as conquistas do futuro.



quarta-feira, 21 de março de 2018

Nepenthos - Capítulo I - primeira parte

Se era mau, tinha regressado pior.




Eric, o imperador, era chamado o Implacável. O taberneiro não sabia muito bem o que a palavra significava mas não achava que o jovem soberano fosse assim tão mau como tal cognome o anunciava.
Ali, na taberna da vila real, sempre tinha sido um bom freguês que não reclamava da cerveja e pagava com rica moeda, e nunca dele tivera razão de queixa. Naquela noite de outono, como já não seria a primeira vez, até lhe tinha enchido a casa com os seus capitães e homens de armas, e os nobres seus amigos que na guerra tinham conquistado títulos e glória. Celebravam a vitória e lembravam as façanhas de muitas batalhas, e entre gargalhadas e brindes iam comendo e bebendo e não se faziam rogados aos favores das mulheres que lhes punha à disposição. O taberneiro sempre tinha pensado que implacável se dizia de um tirano ou de um bruto, um daqueles nobres que se serviria sem pagar e permitiria que todos aqueles homens bem bebidos arranjassem brigas e lhe partissem tudo sem olhar ao prejuízo. Não era assim o soberano Eric, nem na taberna nem no governo do reino.
Há algum tempo, já depois da guerra, um homem de armas veterano, mas pelo porte e pelo falar alguém de saber e erudição, tinha passado pela taberna, e no ócio de uma noite de vinho tinha explicado ao taberneiro que a palavra implacável tinha também outro sentido. Chamavam assim ao jovem imperador pelos seus feitos na guerra. Em quatro anos apenas, tinha posto fim ao conflito sangrento e centenário que durante gerações tinha dividido a nobreza. Não o conseguira somente pela força das armas, mas pela astúcia também. Imune aos ódios antigos, Eric aliciara aliados entre nobres e plebeus, entre grandes e pequenos, propondo-se a restaurar a paz e a prosperidade àquele reino assolado. Tinha ido ainda mais longe, contra a lei e o costume, oferecendo liberdade aos servos que obrigados ao jugo dos seus senhores combatiam por armas inimigas. Talvez a estratégia não tivesse resultado se as promessas fossem vãs, mas Eric era também implacável no cumprimento da sua palavra. Pelo cansaço da guerra, muitos nobres se lhe juntaram em força militar. Pela esperança de liberdade, multidões de homens humildes lhe juraram lealdade. Nada nem ninguém o conseguira travar. Inabalável, imbatível, vencera batalha após batalha. O veterano sabia do que falava, porque tinha estado em todas elas. E tinha observado, de perto, a fulminante ascensão do jovem soberano.
Ninguém o previa. No dia em que o príncipe herdou a coroa do seu pai, Eric o Gordo, ninguém esperava nada daquele único herdeiro que aos dezoito anos se tornava rei. Ninguém adivinharia agora, ao olhar para ele, alto e forte e de saudáveis cores, que daquele mesmo príncipe, na infância, se julgava que não viveria o suficiente para lhe nascer barba na cara. Sabia-se que em menino era enfermiço, febril e débil, e que o próprio rei não considerava digno e capaz aquele filho de quem falava com desprezo. Do pouco que falava, como se o príncipe já nem permanecesse entre os vivos de tão votado à morte desde o berço. A Eric o Gordo nada parecia afligir a falta de um herdeiro a quem deixar o trono e a coroa. Continuou sempre a lutar, como se não lhe pesasse a idade, e nunca se lhe esgotou o vigor até às vésperas da morte. Morreu como tinha vivido a vida toda, em pleno acampamento militar a preparar-se para a guerra, não em batalha mas de doença súbita, ainda vestido de armadura e deitado na cama de campanha. Aos inimigos, que o esperavam de armas prontas, não importava como morria o rei. Antecipavam jubilosamente o frenesim da guerra final que ditaria qual deles conquistaria a coroa, dos vários que a cobiçavam, agora que enterrada estava a dinastia.
Ninguém contava com o príncipe. Ninguém lembrava que a coroa já tinha legítimo dono. Eric teve de se bater por ela. Derrotou todos os senhores da guerra, uniu a nobreza e estendeu a sua soberania aos pequenos reinos vizinhos que décadas de ameaça tinham arrastado para o conflito. Tão depressa conquistou o título de imperador que já ninguém recordava os breves anos em que fora apenas rei. No fim, Eric puniu os inimigos que até ao último fôlego tinham teimado em arrancar-lhe a coroa e a vida, e foi implacável também.
Tudo isto o veterano de guerra tentou explicar ao taberneiro, que implacável nem sempre significava cruel ou desapiedado, que significava também determinado, inquebrantável. O taberneiro não ficou muito convencido, mas já o homem de armas se interrogava, ele que tinha assistido às proezas militares e políticas do jovem soberano, como podia Eric o Gordo ter-se enganado tanto? Como não tinha visto, o velho rei, o valor do filho que menosprezava? Não seria o primeiro a questionar-se, pois o reino inteiro sabia que nunca aquele príncipe tinha sido favorecido pelo amor do rei. Nem da rainha.
Por aquela altura, o taberneiro preferiu terminar a conversa e despedir-se do freguês, porque achava que o homem já tinha bebido demais e já falava do que não devia. O soberano a quem apelidavam de Implacável não ficaria muito contente se lhe chegasse aos ouvidos que se murmurava sobre os tempos em que era um menino doente, desprezado pelo pai e repudiado pela mãe. E ninguém melhor do que as pessoas da vila conheciam o que se tinha passado dentro do castelo real, ali tão perto. Pudesse o taberneiro tagarelar livremente e teria recordado àquele forasteiro que tudo tinha começado com o casamento entre o rei, Eric o Gordo, quando este era já um homem maduro sem esposa nem herdeiros, e a jovem rainha Elena, obrigada àquele matrimónio. O marido repugnava-a, barrigudo como lhe ficara por cognome, desleixado como um homem de guerra demasiado habituado ao cheiro a sujo dos companheiros de batalha. E um inimigo, ainda por cima. Nem tinha sido outra coisa senão uma tentativa de aliança e tréguas entre clãs inimigos o que os unira naquele casamento. Tréguas, nunca houve nenhumas. Dentro do castelo, a guerra continuava entre esposos. Todo o reino sabia que se odiavam, e que após ter dado à luz aquele único herdeiro a rainha tinha fechado o leito ao marido, concluído que estava o seu sacrifício, e recusado dar-lhe mais filhos. E a rainha fez mais. Rejeitou aquela criança e entregou-a às amas, desde o dia em que nasceu, e nunca o príncipe conheceu dela qualquer semelhança de uma mãe. O resto era também verdade. O menino revelou-se doente, os médicos não lhe auguravam que sobrevivesse, e o rei seu pai não gostou nada de se ver atraiçoado naquele matrimónio sem esposa cujo único resultado era fraco e moribundo. Partiu novamente para a guerra, sem intenções de regressar, e esqueceu que alguma vez tivera mulher ou filho. Durante anos, a nobreza esperou avidamente que Eric o Gordo morresse de velho, se não antes em batalha, para que a coroa caísse na cabeça do mais forte. Já não faltaria muito. E quanto àquela descendência enferma, fruto pouco e tardio, não era sequer coisa que se levasse em consideração. Dizia-se até do príncipe que se por milagre sobrevivesse ao seu pai não teria nesse dia uma única saia a que se agarrar.
Mas o príncipe Eric sobreviveu. E cresceu com um temperamento estranho, reservado, demasiado pensativo para a idade. Rejeitou as amas, todas as amas, e cedo também os criados, resolvido a tomar conta de si próprio, mesmo doente, mesmo necessitando dos cuidados que não tolerava. Preferia ficar, calado e sério, a cismar na solidão dos seus aposentos, e já se murmuravam rumores sobre aquele príncipe que nunca sorria e não falava com ninguém. O taberneiro não se atrevia agora a recordar esses murmúrios, porque o rapazinho enfermo não pereceu como se julgava, antes o passar dos anos lhe foi benéfico e a saúde melhorou-lhe a olhos vistos. Na mesma medida em que piorava o seu feitio. Diziam os criados do castelo que se tornava sisudo, tão frio que a ninguém se apegava, mas também altivo e distante, e colérico. Já temiam aquele pequeno amo de humor irascível, que lhes gritava cada vez mais alto quando não satisfaziam imediatamente as suas ordens. Teria aprendido com o rei e a rainha, que nos últimos tempos de convivência forçada já nada se importavam de levantar a voz um para o outro como não era digno de nobres de tal estirpe? Mas há anos que o rei se ausentara, e suspeitava-se que nunca mais regressasse dos acampamentos enlameados daquela guerra que era a sua verdadeira e única paixão, e também a rainha tinha partido, para as terras da sua família de onde nunca tinha desejado sair. Ficara o príncipe, sozinho, o fedelho que nem devia ter passado do berço e que agora ameaçava ser muito capaz de comandar a casa real com mão de ferro. Os criados não esconderam o alívio quando o príncipe foi enviado para um mosteiro, a última disposição da rainha quanto àquele filho que contra todas as expectativas tinha atingido idade de ser educado. Eric não voltou ao castelo senão depois da guerra, e quando voltou, que diferença!
Do menino doentio e pálido já não restava sequer vestígio. Regressava soberano e vitorioso, empunhando a espada com que tinha decepado inimigos no campo de batalha, lado a lado com os seus capitães e com igual temeridade. As mulheres da taberna diziam que se fizera um belo homem, de cabelos louros de um invulgar tom de escuro e uns olhos de azul profundo como o céu de verão ao pôr-do-sol. A figura de homem a quem não venderiam os seus favores, antes cobiçavam os dele. Mas não chegaram a afoitar-se. Bem cedo descobriram que algo não tinha mudado. O temperamento, frio e distante. O olhar, superior, com que as punha no seu devido lugar. As mulheres preferiam não se aproximar se não fossem chamadas. Porque agora já sabiam, pelos criados que presentemente serviam no castelo, que o imperador continuava irascível. Mais colérico na intimidade do seu lar, onde a diplomática conduta de um soberano ficava à porta e a paciência se lhe esgotava ainda mais depressa do que nos dias em que tinha sido o jovem amo daquela casa. Se era mau, tinha regressado pior.
O taberneiro, e todas as pessoas da vila, conheciam melhor o homem que tinha sido menino, e as suas peculiaridades e bizarrias, e preferiam que as cóleras permanecessem entre as paredes do castelo. Os criados, poucos, porque era uma das extravagâncias do novo soberano não gostar de muita gente em sua casa, que se entendessem com elas. Pois o taberneiro, no seu estabelecimento, não tinha razão de queixa.
Pelo contrário, o negócio tinha deveras melhorado desde o fim da guerra. Não havia quem pudesse dizer que não estava agora mais rico, e notava-se, ali na taberna, onde a moeda fluía. Um soberano assim não podia ser completamente mau, meditava o taberneiro ao servir ele próprio, debruçado numa vénia obsequiosa, todas as canecas de cerveja daquela mesa a que o imperador se sentara com os seus favoritos. Ao vê-lo rir, de qualquer peripécia dos dias das armas, já não pareciam tão intimidantes aqueles olhos de azul profundo. Mas o taberneiro sempre preferia que aquele olhar não o fitasse com atenção, não fosse adivinhar-lhe que sabia mais do que devia.
– Quatro anos, quatro miseráveis anos! Sem contar com os tempos do rei! – recordava o jovem conde Malkom, sentado ao lado do imperador como era privilégio dos seus mais chegados. Voltou a molhar os lábios na cerveja e continuou, de sobrolho levemente franzido e sem a mesma jocosidade dos outros convivas à volta da tosca banca de madeira: – Ainda me custa a crer que já não sei o que é dormir no chão de uma tenda há quase dois anos. Pior que o inimigo, eram as pulgas!




quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

SOLSTÍCIO



O conto “Solstício” já se encontra disponível para download gratuito no site da Bubok.
Link aqui:
www.bubok.pt/livros/11942/Solsticio


SOLSTÍCIO
Um conto de D. D. Maio

sinopse

A noite mais longa do ano. Eric, o imperador, visita a sua prima Hildegaard nas Terras Verdes em busca da família que nunca teve e da esposa que quer vir a ter. Em terra de bruxas, sem acreditar nelas, espera-o confrontar-se com as suas próprias raízes num mundo isolado e proscrito que nunca conheceu, que nunca será o seu, e de que sempre fará parte.



“Solstício” é um drama romântico no género Low Fantasy.


Solstício I
Solstício II
Solstício III
Solstício IV
Solstício V
Solstício VI
Solstício VII
Solstício VIII
Solstício IX
Solstício X
Solstício XI
Solstício XII
Solstício XIII
Solstício XIV

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

SOLSTÍCIO XIV

Já publicado:
Solstício I
Solstício II
Solstício III
Solstício IV
Solstício V
Solstício VI
Solstício VII
Solstício VIII
Solstício IX
Solstício X
Solstício XI
Solstício XII
Solstício XIII





A meio do caminho, Eric pousou o menino no chão. Continuaram devagar, de mãos dadas, em direcção ao castelo. Punha-se ainda mais frio. O sol tinha brilhado de madrugada, mas grossas nuvens tinham-no encoberto e agora o céu era apenas um manto cinzento. O tempo tinha mudado, e Eric pensou nessa ironia. Tanto que aquela gente se tinha esforçado por dar as boas-vindas ao Sol e já o ingrato lhes falhava.
– Vamos ao castelo da prima buscar as nossas coisas e vamos para casa. – explicou ao seu filho. – Sim, estamos sozinhos, mas podia ser pior. Um dia perceberás que já é uma sorte termo-nos um ao outro. Há quem não tenha ninguém.
O resto já não disse em voz alta. É claro que aquela gente não vai autorizar este casamento. Devem estar todos a amaldiçoar-me naquele maldito Conselho, a envenená-la contra mim! Da maneira que a Hildegaard os ouve, é o fim. É mesmo o fim. Eric respirou fundo, num suspiro amargo e pesado. Agora é que ela não vai…
O menino parou e puxou-lhe pela mão. Na colina que ladeava a vereda verdejante, uma dúzia de crianças brincava. Crianças de todas as idades, dos pequeninos aos crescidos que tomavam conta deles. Pequeninos da idade do seu filho.
Eric sabia porque é que ele olhava. Gostava de brincar com outras crianças, mais do que gostava de brinquedos. Sempre que podia, Eric tentava arranjar-lhe amiguinhos. Viajavam tão constantemente que nem sempre os havia disponíveis. Mas ali estavam, as crianças das Terras Verdes, a quem o Conselho nada interessava. Hildegaard tinha-lhe dito que já não havia muitas, mas certamente não podiam ser só aquelas! Corriam e brincavam, nos seus jogos, e o menino olhava, cheio de vontade de brincar também, e Eric teve uma ideia.
– Já comeram? – perguntou-lhes. – A minha prima tem uma mesa cheia de guloseimas e agora que a festa acabou precisamos de ajuda para comer tudo. Alguém quer guloseimas?
As crianças entreolharam-se, indecisas, mas apenas um instante. Tão inocentes, aqueles meninos e meninas das Terras Verdes, não conheciam o perigo de um estranho. Mal sabiam o que era um estranho, ali tão isolados. Felizmente, o estranho que os convidava era benévolo, porque imediatamente agradeceram e correram atrás dele até ao castelo.
Eric abriu-lhes a porta e apontou-lhes o salão. Todos entraram, aos gritinhos e risos, e a mesa foi prontamente atacada. O pequeno Eric, entre eles, partilhava o seu arco com outro menino igualmente curioso. Até já experimentavam usá-lo!
Não devia estar ninguém no castelo, até os velhos criados se encontrariam no maldito Conselho, mas Eric não se preocupou. Algumas das crianças eram crescidas, dos seus onze, doze anos, e podiam olhar pelos mais novos. Com um sorriso, deixou-os às suas brincadeiras e começou a subir os degraus de pedra até ao andar superior.
A meio das escadas, o sorriso desfez-se. O coração afundou-se-lhe, afogado em desânimo, e uma lágrima traiu-o. A vida recomeçava, nesse dia, e não era bom o que recomeçava. Esperava-o um casamento, muito em breve, com uma perfeita estranha, um casamento de tão mau agouro como o tinha sido o dos seus pais. Bem que o tinha tentado evitar. Hildegaard, surgida na sua vida quando já não a esperava, tinha sido a resposta a todos os seus anseios. Ou assim o sonhava, mas agora compreendia. Hildegaard amava a sua liberdade, e jamais lhe pediria que abdicasse dela. Invejava-a. Porque Eric tinha feito uma escolha, há muitos anos, e não era livre.
Por um instante, apenas um instante, passou-lhe pela cabeça pegar na sua trouxa, e no seu cavalo, e no seu filho, e seguir para norte. Para lá das Terras Verdes, para lá do reino, para lá do império, e nunca mais aparecer… Mas era loucura. Tinha havido um momento, sim, para desaparecer, mas tinha feito uma escolha e agora era tarde. Agora era o momento de desistir, e Eric deixou que outra lágrima lhe cruzasse o rosto resignado. Tinha feito tudo ao seu alcance mas não tinha sido suficiente, e aquele sonho acabava ali.
Quando Hildegaard chegou, não muito depois, Eric já a esperava no salão, em trajes de viagem e de bagagem arrumada, para se despedir.
Hildegaard olhou para ele e franziu o sobrolho, e depois contemplou o que tinha acontecido ali, a sua casa repleta de crianças barulhentas e irrequietas, a comerem tudo o que havia na mesa.
– Primo, malvado! – ralhou-lhe, quase a sério. – Os pais deles andam desvairados à procura dos filhos, está toda a gente ralada porque desapareceram, e trouxeste-os para aqui?!
– Não sabia que era preciso permissão. – Eric respondeu, confuso. – Estavam sozinhos. Só os convidei para comerem o que resta. – e, mais baixinho, admitiu à sua prima: – E porque o meu filho nunca tem com quem brincar, achei que podia brincar com eles…
– Nós brincamos com ele! – prometeu uma menina de longas tranças castanhas, que disfarçadamente estava a ouvir tudo.
Hildegaard sorriu-lhe.
– A neta da Melissen. – apresentou-a ao seu primo.
Eric olhou melhor a menina esperta e alegre, e sorriu também. Sempre teria boas notícias para o capitão Lars.
– Então é melhor mandá-los embora, antes que os pais deles venham pela minha pele! – gracejou, mas agora era Hildegaard quem seriamente o fitava, olhos nos olhos.
– Ias-te embora?
– Sim, eu…
– Ainda bem que cheguei a tempo. – Hildegaard respondeu, misteriosa, mas o nervosismo apertou-lhe as mãos uma na outra. Um nervosismo como Eric nunca lhe vira. – Espero ter chegado a tempo. O Conselho acabou. Tivemos uma votação. Continuo a ser soberana das Terras Verdes. O meu povo aceita a minha decisão. – e os olhos verdes brilharam-lhe de lágrimas e alegria. – A minha decisão é sim. Se ainda venho a tempo.
Eric endireitou as costas, abalado, e semicerrou os olhos ao indagar os dela, como se lhe custasse acreditar.
– E a tua liberdade?…
– Já tive muita liberdade. – explicou Hildegaard, com um leve aceno. – Tanta liberdade que se tornou solidão, e a solidão tornou-se agradável. Até tu chegares. Caso com o homem, não com o imperador. Caso contigo, porque te amo. Se é que ainda não desististe…
– Desisti. – Eric confessou, o coração quase a saltar-lhe do peito, e aproximou-se para lhe tomar o rosto entre as mãos. – Desisti, e estava infelicíssimo. Mas já não estou!
Esquecido de tudo, Eric quase a beijava, quando Hildegaard interpôs a mão entre eles, apontando com a cabeça para as crianças. Não estavam sozinhos. Haveria tempo para isso mais tarde.
Eric já não pensava que importasse que todos vissem. Apertou-a contra o peito e Hildegaard não se afastou daquele abraço. No salão, as crianças já não lhes prestavam atenção nenhuma, entretidas a correr em roda da mesa. Mas Eric encontrou os olhos do seu filho, atentos, vigilantes, a espreitar o que se passava. Como se adivinhasse, o menino sorriu. Eric já sabia que ele aprovaria. Há muito tempo que o ouvia dizer-lhe, em pensamentos, se acreditasse nessas coisas, que queria a prima com eles. Eric já nem perdia tempo a questionar o que ouvia do seu filho. Sim, teriam a prima com eles. Sim, tinham-na conquistado.
E a vida começa de novo! Eric recordou, e sorriu.





~§~







SOLSTÍCIO
por d.d. maio

Dezembro 2016
Última actualização: Outubro de 2019


terça-feira, 20 de dezembro de 2016

SOLSTÍCIO XIII

Já publicado:
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Solstício VI
Solstício VII
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Solstício XI
Solstício XII





Desta vez os archotes iam acesos quando pouco mais tarde subiram a colina. Eric continuava algo espantado, ao seguir aquela gente em fila para outro sítio que não a clareira entre as árvores. Mas ao chegar ao topo da vereda, compreendeu. A leste da colina erguia-se a grande montanha, a majestosa barreira de onde o sol brilharia primeiro.
No chão pedregoso ardia uma única fogueira, quase insignificante agora que o céu de límpido inverno já começava a ofuscá-la. Dispostos em semicírculo, os sacerdotes e sacerdotisas cantavam, virados para leste. Toda a gente esperava, alguns cantando também, o primeiro raiar da aurora.
Bem, o cerimonial era interessante, e o seu filho parecia entretido. Eric olhou o menino que lhe dava a mão, envolto na capa com capuz que Hildegaard lhe vestira, quase como os sacerdotes da terra. Animado e curioso, como de costume, o rapazinho observava. Demasiado pequeno para compreender, mas o nascer do sol era sempre bonito de se ver. Podia dizer-lhe, quando regressassem…
– Amigos! – a sacerdotisa da véspera ergueu a voz, voltada para a assembleia que a escutava. – A noite morre e o sol renasce! Hoje, o dia vence a noite!

Hoje, o dia vence a noite!

– Já não tarda a primavera, agora que começa o inverno. Agradecemos o inverno, que nos traz a primavera. Agradecemos as trevas, que nos trazem a luz. Eis que nasce a luz e morre a noite, e a roda do ano completa-se. Grande Mãe, agradecemos a luz!

Grande Mãe, agradecemos a luz!

– Nela esperamos, nela agradecemos, a Ela celebramos. Como a noite, morremos; como o Sol, renascemos!

Como o Sol, renascemos!

– Hoje a vida recomeça, nova e antiga, desde o princípio dos tempos, até ao fim dos tempos. Agradecemos a luz que nos guia, abrimos o coração à luz. Como o Sol renascemos, e a vida começa de novo!

E a vida começa de novo!

Atrás da sacerdotisa, o céu clareava. Com a madrugada, a neblina chegava por cima da montanha, raiada de azul e cor-de-rosa. O chilrear dos pássaros regressava, a floresta desperta enchia-se de som e cor.

– Bendita sejas, Grande Mãe! Abençoa-nos, Grande Mãe!

Abençoa-nos, Grande Mãe!

E como se soubesse o instante, a sacerdotisa voltou-se para o Sol, e o Sol raiou para todos. Cânticos alegres soavam agora, e alguns rapazes e raparigas deram as mãos e dançaram em roda da fogueira.
E ali estava, o Sol. E ali estava, a manhã. Eric sorriu e apertou a mão do seu filho, mas era triste aquele sorriso. E ali estava, o fim da visita. E o começo da vida que não desejava.
Um ancião, um homem gordo e quase careca, a quem já custava caminhar, aproximava-se de Hildegaard com um grande sorriso nos lábios.
– Tem o que pedi, Mestre Symm? – Hildegaard recebeu-o, entusiasmada.
– Claro que tenho, Menina. Exactamente o que pediu! – o homem tirou algo de dentro do casaco e Eric percebeu o que era. Um pequeno arco, uma perfeita réplica de madeira e corda, feita por um verdadeiro mestre. Só a ponta da seta o denunciava como brinquedo. – Veja, Menina, a minha mulher coseu-lhe uma almofada de pano e lã, para o rapazinho não se aleijar. Que me diz?
– Está maravilhoso, Mestre Symm! – Hildegaard exclamou, encantada, e inclinou-se para o seu pequeno primo, que de olhos brilhantes já cobiçava o presente. – E tu, que dizes? Gostas da prenda? É um arco e uma flecha, para aprenderes como a prima aprendeu!
O menino pegou no brinquedo, tão feliz e impaciente que já nem queria levantar os olhos dele.
– Diz obrigado. – Eric recordou-o, como nunca ninguém o tinha recordado a ele.
– Obrigado. – repetiu o rapazinho, sem saber se para o homem se para a prima. O brinquedo era demasiado novo e divertido para se preocupar com essas coisas.
Os adultos riram, e o homem ofereceu:
– Também posso fazer uma espada.
– Sim, uma espada! – Eric concordou logo, interessadíssimo. – Traz-me destes brinquedos e far-te-ei um homem rico.
– Não o faço por dinheiro, meu senhor. – revelou o ancião, todo ele sorrisos. – Faço-o pela alegria destes pequeninos. Mas diga-me quando regressa, e terei muitos mais para o seu filho.
No rosto de Eric, o sorriso apagou-se. Não sabia se regressaria. Daquele dia em diante a vida recomeçava, e não era bom o que recomeçava.
– Está tudo pronto? – Hildegaard indagou do homem, que de imediato garantiu:
– Mais pronto não podia estar. Os meus rapazes já prepararam tudo.
– Muito bem. Que se faça o Conselho.
Mestre Symm despediu-se com uma ligeira vénia e Eric esperou que este se afastasse para perguntar, confundido:
– O Conselho? Convocaste o Conselho?
Os primeiros raios de sol já devolviam os reflexos de ouro aos cabelos da sua prima, e nunca aqueles olhos lhe tinham parecido tão claros, verdes e transparentes como gotas de orvalho.
– Sim, convoquei. – Hildegaard respondeu, com a gravidade que a ocasião exigia. – Outra das nossas tradições a que nunca assististe. Mas é justo que assistas. O Conselho diz-te respeito.
Eric tinha ouvido falar do Conselho. Uma reunião de todas as pessoas importantes das Terras Verdes, e do povo também. Uma reunião absolutamente proibida a estranhos, como ele era um estranho. O que o espantava era ser convidado. Hildegaard podia muito bem ter convocado o Conselho mais cedo, ou depois de ele partir. Afinal, para que servia o Conselho? Não estava já tudo decidido?
De propósito, foram os últimos a chegar. Na maior praça da vila, ruas de gente esperavam-nos. Um simples estrado de madeira tinha sido erguido no chão, sem qualquer luxo ou adorno. As gentes das Terras Verdes eram frugais. Talvez não o tivessem sido, nos tempos em que o Unicórnio reinava, mas certamente eram-no agora.
Hildegaard subiu os degraus do estrado, e Eric seguiu-a, como lhe tinha sido pedido. Muito pouco à vontade por segui-la, onde não lhe parecia que fosse o seu lugar. O silêncio, os semblantes carregados em toda aquela gente que o fitava, diziam-lhe o mesmo. Alta e altiva, a digna soberana das Terras Verdes voltou-se para o seu povo. Ninguém pronunciava uma palavra.
– Amigos, obrigada pela vossa presença. – Hildegaard começou, mais formal e solene do que Eric alguma vez a tinha visto. Sim, aquela era a rainha que queria ter a seu lado. A soberana que já o era. Mas não estava já tudo decidido, que tal nunca aconteceria? – Todos sabeis o que nos traz aqui hoje. A minha mão foi pedida e o vosso conselho é necessário.
– Hildegaard, – ouviu-se a voz que Eric logo reconheceu, a voz da sacerdotisa, a celebrante dos rituais, algures de entre a multidão – perdoa-me, mas ele não devia estar aqui. Este é o Conselho das Terras Verdes, reservado apenas à gente das Terras Verdes.
– Deveras! – apoiou outro homem, junto dos sacerdotes, mas não um deles. – O imperador, com o devido respeito, não devia estar aqui!
– Não devia estar aqui! – começou um burburinho na praça, uns concordando, outros mandando calar os primeiros.
Eric, alguns passos atrás da sua prima, com o filho nos braços, não gostou do aspecto que as coisas levavam. E aquela gente tinha razão, não era o seu lugar, e o melhor era ir-se embora…
– Perdoai-me vós, – Hildegaard ergueu a voz acima da deles, e o burburinho cessou – mas o meu primo tem todo o direito de aqui estar. O mesmo direito que qualquer um de nós. Ele é filho de Elena, da casa do Unicórnio, filha das Terras Verdes. Se ele hoje é um estranho, não é a ele que deveis culpar. – Hildegaard já os tinha calado a todos, mas de sobrolho franzido continuou: – O meu primo veio aqui como um amigo, para conhecer os nossos costumes, respeitando as nossas tradições. Devemos-lhe o mesmo respeito. Apesar de tudo, bem sei, apesar de tudo! Nada pode desfazer o passado, e estamos aqui para deliberar o futuro.
Novo burburinho percorreu os presentes. A presença do imperador já parecia ultrapassada, mas o motivo do Conselho só agora começava a ser discutido.
– Aconselho contra esta união. – a sacerdotisa falou outra vez, séria e indignada. Eric não gostou nada de a ouvir, mas admirou-lhe a coragem. Se todos os seus inimigos fossem assim tão honestos talvez não fossem inimigos. – O nosso lugar é aqui, nas Terras Verdes, onde não somos perseguidos, onde somos livres de ser quem somos. Hildegaard, que loucura te acomete? Sabes o que nos espera lá fora. Nem devia ser necessário o Conselho para te alertar do que tão bem conheces.
– Mulher egoísta! – acusou uma voz, antes que Hildegaard pudesse responder. Uma voz que Eric conhecia também. Etha, do outro lado da multidão, ainda nas suas vestes sacerdotais. – O que espera a Hildegaard lá fora!… E o que espera a Hildegaard cá dentro, uma vida de solidão e renúncia? É isto que desejamos à nossa soberana, cuja mão foi pedida por outro soberano? Devemos adverti-la que recuse, que abdique do seu coração, para nos servir? Devemos exigir-lhe que se torne uma monja, como aquelas nos conventos lá fora?
– Não! A Hildegaard deve ouvir o seu coração! – respondeu uma jovem, loira e bonita, que Eric só conhecia por ser a filha do único taberneiro das Terras Verdes. O taberneiro seu pai, ao lado dela, não concordava nada com a filha.
– A voz da juventude! – desdenhou este, virando-se para os outros presentes. – A voz de quem não conhece o mundo, e os horrores que lá se praticam.
– Ele tem razão! – aplaudiu uma mulher mais velha. – Devemos abrir as nossas portas ao mundo, aceitar que nos persigam na nossa terra também?
– Devemos então fechar-nos, até que já não reste ninguém para perseguir, quando todos nós desaparecermos de vez? – contrapôs Etha.
Aquela era uma aliada com que Eric não contava, mas a discussão começava a ficar acesa e não queria o seu filho a ouvir aquelas coisas. Fingindo que brincava com o arco, o menino permanecia sério e de olhos baixos, pouco habituado à discórdia. Eric não o queria proteger de tudo, seria um erro protegê-lo de tudo, mas por hoje já chegava. Pousou-o no chão, com a promessa segredada:
– O pai já vem!
E o imperador aproximou-se da sua prima, que silenciosa e de expressão fechada continuava a ouvi-los, como se quisesse esperar até os ouvir a todos.
– Posso falar? – perguntou-lhe. Com um espantado encolher de ombros, Hildegaard deixou que o debate respondesse por ela, que não deviam estar na disposição de escutar um homem que na opinião deles representava o inimigo. Mas Eric não se deixou intimidar. – Posso falar?! – perguntou mais alto, à assembleia. – Sei que não é o meu lugar, mas posso falar?
Um a um, os presentes calaram-se e voltaram-se para o fitar, de olhos arregalados, como se acabasse de proferir uma afronta. Que assistisse ao Conselho era já uma transgressão, falar era inconcebível! Mas Eric não se importou. Parecia-lhe bem que aquela era a batalha que decidiria o seu futuro com a mulher que amava, e não sairia dali sem lutar por ela.
– Compreendo-vos! – aproveitou o silêncio. – Sei o suficiente para compreender os vossos receios. Perguntai à minha prima, ela dir-vos-á. Pessoalmente, não me incomoda nada. Nunca me incomodou. A vossa Deusa, o vosso dom, os vossos fantasmas, que seja! Nada disso é relevante para mim e para os meus planos. Tendes razão, não sou um de vós. Não conheço na pele o que vós conheceis, e deveis pensar que falo sem saber. Admito que sim, mas digo-vos isto: há muito tempo que penso, desde que vos conheço que penso assim, que o vosso isolamento vos é prejudicial. As pessoas temem o que não conhecem, e os vossos segredos não vos ajudam. Não digo que não vos tenha protegido no passado, concedo-vos essa sabedoria, mas não falo do passado. Falo do presente, e as coisas estão a mudar no mundo lá fora. Nunca como agora foi altura de agarrar essa mudança para vosso benefício. As pessoas temem-vos, é por isso que vos perseguem. Seguramente não vos estou a dar uma novidade! Quando as pessoas vos conhecerem deixarão de vos temer. Mas para isso é preciso que vos deis a conhecer. É este o meu conselho.
Eric calou-se, por um momento, e estudou a audiência. Ouviam. Até a sacerdotisa e o taberneiro, ouviam. Não os convencia, nem tal esperava conseguir, mas era já uma vitória. Bem, quase uma vitória. Alguém o ouvia também, alguém que o olhava de olhos incandescentes, de uma das pontas mais afastadas da multidão. Alguém que o acusava de não ter compreendido nada. Melissen, zangada, voltou as costas e abandonou o Conselho. Eric viu-a ir, e compreendeu a mágoa e o medo. Jamais as suas palavras ecoariam àqueles ouvidos. Mas ainda podiam ecoar a outros.
– Não estou aqui para abrir as vossas portas ao mundo lá fora. – continuou, para a sacerdotisa, para o taberneiro, para todos os que viam nele uma ameaça. – Não foi esse o meu acordo com as Terras Verdes, convosco, que conto como aliados desde o fim da guerra. Foi o acordo, e jamais vos pediria o contrário da minha palavra dada, nem tal me passa pela cabeça. Deixo apenas o meu conselho, que sejais vós a descobrir o mundo lá fora, e como mudou desde que o conhecestes. Mas aconselho cautela. A mesma cautela que aconselhais à minha prima. Sei o que temeis e sei que tendes motivos para temer. Mas não a mim. Não estou aqui para perturbar o vosso refúgio. Sabe Deus que todos precisamos de um refúgio de vez em quando! Era o que vos queria dizer, e agradeço por me ouvirdes. Percebo que o meu lugar não é aqui, apesar da generosidade da minha prima que me convidou como se não fosse um estranho. Sei que o sou, e respeitarei as vossas tradições como espero que respeitem as minhas. Deixo-vos, agora, ao vosso Conselho. Um bom dia para todos, ou um bom Solstício, seja como for que se diz aqui!
Terminando, Eric tornou a estudar a audiência. Não era uma vitória, mas era qualquer coisa. Era o melhor que se podia conseguir. Tudo o resto lhe escapava das mãos.
Dignamente, o imperador pegou no seu filho e desceu os degraus. As ruas de gente abriram-se para o deixar passar, e um silêncio desorientado encheu a praça.
Hildegaard esperou, como se ao longe ainda soubesse onde ele ia, e só falou quando o seu primo já não a podia ouvir.
– E agora ele ficou a pensar que convoquei este Conselho para vos pedir permissão! – explicou, com um sorriso travesso, e cruzou os braços no peito. – Não era disso que tratava este Conselho, mas o meu primo tem razão. Visitei o reino, recentemente, e vi mudança. Não a suficiente, mas vi.
– Não a suficiente, – Etha interrompeu, enérgica, para a multidão – mas é a primeira vez em muitos anos que as Terras Verdes têm um amigo. Um amigo que zela pelos nossos interesses, que zelará muito mais se os nossos interesses forem os dele!
– Basta, Etha! Já toda a gente percebeu onde queres chegar. – Hildegaard ralhou. Às vezes, por muito que gostasse daquela amiga, Etha conseguia arreliá-la. – Mas também a Etha tem razão, e isso deve pesar na vossa decisão. Gente das Terras Verdes, não estou aqui para vos pedir permissão. Lembro-me, como se fosse hoje, do dia em que neste Conselho me escolhestes como vossa soberana. Agradeço a vossa confiança e sempre farei tudo para merecer essa honra. Os argumentos foram debatidos. Todos falaram. Até o meu primo falou! Todos sabemos o que está em causa. – e Hildegaard olhou a todos, de um lado ao outro da praça. – A vossa decisão pesará na minha, como sempre pesou. Pergunto-vos, aqui e hoje: se a minha decisão for aceitar o pedido do meu primo, devemos eleger outro soberano nas Terras Verdes? Há muito tempo que o Unicórnio é senhor nestes domínios. Mas tudo muda, a vida é mudança. De tudo abdicarei se for o melhor para as Terras Verdes. Sabei isto, sabei sempre isto. O meu compromisso é convosco, sempre convosco. E agora, vamos votar.




Continua...

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

SOLSTÍCIO XII

Já publicado:
Solstício I
Solstício II
Solstício III
Solstício IV
Solstício V
Solstício VI
Solstício VII
Solstício VIII
Solstício IX
Solstício X
Solstício XI





Hildegaard acordou nos braços do seu primo e levantou a cabeça, sobressaltada. Ainda era noite lá fora, apenas uma lamparina ardia no quarto. Mais tranquila, voltou a pousar a cabeça na almofada. Não queria faltar ao ritual da madrugada, nem tinha sido sua intenção adormecer, mas o sono vencera-a, e o conforto naqueles braços… Baixinho, a voz no seu íntimo perguntava também: porque não?
Suavemente, Hildegaard esgueirou-se para fora da cama e o frio no quarto arrepiou-lhe a pele nua. Depressa, vestiu-se. Era hora de acordar Eric também, mas ele dormia tão profundamente, tão serenamente.
O silêncio era completo. Nem os ramos das árvores se ouviam naquela noite sem vento. Hildegaard aproximou-se da janela e contemplou a escuridão. Nada se via lá fora, até a lua já se tinha escondido. Era deveras a hora das trevas, a hora mais escura da noite mais longa. A hora de se recolher dentro de si própria, e ouvir.
Há mais de um ano que Eric insistia. Por duas vezes a tinha pedido em casamento, por duas vezes tinha dito não. Mas nessa noite, naquele quarto, Eric tinha-a olhado nos olhos, e já não era tão insistente a pergunta: porque não?
– A minha liberdade. Não quero perder a minha liberdade. – Hildegaard tinha respondido, e já não era tão convicta a resposta.
Mas algo tinha acontecido, dessa vez, nos olhos profundos do seu primo. Uma aceitação, um resignar, um desistir. Eric tinha compreendido, e com um beijo nada mais disse. Não voltaria a perguntar.
Hildegaard surpreendeu uma lágrima que lhe escapou pelo rosto abaixo. E agora ele partiria, e agora diriam adeus, e aquele amor transformar-se-ia em memória. Eric teria uma vida, lá longe, no reino, mas já não havia vida nas Terras Verdes. Hildegaard sabia, como todos sabiam, que já não era vida o que os animava. Era repetição, era vazio, eram como aqueles fantasmas errantes que nem sabiam que estavam mortos.
Que vida era aquela, em que não vivia? Que liberdade, em que se aprisionava? Sim, era a última vez. A última vez que amava, a última vez que escolhia, a última bifurcação no caminho. O vazio, familiar e seguro, ou o futuro, imprevisível e desconhecido, que era a vida.
Que confusão era aquela agora? Hildegaard julgava já ter escolhido. Que indecisão era aquela, em que sensatez e cobardia se confundiam?
Ao longe, os cânticos recomeçaram. Uma fila de archotes, na noite escura, já subia a colina. E tudo era vazio, e tudo tinha perdido o significado.
Hildegaard sentou-se na cama e gentilmente abanou o seu primo.
– Acorda. Temos de ir à cerimónia. As Boas-Vindas, a última cerimónia do Solstício.
– O quê? – Eric perguntou, esfregando os olhos. – Mas ainda é de noite!
– Já não será noite por muito tempo. O Sol vai nascer. Vamos dar-lhe as boas-vindas.
Eric esforçou-se por acordar completamente e soergueu-se da almofada, espantado e confuso.
– Pensei que isso tinha sido ontem…
– Não. Ontem celebrámos a noite, hoje celebramos o dia. Acorda. É a Vigília. Nem devíamos ter adormecido! – e Hildegaard sorriu, divertida. A última coisa que o seu primo queria fazer era sair daquela cama, mas corajosamente conformava-se. – Vou acordar o menino. Quero que ele assista.
Hildegaard já se levantava, quando Eric lhe pegou no pulso. Completamente acordado, lia-se-lhe nos olhos que recordava aquele pedaço de noite, aquele pedaço de longínqua memória que em breve seria o que tinham partilhado naquela cama. Suavemente, quase numa despedida também, Eric aproximou-se e beijou-a nos lábios. E era só, e era tudo.
E era o fim. Amargo e doloroso. Hildegaard sacudiu a cabeça, como se falasse consigo própria. Era mesmo o que queria para a sua vida, solidão e vazio? No caminho, a bifurcação fechava-se, fechava-se, e o tempo esgotava-se. No seu íntimo, no seu coração, teria já escolhido?
– Apressa-te, não temos muito tempo. – recordou ao seu primo, e saiu do quarto.




Continua...

 

domingo, 18 de dezembro de 2016

SOLSTÍCIO XI

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Solstício X





A cerimónia acontecia no meio da floresta. Sob um crescente de lua brilhante que não bastava para iluminar a noite, Hildegaard guiou o seu primo por entre as árvores como se conhecesse o atalho de olhos fechados. Levavam dois archotes, mas apagados. Uma exigência da cerimónia, ao que parecia. A alumiar o caminho, Hildegaard usava apenas uma lanterna de barro. Outras luzes, no escuro da floresta, longe e perto, informavam que mais gente se encaminhava para o mesmo sítio.
Os cânticos provinham da clareira em frente. Ao chegar, as pessoas apagavam as lanternas e espalhavam-se em círculo à volta dos celebrantes. Hildegaard apagou a sua lanterna também e espetou o archote no chão.
No centro, Eric vislumbrou pela primeira vez as figuras que cantavam. Homens e mulheres, vestidos numa espécie de hábito azul-escuro, como monges, até no capuz que lhes escondia as feições. Aparentemente, eles e elas na mesma função. Padres? Sacerdotisas? Eric não sabia como lhes chamavam ali.
Também estes se dispunham em círculo, em redor de uma grande pedra rectangular, branca e polida, que devia servir de altar. Quando os cânticos terminaram, uma das mulheres descobriu a cabeça grisalha e pegou na pequena candeia sobre a pedra. Imediatamente todas as outras luzes se apagaram. Tinha começado.
A mulher, alta e magra, escondeu nas duas mãos a pequena chama que quase morria num último sopro azulado. Tudo ficou escuro, tudo ficou em silêncio ao frio luar.
– Esta noite celebramos as trevas. – disse a mulher, majestosa, litúrgica, a voz forte e grave para que chegasse a todos os presentes. – Tal como a semente germina na escuridão, possa a nossa alma florescer nas horas mais sombrias. Esta noite celebramos as trevas.
Esta noite celebramos as trevas, repetiram todos, Hildegaard com eles.
Eric tentou não se sobressaltar, pela primeira vez pouco à vontade com o aspecto estranho e desconhecido daquilo tudo. Quantas pessoas poderiam estar à volta daquele círculo, e na escuridão das árvores? Cem, duzentas? Mais? O coro de vozes era intimidante o suficiente.
– Esta é a noite mais longa, mas amanhã o dia vence a noite. – continuou a mulher, e abriu as mãos. A pequena chama estremeceu e reluziu mais forte, iluminando-lhe o rosto enrugado de anciã. Erguendo os braços, a celebrante levantou a candeia acima da cabeça. – Amanhã, o dia vence a noite!

Amanhã, o dia vence a noite!

– Não temamos a noite mais longa, o fim de mais um ano, mas aprendamos dela a renascer das trevas. Esta noite celebramos as trevas e acolhemos o inverno nos nossos corações. Tal como a terra guarda a noite da semente, recolhamo-nos dentro de nós mesmos para frutificar mais tarde. Esta noite celebramos o inverno.

Esta noite celebramos o inverno.

– Nesta noite de vigília, lembramos as trevas e esperamos o sol.

Esperamos o sol.

Dois homens e duas mulheres de capuz aproximaram mechas à chama que a sacerdotisa segurava, e afastaram-se em diferentes direcções. Os outros pegaram nos sinos também disponíveis no altar.
– Agradecemos a terra! – exclamou a anciã, e os sinos tocaram, e à sua frente um dos quatro celebrantes avançou até à lenha previamente disposta em círculo no chão. Agradecemos a terra, todos repetiram, e o lume foi aceso. – Agradecemos a água! – a mulher comandou, voltando-se para a sua esquerda, e os sinos tocaram, e todos repetiram, e outra fogueira foi acesa à sua frente. – Agradecemos o fogo! Agradecemos o ar!
Quando a sacerdotisa tinha descrito uma roda completa, todas as fogueiras ardiam. Quatro círculos de fogo como os extremos de uma cruz.
– Um crucifixo? – Eric segredou ao ouvido da sua prima, abismado.
– Os quatro pontos cardeais. Norte, oeste, sul, leste. – respondeu Hildegaard, e levou o dedo aos lábios para o calar.
– Agradecemos o inverno, – retomava a anciã – agradecemos a noite, agradecemos o dia, agradecemos a mudança e a perenidade, o ciclo eterno. Na Grande Deusa nascemos e morremos, morremos e renascemos, e a ela retornamos. Como a terra, morremos, como o sol, renascemos.

Como o sol, renascemos.

– Nesta noite de vigília esperamos o sol, acolhemos o novo ano e agradecemos os frutos do ano que findou.
Todos os celebrantes tomaram nas mãos um género de facas, talvez adagas cerimoniais, e Eric franziu o sobrolho. No que se tornou a parte mais familiar de todo o ritual. Entre a cruz das quatro fogueiras, a mulher falava agora de agradecer o pão, e as pessoas aproximavam-se dos celebrantes, em fila, entregando-lhes um pão. Os sacerdotes cortavam-no ao meio e devolviam-no, como se benzido. Essa cerimónia durou algum tempo, até a fila acabar, e depois a mulher falou de agradecer o vinho, e logo todos os celebrantes apareceram com jarros, e dirigiram-se a cada um dos presentes e encheram-lhes os pequenos copos que estes tinham trazido. Surpreendido, Eric aceitou o copo que Hildegaard lhe fornecia, prevenida, e o vinho que o sacerdote lhe serviu dentro dele.
– Prima, isto já parece uma missa! – confessou-lhe num murmúrio.
Hildegaard apenas sorriu, mas depois as memórias traíram-na. Tinha temido que o seu primo reagisse chocado com o que via, que os julgasse um maligno bando de incréus, mas sim, parecia uma missa. Parecia mesmo uma missa. E a ideia, a absurdidade de tudo aquilo, saltou-lhe para fora num riso que não conseguiu controlar.
Todos se voltaram para ela, homens e mulheres e celebrantes, indignados. Hildegaard disfarçou e baixou a cabeça, tentando não rir mais. Os olhares desviaram-se para o imperador, a má influência que fazia rir a sua prima durante um ritual sagrado! Eric quase os podia ouvir, sem falarem. Era de todas a sua última intenção, causar problemas à sua prima por causa da religião, ou o que quer que aquilo fosse, e prometeu a si próprio não tornar a abrir a boca.
Felizmente, o que a sacerdotisa fez a seguir já não lhe inspirava gracejos. Agora a mulher falava de devolver à terra o fruto da terra, fosse isso o que fosse, e despejou sobre o altar um odre de vinho. O líquido escorreu vermelho, escuro e denso à luz do fogo. Eric quase adivinhou que não seria vinho o que dantes derramavam sobre aquela pedra. Mas nem quis perguntar.
Os celebrantes lançaram em cada fogueira um punhado de ervas, pelo cheiro um incenso aromático, e chamas azuis subiram no ar.
– Nesta noite de vigília celebramos as trevas! – reiterava a sacerdotisa, tal como na igreja. – Na Grande Deusa morremos e renascemos, como esta noite morre e o sol renasce. Celebremos as trevas antes da luz, que a luz já se aproxima!

A luz já se aproxima!

– Levai convosco a luz!
Tinha terminado, ao que parecia, porque Hildegaard, e todos os presentes, pegaram nos archotes apagados e foram acendê-los nas quatro fogueiras. As conversas e os risos regressaram, como acontecia a seguir à missa, e tal como na igreja os conhecidos cumprimentavam-se e trocavam beijos e abraços. Os sacerdotes e as sacerdotisas descobriram o rosto, e depois da liturgia pareciam tão comuns como os restantes.
Eric deixou cair o queixo de espanto ao reconhecer Etha entre eles. Fosse ela quem fosse, a mulher sem pêlos no rosto, era importante nas Terras Verdes. Jamais teria adivinhado.
Hildegaard não se demorou nos cumprimentos. Eric suspeitava mesmo que o lugar dela naquele ritual não era tão distante do círculo. Mas compreendia-se. Nessa noite Hildegaard tinha por missão acompanhá-lo, apenas um observador. Só pela mão dela teria presenciado o cerimonial.
Algumas pessoas ficavam, outras começavam a ir-se embora. Com os dois archotes acesos, Eric e Hildegaard seguiram também o seu caminho.
Desta vez, temendo o resultado, o imperador tomou toda a cautela ao falar, já muito longe da clareira, onde já reconhecia as imediações do castelo.
– E agora isto parece uma procissão! – tornou a gracejar, apontando o archote.
Hildegaard riu, e recordou o outro riso embaraçado durante a cerimónia. Conseguia rir-se tanto e tantas vezes quando estava com ele. Seria tão difícil renunciar a esse riso.
– Então, deixa-me ver se compreendi. – Eric considerou, estreitando os olhos como se precisasse de se concentrar. – É a luz do sol que levamos para casa nestes archotes!
– Bem, não é a luz do sol…
– É a luz que nos lembra de que o sol regressará, para não termos medo do escuro.
Hildegaard não chegou a responder. Outra gargalhada a impediu.
– E o vinho simboliza os sacrifícios de sangue, quando cortavam a garganta a qualquer desgraçado em cima daquela pedra. Confesso, por uns instantes tive medo que esse desgraçado fosse eu.
Eric gracejava, ou talvez não gracejasse, e já não era motivo para rir, mas Hildegaard tinha aprendido a entender aquele sentido de humor. Nem todos o entendiam.
– Só não percebi quem é a Grande Deusa. – meio a brincar, Eric admitiu a sua perplexidade. – Quem é a Grande Deusa?
Hildegaard parou de rir, somente um sorriso lhe permanecia nos lábios, ponderando antes de esclarecer:
– A Grande Deusa é o teu Deus. São o mesmo, porque só há Um. Eric, todos aqui estamos convertidos. Muitas das nossas práticas foram inspiradas nas da Igreja, e o contrário também. Era inevitável. O antagonismo não faz sentido. Mas vai dizer isso à tua Igreja!…
Por um bocado, caminharam em silêncio. O castelo já se avistava ao luar quando Eric indagou, pensativo:
– Prima, acreditas em Deus? Nunca te perguntei porque não é importante. Mas estou curioso.
Era estranho, que alguém que dizia falar com os mortos demorasse tanto a responder. Novamente Hildegaard tomou o seu tempo, e uma seriedade diferente acompanhou-lhe as palavras.
– Não sei no que acredito. – admitiu por fim. – Às vezes penso que somos postos no mundo sozinhos e às escuras, de propósito para nos obrigar a encontrar o nosso caminho.
A resposta surpreendeu o imperador. A profundidade, na sua prima, uma profundidade que nem sempre se adivinhava dela, porque a calava para si, porque só cautelosamente a revelava, ainda o deixava boquiaberto. Mais encantado do que boquiaberto.
– Sim, sem dúvida. É melhor que encontremos o nosso caminho ou outros se apressarão em encontrar um caminho para nós. – Eric meditou, numa profundidade mais amarga.
Os archotes ficaram à porta. Hildegaard tinha planos para eles, mais tarde, mas por agora não queria desencorajar o seu primo. O Solstício ainda não tinha chegado ao fim. Havia mais, de madrugada.
– Apetece-me beber o resto daquela aguardente que deixámos a meio. – disse ele, e já se encaminhava para o salão.
Hildegaard pegou-lhe no braço.
– Estamos sozinhos. – segredou-lhe, olhos nos olhos. Não o deixaria partir sem uma despedida. Podia ser a última vez que olhava assim aqueles olhos, azuis e profundos. Porque quando dissesse não, o definitivo não, aqueles olhos pertenceriam a outra mulher, qualquer outra com quem o seu primo teria de casar, e a mera ideia a agoniava por dentro. Não suportaria partilhá-lo. Não tinha nascido, orgulhosa e altiva, capaz de partilhar. Mas não precisava de o partilhar ainda. A noite era longa, ainda havia tempo. – Estamos sozinhos. – repetiu, no silêncio, e deixou que os olhos lhe dissessem tudo. O castelo era deles, a noite era deles, o silêncio um aliado. Ninguém a ouvir, ninguém a julgar.
Eric compreendeu, naqueles olhos sérios que o chamavam, e seriamente, suavemente, acariciou-lhe o rosto. Não era o que queria, e era o que mais queria. Não só uma amante, mas tanto mais que isso. Entristecia-o, dizer adeus. Porque perguntaria, mais tarde, perguntaria de novo, mas já tinha perguntado tantas vezes e a resposta era sempre a mesma.
Hildegaard aproximou-se, e o seu beijo leve espantou-lhe a tristeza. Oh, ela cheirava… A floresta. A ramos verdes e bravios, e a ouro. Eric enlaçou-a nos braços e deixou que os dedos lhe percorressem aqueles cabelos da cor de ouro antigo, da cor dos seus. Demasiado próximo, o sangue que os unia? Nem lhe importaria, se o fosse, mas o verde daqueles olhos dizia-lhe que não. Não demasiado próximo. Era ela a mulher que amava, a mulher que desejava, a que nascera para reinar ao seu lado. Agora Eric sabia, tinha a certeza, e os pensamentos calaram-se-lhe nos beijos que o entonteceram. A noite era longa, podia pensar depois.




Continua...