quinta-feira, 22 de março de 2018

Nepenthos - Capítulo I - primeira parte



Se era mau, tinha regressado pior.


I
Os novos tempos


Eric, o imperador, era chamado o Implacável. O taberneiro não sabia muito bem o que a palavra significava mas não achava que o jovem soberano fosse assim tão mau, tão cruel como tal cognome o anunciava.
Ali, na taberna da vila real, sempre tinha sido um bom freguês, que não reclamava da cerveja e pagava com rica moeda, e nunca dele tivera razão de queixa. Naquela noite de outono, como já não seria a primeira vez, até lhe tinha enchido a casa com os seus capitães e homens de armas mais chegados, e os nobres seus amigos que na guerra tinham conquistado títulos e glória. Celebravam a vitória e lembravam as façanhas de muitas batalhas, e riam e brindavam, e comiam e bebiam e não se faziam rogados aos favores das mulheres que lhes punha à disposição. Uma excelente noite para o negócio, aquela! O taberneiro sempre tinha pensado que implacável se dizia de um tirano ou de um bruto, um daqueles nobres que se serviria sem pagar e permitiria que todos aqueles homens bem bebidos se portassem como uma vara de porcos e arranjassem brigas e lhe partissem tudo sem olhar ao prejuízo. Não era assim o soberano Eric, nem na taberna nem no governo do reino. Não se lhe conhecia uma decisão injusta ou insensata. Exigia dos seus súbditos apenas o devido e razoável tributo e não os roubava do seu sustento. Impunha respeito, a sua altiva presença, e honrava as modestas salas da velha taberna onde a flor do exército vinha celebrar e fazer despesa sem causar estragos, e o taberneiro não o considerava assim tão mau.
Há algum tempo, já depois da guerra, um homem de armas veterano, mas pelo porte e pelo falar alguém de saber e erudição, tinha passado pela taberna, e no ócio de uma noite de vinho tinha explicado ao taberneiro que a palavra implacável tinha também outro sentido. Chamavam assim ao jovem imperador pelos seus feitos na guerra. Em quatro anos apenas, tinha posto fim ao conflito sangrento e centenário que durante gerações tinha dividido a nobreza. Não o conseguira somente pela força das armas, mas pela astúcia também. Imune aos ódios antigos, Eric aliciara aliados entre nobres e plebeus, entre grandes e pequenos, propondo-se a restaurar a paz e a prosperidade àquele reino assolado. Tinha ido ainda mais longe, contra a lei e o costume, oferecendo liberdade aos servos que obrigados ao jugo dos seus senhores combatiam por armas inimigas. Talvez a estratégia não tivesse resultado se as promessas fossem vãs, mas Eric era também implacável no cumprimento da sua palavra. Pelo cansaço da guerra, muitos nobres se lhe juntaram em força militar. Pela esperança de liberdade, multidões de homens humildes lhe juraram sincera lealdade. Em quatro anos, quatro anos apenas, nada nem ninguém a Eric conseguira travar. Implacável, inabalável, imbatível, vencera batalha após batalha. O veterano sabia do que falava, porque tinha estado em todas elas. E tinha observado, de perto, a fulminante ascensão do jovem soberano.
Ninguém o previa. No dia em que o príncipe herdou a coroa do seu pai, Eric o Gordo, ninguém esperava nada daquele único herdeiro que aos dezoito anos se tornava rei. Ninguém adivinharia agora, ao olhar para ele, alto e forte e de saudáveis cores, que daquele mesmo príncipe, na infância, se julgava que não viveria o suficiente para lhe nascer barba na cara. Sabia-se que em menino era enfermiço, febril e débil, e que o próprio rei não considerava digno e capaz aquele seu único filho de quem em voz alta falava com desprezo. Do pouco que falava, como se o príncipe já nem permanecesse entre os vivos de tão votado à morte desde o berço que até o reino se esqueceu da sua existência. A Eric o Gordo nada parecia afligir a falta de um herdeiro a quem deixar o trono e a coroa. Continuou sempre a lutar, como se não lhe pesasse a idade, e nunca se lhe esgotou o vigor até às vésperas da morte. Morreu como tinha vivido a vida toda, em pleno acampamento militar a preparar-se para a guerra, não em batalha mas de doença súbita, ainda vestido de armadura e deitado na cama de campanha. Aos inimigos, que o esperavam de armas prontas, não importava como morria o rei. Antecipavam jubilosamente o frenesim da guerra final que ditaria qual deles conquistaria a coroa, dos vários que a cobiçavam, agora que enterrada estava a dinastia.
Ninguém contava com o príncipe. Ninguém lembrava que a coroa já tinha legítimo dono. Eric teve de se bater por ela, para salvar a própria vida dos que preferiam que não tivesse sobrevivido a qualquer que fosse a maleita que o acometera na infância e que nada hesitariam em destruir pela espada o que a natureza tinha poupado. Eric sabia-o, e foi implacável. Em quatro anos derrotou todos os seus inimigos, uniu a nobreza e estendeu a sua soberania aos pequenos reinos vizinhos que décadas de ameaça tinham arrastado para o conflito. Tão depressa o desfecho da guerra lhe conferiu o estatuto de imperador que ninguém se recordava já dos breves anos em que fora apenas rei. No fim, Eric puniu os inimigos que até ao último fôlego tinham teimado em arrancar-lhe a coroa e a vida, e foi implacável também.
E porque ninguém o tinha conseguido travar, contra tudo e contra todos e contra todas as expectativas, chamavam a Eric o Implacável. Tudo isto o veterano de guerra tentou explicar ao taberneiro, que implacável nem sempre significava cruel ou desapiedado, que significava também ser aguerrido, firme, determinado. O taberneiro não ficou muito convencido, mas já o homem de armas se interrogava, ele que tinha assistido às proezas militares e políticas do jovem soberano, como podia Eric o Gordo, pai deste, ter-se enganado tanto? Como não tinha visto, o velho rei, o valor do filho que menosprezava? Não era o primeiro a questionar-se, pois o reino inteiro sabia que nunca aquele príncipe tinha sido favorecido pelo amor do rei… nem da rainha!
Por aquela altura, o taberneiro preferiu terminar a conversa e despedir-se do freguês, porque achava que o homem já tinha bebido demais e já falava do que não devia, e o taberneiro não estava mesmo nada convencido de que o soberano a quem apelidavam de Implacável ficasse muito contente se lhe chegasse aos ouvidos que alguém murmurava sobre os tempos em que era um menino doente, desprezado pelo pai e repudiado pela mãe. Não, não lhe parecia que Eric o Implacável gostasse de se lembrar do que todo o reino sabia, e ninguém melhor do que as pessoas da vila conheciam o que se tinha passado dentro do castelo real, ali tão perto. Pudesse o taberneiro tagarelar livremente e teria recordado àquele forasteiro que tudo tinha começado com o casamento entre o rei, Eric o Gordo, quando este era já um homem maduro sem esposa nem herdeiros, e a jovem rainha Elena, obrigada àquele matrimónio com o velho soberano, barrigudo como lhe ficara por cognome, e desleixado como um homem de guerra demasiado habituado ao cheiro a sujo dos companheiros de batalha, que a repugnava. E que era um inimigo, ainda por cima! Nem tinha sido outra coisa senão uma tentativa de aliança e tréguas entre clãs inimigos o que os unira naquele casamento. Tréguas, nunca houve nenhumas. Dentro do castelo, a guerra continuava entre esposos. Todo o reino sabia que se odiavam, e que após ter dado à luz aquele único herdeiro a rainha tinha fechado o leito ao seu marido, concluído que estava o seu sacrifício, e recusado dar-lhe mais filhos. E a rainha fez mais. Rejeitou aquela criança e entregou o menino às amas, desde o dia em que nasceu, e nunca o príncipe Eric conheceu dela qualquer semelhança de uma mãe. O resto era também verdade. O menino revelou-se doente, os médicos não lhe auguravam que sobrevivesse, e o rei seu pai não gostou nada de se ver atraiçoado naquele matrimónio sem esposa cujo único resultado era fraco e doentio e moribundo. Partiu novamente para a guerra, sem intenções de regressar, e esqueceu-se de que alguma vez tivera mulher ou filho. Durante anos, a nobreza esperou avidamente que Eric o Gordo morresse de velho, se não antes em batalha, para que a coroa caísse na cabeça do mais forte. Já não faltaria muito tempo. E quanto àquela descendência enferma, fruto tardio e enfezado, não era sequer coisa que se levasse em consideração. Dizia-se até do príncipe que se por milagre sobrevivesse ao seu pai não teria nesse dia uma única saia a que se agarrar.
Mas o príncipe Eric sobreviveu sem uma única saia a que se agarrar. E cresceu com um temperamento estranho, reservado, demasiado pensativo para um menino da sua idade. Rejeitou as amas, todas as amas, e cedo também os criados, resolvido a tomar conta de si próprio, mesmo doente, mesmo necessitando dos cuidados que não tolerava, e preferia ficar, calado e sério, a cismar na solidão dos seus aposentos. Disto sabiam melhor os habitantes da vila real, das conversas com os serviçais do castelo, e murmuravam-se rumores sobre aquele príncipe que nunca sorria e não falava com ninguém. O taberneiro não se atrevia agora a recordar esses rumores, porque o rapazinho enfermo não pereceu como se julgava, antes o passar dos anos lhe foi benéfico e a sua saúde ia melhorando a olhos vistos… na mesma medida em que piorava o seu feitio. Diziam os criados do castelo que se tornava sisudo e frio, tão frio que a ninguém se apegava, mas também altivo e distante, e colérico! Os criados já temiam aquele pequeno amo de humor irascível que lhes gritava cada vez mais alto quando não satisfaziam imediatamente as suas ordens. Teria aprendido com o rei e a rainha, que nos últimos tempos de convivência forçada já nada se importavam de levantar a voz um para o outro como não era digno de nobres de tal estirpe? Mas há anos que o rei se ausentara do castelo, e suspeitava-se que nunca mais regressasse dos acampamentos enlameados daquela guerra que era a sua verdadeira e única paixão, e também a rainha tinha partido, para as terras da sua família de onde nunca tinha desejado sair. Ficara o príncipe, sozinho, o fedelho que nem devia ter passado do berço e que agora ameaçava ser muito capaz de comandar a casa real com mão de ferro! Ninguém de entre os criados escondeu o alívio quando o príncipe foi enviado para um mosteiro, a última disposição da rainha quanto àquele filho que contra todas as expectativas tinha atingido idade de ser educado. Eric não voltou ao castelo da vila real senão depois da guerra, e quando voltou, que diferença!...
Do menino doentio e pálido já não restava sequer vestígio no soberano vitorioso que empunhava a espada com que tinha decepado inimigos no campo de batalha, lado a lado com os seus capitães e com igual temeridade. As mulheres da taberna diziam que se fizera um belo homem, de cabelos louros de um invulgar tom de escuro e uns olhos de um azul profundo como um céu de verão ao pôr-do-sol. A figura de homem a quem não venderiam os seus favores, antes cobiçavam os dele… Mas não chegaram a afoitar-se, assim que descobriram, bem cedo, que algo não tinha mudado. O temperamento, frio e distante e altivo; a voz, com que dava ordens a que ninguém se atrevia a desobedecer; o olhar, superior, com que punha todos no seu devido lugar. As mulheres preferiam não se aproximar se não fossem chamadas. Porque agora já sabiam, como o taberneiro também sabia, pelos criados que presentemente serviam no castelo, que o imperador continuava irascível, e colérico, e que era pior na intimidade do seu lar, onde a diplomática conduta de um soberano ficava à porta e a paciência se lhe esgotava ainda mais depressa do que nos dias em que tinha sido o jovem amo daquela casa. Se era mau, tinha regressado pior.
O taberneiro, e todas as pessoas da vila, conheciam melhor o homem que tinha sido menino, e as suas peculiaridades e bizarrias, e preferiam que as cóleras permanecessem entre as paredes do castelo. Os criados, poucos, porque era uma das extravagâncias do novo soberano não gostar de muita gente em sua casa, que se entendessem com elas. Pois o taberneiro, no seu estabelecimento, não tinha razão de queixa.
Pelo contrário, o negócio tinha deveras melhorado desde o fim da guerra! Não havia quem pudesse dizer que não estava agora mais rico, e notava-se, ali na taberna, onde a moeda fluía. Um soberano assim não podia ser completamente mau, meditava o taberneiro ao servir ele próprio, debruçado numa vénia obsequiosa, todas as canecas de cerveja daquela mesa a que o imperador se sentara com os seus favoritos, e ao vê-lo rir, de qualquer peripécia engraçada que relembrava os dias das armas, já não pareciam tão intimidantes aqueles olhos de azul profundo. Mas o taberneiro sempre preferia que aquele olhar não o fitasse com atenção, não fosse este adivinhar que sabia mais do que devia, porque não era por nada que lhe chamavam o Implacável…
– Quatro anos, quatro miseráveis anos! Sem contar com os tempos do rei! – recordava o jovem conde Malkom, sentado ao lado do imperador como era privilégio dos seus maiores amigos. Voltou a molhar os lábios na cerveja e continuou, de sobrolho levemente franzido e sem a mesma jocosidade dos convivas reunidos à volta da tosca banca de madeira daquela taberna ignóbil onde ninguém era obrigado a comportar-se à altura da sua posição. – Ainda me custa a crer que já não sei o que é dormir no chão de uma tenda de campanha há quase dois anos! Pior que o inimigo, eram as pulgas!




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