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segunda-feira, 9 de junho de 2025

“Lethes”, novo livro de D. D. Maio – PUBLICADO!


“Lethes”, um livro de D. D. Maio, encontra-se disponível em papel e ebook (formato epub).

Link: www.bubok.pt/livros/268378/lethes

Sinopse

Reena dá o último passo em direcção ao abismo. Etha faria tudo para conseguir segui-la, se lhe fosse permitido. Duas mulheres tão opostas, ambas anseiam por beber das águas do esquecimento.

Mil anos antes
Um rapaz órfão cria três águias que salvou de um penhasco. Alvo de admiração pelo feito improvável, a sua lenda não termina aqui. Já homem maduro e mercador experiente, decide expandir o comércio às tribos bravias a norte do Antigo Império. Todos o consideram insensato mas nada demove a ambição de quem escalou falésias. Em terras pagãs, conhece uma jovem sacerdotisa caída em desgraça. O novo reino que emerge dos escombros do passado nunca mais será igual.


“Lethes”, um drama em Low Fantasy com grande componente sobrenatural, continua a série iniciada em "Nepenthos", "Miasma", "Solstício" e "Elysion".


LETHES
© 2025 D. D. Maio
Formato papel: 150 x 210 mm
Nº de páginas: 244
Bubok, print on demand
*
Formato ebook em epub

 Disponível em www.bubok.pt
www.bubok.pt/livros/268378/lethes


Contacto: d.d.maio.email@gmail.com
Página: ddmaio.blogspot.com


A autora agradece desde já toda a divulgação, resenhas/reviews e avaliações no Goodreads.
www.goodreads.com/author/show/19718238.D_D_Maio


domingo, 25 de maio de 2025

“Lethes”, novo livro de D. D. Maio – BREVEMENTE!

LETHES
Sinopse

Reena dá o último passo em direcção ao abismo. Etha faria tudo para conseguir segui-la, se lhe fosse permitido. Duas mulheres tão opostas, ambas anseiam por beber das águas do esquecimento.

Mil anos antes

Um rapaz órfão cria três águias que salvou de um penhasco. Alvo de admiração pelo feito improvável, a sua lenda não termina aqui. Já homem maduro e mercador experiente, decide expandir o comércio às tribos bravias a norte do Antigo Império. Todos o consideram insensato mas nada demove a ambição de quem escalou falésias. Em terras pagãs, conhece uma jovem sacerdotisa caída em desgraça. O novo reino que emerge dos escombros do passado nunca mais será igual.

“Lethes”, um drama em Low Fantasy com grande componente sobrenatural, continua a série iniciada em "Nepenthos", "Miasma", "Solstício" e "Elysion".

terça-feira, 21 de junho de 2022

“Vanda”, novo livro de D. D. Maio – PUBLICADO!

“Vanda”, um livro de D. D. Maio, encontra-se disponível em papel e ebook (formato epub).

Link: www.bubok.pt/livros/267076/Vanda

Sinopse

Vanda é uma jovem inocente quando a guerra lhe bate à porta. Ainda é verão, mas a escuridão aproxima-se. O mundo simples e protegido que conhece já começa a fugir-lhe de debaixo dos pés. Muito em breve, Vanda terá de perceber até que ponto está disposta a transformar-se no seu oposto se quiser sobreviver à viagem tortuosa que a espera.


“Vanda” é um drama romântico em Low Fantasy. O enredo contém elementos de erotismo e violação explícita que podem ferir a susceptibilidade de alguns leitores.
Da mesma série iniciada em “Nepenthos”, a acção de “Vanda” passa-se depois de “Nepenthos”, “Miasma”, “Solstício” e “Elysion”, mas a história pode ser lida como livro autónomo.

VANDA
© 2022 D. D. Maio
Formato papel: 150 x 210 mm
Nº de páginas: 220
ISBN: 978-84-685-6639-9
Bubok, print on demand
*
Formato ebook em epub
ISBN: 978-84-685-6640-5
Disponível em www.bubok.pt


www.bubok.pt/livros/267076/Vanda


Contacto: d.d.maio.email@gmail.com
Página: ddmaio.blogspot.com


A autora agradece desde já toda a divulgação, resenhas/reviews e avaliações no Goodreads.
www.goodreads.com/author/show/19718238.D_D_Maio


sexta-feira, 5 de março de 2021

BETA READERS para “Elysion”: Low Fantasy, Drama, Romântico, Filosófico

Chegámos ao momento trepidante em que “Elysion” está pronto para beta reading.
“Elysion” é o novo livro de D. D. Maio. A história passa-se a seguir a “Nepenthos”, “Miasma” e “Solstício”. Não é necessário ter lido estes títulos para acompanhar “Elysion”, embora o contacto prévio com a série iniciada em “Nepentos” torne a leitura mais satisfatória.


SINOPSE (provisória, por agora, bem como a capa que ilustra o post)

Quanto tempo pode durar a felicidade? Ainda é verão, paraíso breve. Reena e o imperador encontram-se no jardim do novo palácio para debaterem filosofia. Depressa a conversa se volta para o passado. Eric, o imperador, sempre pensou que tinha travado uma guerra para sobreviver. Na verdade, o que queria era despeitar o seu pai.
Reena só queria ser uma rapariga como as outras.
Axel só queria ser alguém.
Camilla e Alexander queriam o que não podiam ter.
Gherrard e Sunya já tinham tudo o que queriam.
Hildegaard, sem nada querer, conseguiu esvaziar a sua vida.
Rosa só desejava um lar onde pertencer.
Rurik queria de volta o lar que perdera.
Kelma queria escapar para lá do seu horizonte.
Selma queria poder.
Elena queria vingança.

§


O original tem 203 mil palavras. Para beta reading, sugiro começar pelas primeiras 13.500, e logo se vê como decorre o processo. Aceito todas as opiniões, críticas e comentários, e, sabem os que já me conhecem, não protesto.
Como autora, estou disponível para reciprocar o beta reading com outros autores.
Não costumo apontar deadlines, mas ainda tenho esperança de publicar esta história em Junho. Muito vai depender da disponibilidade e rapidez dos queridos beta readers que aceitarem o desafio.
Os beta readers mais dedicados serão mencionados nos agradecimentos do livro, se assim o desejarem.

O que faz um beta reader?
O beta reading ainda é pouco conhecido entre nós. Muitas pessoas me têm perguntado o que faz exactamente um beta reader. De modo muito simples, um beta reader lê o manuscrito antes de este ser publicado e aponta tudo aquilo que escapou ao autor: desde gralhas insignificantes a plot holes do tamanho de crateras. Das opiniões, comentários e elogios dos beta readers, o autor fica com uma percepção exterior de como o seu trabalho está a ser recebido que o vai ajudar a melhorar o manuscrito e a escrita futura. Quanto maior a honestidade dos comentários, mais estes ajudam.
O autor tem de ter a maturidade de aceitar e agradecer as opiniões (concorde ou não com elas), mas por outro lado os comentários devem ser construtivos. São estes os mais úteis. Pessoalmente, todos os comentários me têm sido úteis, até aqueles mais difíceis de “decifrar”. Um bom beta reader vale o seu peso em ouro.
Para um autor, o beta reading é simplesmente a melhor maneira de evoluir. E não me refiro apenas aos “iniciantes”. Todos os escritores consagrados (mas mesmo todos) têm beta readers e/ou editores que fazem esse papel. Fazer beta reading a outro autor tem a grande vantagem de permitir comparar a escrita que se está a analisar com o próprio trabalho e reconhecer os erros naquilo que não funciona (ou, melhor ainda, descobrir como evitá-los).
Para um leitor, e aqui falo como beta reader que sou também, os proveitos são óbvios. Graças ao beta reading já li vários livros excelentes que não teria conhecido de outra maneira (e de borla, não considerando o “pagamento” em trabalho da minha parte, porque o beta reading dá trabalho e leva tempo). Sempre que tenho disponibilidade e o género me é agradável, ofereço-me.
 
Os interessados podem contactar-me directamente através do email d.d.maio.email@gmail.com, ou deixar o vosso email em comentários para receberem as páginas iniciais do manuscrito.
Até breve!

domingo, 20 de setembro de 2020

Miasma - Capítulo II





Um simples muro rodeava o castelo. Tinha havido muralhas, em tempos, destruídas durante a guerra. Ainda se lhes viam as ruínas, aqui e ali, encobertas pela verdura da montanha. Eric não parecia interessado em mandá-las reconstruir. Há muito tempo que as batalhas se travavam em terreno aberto. Já ninguém sitiava castelos.
Os portões não estavam apenas abertos. Estavam escancarados. Nem um guarda os vigiava. Eric semicerrou os olhos, como costumava fazer quando algo lhe desagradava. Mas desta vez não estava irritado.
– O Rurik avisou-me disto. Os guardas têm-se afastado do castelo. Os criados também. É o miasma que os faz fugir, prima.
Hildegaard tinha reparado, ao longo do caminho desde a vila até ali, que cada vez se via menos gente nos campos. Perto do castelo, tudo estava deserto. Mas não houve oportunidade de responder. A carruagem já parava no pátio. Eric saiu, com o filho ao colo, sem nenhuma alegria por estar em casa.
Atrás dele, Hildegaard desceu o degrau da carruagem e deitou um olhar demorado à residência do imperador. Esperava mais. O castelo era grande, muito maior do que os castelos das Terras Verdes. Mas talvez o tivesse imaginado ainda mais majestoso. A morada da família do Urso que tinha expulsado a sua do trono. Por outro lado, talvez tudo parecesse pequeno a quem acabava de passar uma temporada no palácio do duque Alexander. Pequeno e tacanho e decrépito.
Dali do pátio, já não se viam as farripas de estranha neblina que avistara ao longe. Estava lá. Sem dúvida que estava lá. Mas tinha-se escondido. Agora tudo parecia envolto numa névoa pardacenta, como se o próprio ar fosse cinzento. Ninguém diria que não era um fim de tarde habitual àquela altura do ano, mas todos o sentiam.
Eric pousou o menino no chão e avançou até ao casal que o recebia à entrada principal. Hildegaard julgou que eram os criados.
– Quem sois vós? – perguntou-lhes ele, de sobrolho franzido. – Onde estão os outros?
– Sou o Hankle, irmão da Nannaka. Esta é a minha mulher, Wilhelmina. – disse o homem. – Os outros estão na vila. Estamos aqui a fazer-lhes um favor.
O homem olhou em volta, à estranha que era Hildegaard, aos guardas da escolta, e hesitou em continuar. Atrapalhado, baixou os olhos. Hildegaard tinha conhecido Nannaka em Dois Portos. Antiga cozinheira do seu primo. Loira, olhos azuis, muito bonita. Agora reconhecia as parecenças. Os mesmos olhos, o mesmo cabelo. Mas o irmão, coitado, não era bonito. Forte e entroncado, era a versão feia da irmã, como acontecia tantas vezes. Se não soubesse já, Hildegaard teria adivinhado que era um camponês, pelos modos e a rudeza. Ao lado dele, a mulher magra, de cabelos castanhos apanhados atrás da nuca, parecia mais velha do que era. Pareciam-no ambos, embora devessem andar pelos trinta anos. Mas havia uma bondade no rosto dela, uma doçura nos seus olhos escuros, que Hildegaard não tinha visto a mais ninguém naquelas partes.
– Um favor? – insistiu Eric, boquiaberto.
O homem hesitou de novo, mas acabou por explicar, em voz sumida:
– Os outros pediram-nos que ficássemos aqui a passar a noite. Não querem dormir no castelo. Por causa dos barulhos.
– Agora há barulhos?!… – Eric empalideceu.
– Nada que nos incomode. Mas os outros têm medo. – o homem encolheu os ombros, como se lhes chamasse tolos.
– Nós não temos medo da senhora. – disse a mulher, sorrindo a Eric, julgando que dizia algo agradável. – Uma senhora tão amável e bonita, como a vemos no retrato, não pode querer mal a ninguém.
Eric empalideceu mais. Falavam de Micenne, a mãe do menino. Pensavam que era ela o fantasma. Hildegaard observou o seu primo, cada vez mais transtornado. Se a mesma suspeita o tivesse assaltado, tinha-a mantido em segredo. Talvez, na dor do luto, desejasse que fosse Micenne quem ainda permanecia no castelo. Hildegaard tinha-o visto muitas vezes, como ao perder alguém querido as pessoas preferiam o seu fantasma à completa ausência.
– Vou à vila chamar os outros. – ofereceu Hankle, no silêncio do imperador. – Disseram-nos que o senhor avisa sempre com antecedência quando está para chegar, mas desta vez não avisou. Não estávamos à espera. Mas aquele homem esteve aqui, o Rurik, e disse que agora todos somos livres. Por isso eles não pediram permissão.
– Foram-se embora? – Eric perguntou, um tom de sobressalto na sua voz. Sim, tinha abolido a servidão no seu castelo, mas subitamente temia ficar sem criados.
– Não se foram embora, meu senhor. Só não dormem no castelo por causa dos barulhos. Eu vou buscá-los.
– Espera! – Eric tentou recompor-se. Eram muitos choques ao mesmo tempo. – Trago uma convidada. A minha prima, a princesa Hildegaard. Temos de instalar-nos. Precisamos de comida e de lareiras acesas.
O homem e a mulher deixaram cair o queixo e por longos momentos não tiraram os olhos de Hildegaard. O imperador tinha uma prima, uma princesa! Ninguém ali sabia. Hildegaard tentou sorrir, para ser bem-educada. Não lhes estranhava o espanto. Durante anos tinha feito tudo para que a esquecessem. Mas não contava que Eric a anunciasse como princesa, e envergonhou-se do seu vestido velho e gasto, de um pano rijo de que já não se reconhecia a cor. Verde musgo. Tinha sido verde musgo. Que bela figura de princesa dava de si própria. Mas pelo menos trazia um vestido. Não se atreveria a usar roupas de homem por ali, as calças e o casaco largo que trazia na trouxa, um disfarce para viajar sem ser incomodada. Naquelas terras, podia ser suficiente para ser acusada de bruxaria.
– Eu tenho sopa. – declarou a sorridente Wilhelmina, e voltou-se para o menino com carinho na voz: – Tens fome, pequenino? Vem com a Wilhelmina!
Notava-se que a mulher gostava de crianças, mas Eric tinha razões para a desencorajar:
– O meu filho rejeitou as amas. Ele não…
O menino apenas hesitou uns instantes. Olhou a mulher, como se a medisse de alto a baixo, e correu para ela no seu passinho de bebé. Deixou que lhe desse a mão e entrou com ela pela porta da cozinha. Eric não disse mais nada, de tão abismado.
– Eu vou já acender as lareiras. – Hankle assegurou, e entrou também.
Os homens da escolta já tinham começado a descarregar as bagagens e a recolher os cavalos ao estábulo. Hildegaard viu que alguém já levava o seu, um belo cavalo ruço, da cor da neve a derreter entre pedras cinzentas. Eric estendeu-lhe o braço, convidando-a a entrar. Com um sorriso, Hildegaard subiu a escadaria da entrada e cruzou o limiar da porta.
E algo não a considerava bem-vinda. Hildegaard sentiu o frio, como um dedo gelado a perfurar-lhe o estômago. Custou-lhe reprimir um gemido. Eric não se apercebeu, entretido a apontar-lhe o caminho para o salão do castelo. Hildegaard respirou fundo e olhou antes as sombras. Já havia uma lamparina acesa no vestíbulo, mas quase nada alumiava. A presença, densa à volta deles, amortecia a luz. Pelos Céus, o seu primo tinha razão. Havia algo ali!
Eric já parecia esquecido, habituado ao desconforto. Na sala ainda começou a despir a longa capa de inverno, mas estava tanto frio que mudou de ideias.
– Vamos esperar que o homem acenda a lareira. – disse a Hildegaard, e inspeccionou o salão fechado há meses. E notava-se que há meses não via limpeza. Eric suspirou, para não se enfurecer como noutros tempos, mas virou-se para a sua prima e levantou os braços. – Vês o que eu tenho de aturar? Já nem sei quem é que trabalha na minha casa! Chego aqui e encontro dois estranhos. Aqueles imbecis nem perceberam o que significa a liberdade que lhes ofereci. Devem julgar que podem fazer o que lhes der na gana! Oh, prima, como tenho falhado com estes mandriões!
– Acalma-te, primo. Não é caso de vida ou de morte.
Hildegaard sabia que a raiva do seu primo para com os criados era antiga. Desde infância, quando os tinha rejeitado a todos. Entregue aos criados por uma mãe que o rejeitara a ele. Mas já era altura de separar o passado do presente.
Sobre a grande lareira, como era costume, exibia-se o brasão do Urso, reluzente, negro e cor-de-sangue. E ainda assim não ofuscava o retrato na parede, bem colocado onde todos o podiam admirar. Hildegaard aproximou-se, curiosa. Como ela tinha sido bela, Micenne. Jovem e esguia. Os cabelos loiros entrançados em complicados padrões de madeixas e veludo azul. Um azul igual ao do vestido, bordado a prata no decote. O sorriso era doce, os olhos ternos. O artista tinha-a pintado com o menino nos joelhos, a perfeita imagem da boa mãe. Não seria só uma imagem, Hildegaard tinha a certeza. Eram dela os cabelos do pequeno Eric, claros como trigo. O menino não herdara o loiro escuro do seu primo, de uma cor invulgar, como ouro velho. Uma cor que Hildegaard via no espelho ao pentear-se. Um legado de família, inconfundível. Tinham outros traços em comum. Diziam que eram tão parecidos que podiam passar por irmãos. Mas os olhos dele eram de um azul profundo, como um céu de verão ao anoitecer, e Hildegaard tinha olhos verdes. Devia-os à sua mãe.
Hildegaard ia comentar, quando se voltou para o seu primo. Também ele contemplava o retrato. Os olhos cintilavam-lhe de lágrimas, daquela maneira que choravam todos os que não viam a pessoa amada há muito tempo. Daquela maneira que lembravam que não a veriam nunca mais.
Comovida, Hildegaard deu-lhe o braço. Eric estendeu uma mão sobre a dela e por instantes partilharam o silêncio do luto. Dois lutos, para ele, e como devia ser avassalador.
– Não é ela. – murmurou-lhe Hildegaard, baixinho. – Tinhas razão, está aqui qualquer coisa, mas não é ela. Onde ela está, está em paz. Acredita nisto.
Eric levantou a cabeça, o rosto desconsolado. Talvez tivesse mesmo desejado que fosse ela. O luto fazia coisas estranhas às pessoas.
O homem entrou no salão, os braços carregados de lenha. Com os seus modos bruscos, não disse uma palavra nem olhou para eles. Hildegaard teve pena da mulher na cozinha. Não parecia merecer um marido tão abrutalhado. Mas talvez ele fosse diferente com ela, quando estavam sós. Tantas coisas eram diferentes do que pareciam.
Eric limpou as lágrimas, disfarçadamente, e começou a falar com o homem. Sobre o que se tinha passado na sua ausência, sobre os outros criados, sobre a vila. O menino tinha ficado na cozinha, talvez a comer a sopa.
Hildegaard deu uns passos pela sala e aproximou-se da porta para o corredor. Cada vez mais frio, ao aproximar-se. Todo o castelo cheirava a frio, se o frio tivesse cheiro. Hildegaard esfregou os braços para se aquecer e viu o seu bafo no ar. Também acontecia com as visitas do Outro Lado, às vezes, mas aquilo era diferente. Aquilo, Hildegaard nunca tinha visto.
Aproveitou que Eric estivesse entretido com a conversa e saiu para o corredor. Imediatamente, o ar adensou-se à sua volta. Tinha sido reconhecida, e que era uma ameaça.

Não tens poder sobre mim. Ordenou. O ser das trevas recolheu-se à sua passagem como uma cobra sobre si própria.



Continua.

O conto “Miasma” está disponível para download gratuito AQUI.

domingo, 6 de setembro de 2020

Miasma - Capítulo I





Eu devia ter ido para casa. Hildegaard olhou pela janela da carruagem. A estrada da vila real era larga e suave às rodas, mantida em excelentes condições. Árvores antigas ladeavam-na, altas e soberbas, mas em tempos mais recentes muitas teriam sido sacrificadas às bermas simétricas que delimitavam o caminho. A paisagem outonal tinha os seus encantos, com os seus ramos despidos contra o céu cinzento. Nada da floresta bravia e perene a que Hildegaard chamava lar, mas bonito.
A brisa fria começava a incomodar e Hildegaard apertou o manto de lã em torno dos ombros. Não devia estar ali. Apenas por uns dias, tinha dito o seu primo, três meses antes. Mas tanto tinha acontecido, e a estadia em Dois Portos tinha-se prolongado. Finalmente, regressavam. Se tivesse tomado a bifurcação na encruzilhada já estaria em casa. Hildegaard nem sabia que insensatez a levara a mudar de ideias a meio da viagem. A vila real era perigosa. As pessoas tacanhas e rudes. Ali queimavam-se bruxas. Devia ter ido para casa.
No banco em frente, Eric e o menino estavam silenciosos e sisudos. Ambos com a cara de quem ia para um castigo. O castelo aproximava-se e notava-se-lhes a apreensão nos olhos. Hildegaard observou-os atentamente. Então o seu primo estava mesmo convencido de que havia qualquer coisa no castelo. Uma presença, tinha ele dito. Uma escuridão, um gelo em todos os aposentos mesmo com as lareiras acesas. Um miasma, tinha-lhe chamado. Como uma nuvem de pestilência que estava lá e não se via. Eric tinha pegado no seu filho e fugido dali para fora. A mãe do menino tinha morrido no castelo, de doença súbita e febril. O menino tinha parado de comer. Eric, era a única explicação, tinha entrado em pânico. O desgosto tinha-lhe afectado a imaginação. Que havia algo, uma presença.
Mas agora Hildegaard observava o menino. Também ele inquieto com a aproximação do castelo. Que Eric acreditasse em fantasmas inventados no luto e na dor, era plausível. Mas o menino tinha um ano e meio, não tinha idade de acreditar em nada. Talvez ainda recordasse a mãe? A vaga lembrança de a ter perdido? A paisagem daquela estrada?
Não havia nada no castelo, nunca tinha havido. Hildegaard tinha a certeza. Estava ali para garantir ao seu primo que tinha imaginado coisas. Eric encontrava-se num estado lamentável. Digno de pena. Desfeito em lágrimas aos pés da campa a chorar uma morte ainda mais recente. Um segundo amor inesperado e breve. Dois lutos em tão poucos meses abalariam qualquer um, até ao imperador a quem chamavam o Implacável. Hildegaard tinha-se preocupado ao vê-lo assim. Vulnerável, sozinho, de cabeça perdida.
Só por isso tinha mudado de ideias a meio da viagem e decidido acompanhá-lo a casa. Guiada pelo coração. Mas agora começava a arrepender-se. Eric estava destroçado, mas era forte e recuperaria. Não havia luto que o tempo não curasse. E Hildegaard julgava-se mais sensata do que isso. Não devia estar ali. Queimavam bruxas, ali.
Em volta da carruagem, os homens da escolta do imperador tinham-se calado também. Ainda no dia anterior se tinham mostrado tão contentes por voltar a casa, mas agora seguiam em silêncio taciturno, como se nem soubessem o que os acabrunhava.
E então o menino deslizou do banco e pôs-se à janela. Em bicos dos pés, as mãozinhas apoiadas na porta, a cabeça loira a espreitar o caminho em frente, como se algo o sobressaltasse. Às vezes aquele rapazinho parecia ter o dobro da idade. Outras vezes era tão bebé ainda.
– Pima Higá! – tinha ele tentado, vezes sem conta, pronunciar-lhe o nome. Hildegaard ria-se, divertida, quando o pai o tentava corrigir. Em vão. Por agora, o menino chamava-lhe só Pima. Hildegaard também nunca lhe chamava Eric, o mesmo nome do pai. Para ela, aquele menino seria sempre o priminho.
Hildegaard quase sorria à lembrança, quando viu também. Lá fora, ao correr da estrada, uma neblina. Uma nuvem, invisível a olhos comuns. Já estavam dentro dela, e era fria e densa. Arrepiava a pele. Mas ninguém naquela escolta via outra coisa senão nevoeiro. Eric suspirou, de olhos baixos. Ele também não via. Mas todos a sentiam, à presença. Ainda nem se avistava o castelo e já ali estava.
E o menino, veria a neblina como ela era? As crianças eram mais sensíveis. Muitas nasciam com o dom, mas perdiam-no. Não significava nada.
O pequeno Eric recuou até ao pai. De repente o seu rosto de bochechas rosadas ameaçava desatar em pranto, como o bebé que era ainda.
A carruagem virou uma curva e Hildegaard vislumbrou o castelo. Imponente, cinzento como rocha. E à volta dele a neblina, espessa, branca, fluida no ar. Como uma cobra, serpenteava em volta das velhas paredes. Só o topo da antiga torre de vigia lhe escapava nas alturas. Hildegaard arrepiou-se outra vez e pôs a cabeça de fora para olhar melhor. Que era aquilo? Mas que raio era aquilo?
– Não chores. – Eric pedia ao seu filho, sentando-o de volta no banco a seu lado. E olhando-o nos olhos, continuou, como se lhe adivinhasse os receios: – Vais ser um rapazinho forte e corajoso. Estamos em casa. O pai está aqui.
Suavemente, Eric penteava-lhe os cabelos com os dedos, só um pai a tranquilizar o seu filho. O queixo do menino tremia, ameaçando chorar mas contendo as lágrimas. Valentemente, queria acreditar na protecção daquele braço forte que o amparava pelos ombros, mas era como se hesitasse, como se soubesse que o seu pai não via o que ele via.
E finalmente aqueles olhos azuis, indefesos, voltaram-se para Hildegaard. Tu vês?, pareceu-lhe ouvir. Não em palavras. Só pensamentos difusos. Mas naquela idade não significava nada.




Continua.